Há uma proximidade comovente entre essa cena e a Pietà. A mãe sustenta o filho morto; o velho se curva sobre a ossada amada. Em ambos, o corpo que perdeu a vida continua recebendo cuidado. As mãos insistem em amparar. Os lábios ainda procuram beijar. O afeto reconhece aquilo de que o tempo já retirou a forma familiar.
Diante do “palácio em ruína”, a prece procura seu antigo morador. A fé de Padre Mello se concentra nessa imagem: alguém habitou aquele corpo, sorriu por aqueles lábios, olhou o mundo por aqueles olhos. O velho busca em Deus a continuidade desse alguém.
Existem dias em que uma cidade inteira parece caminhar mais devagar. O dia de Finados modifica o destino das flores, traz de volta nomes guardados e conduz nossos passos para as alamedas onde repousam aqueles que amamos. Levamos água, uma escova, um ramo de rosas. Diante da pedra, porém, percebemos que desejávamos mesmo era cuidar, mais uma vez, de quem já não podemos abraçar.
No alto do morro, a Capela Nossa Senhora do Rosário recebe os olhares de quem passa pela rua Aristides Figueiredo, em Bom Jesus do Itabapoana. As cores renovadas pela prefeitura municipal realçam sua beleza e acolhem os visitantes. Entre as sepulturas, pessoas ajeitam vasos, retiram pequenas folhas trazidas pelo vento. A saudade se ocupa dessas tarefas humildes. Às vezes, uma mão demora sobre o mármore, como se esperasse reconhecer ali o calor de outra mão.
As esculturas acompanham esse trabalho silencioso. Uma imagem de Jesus oferece à dor humana a serenidade de seu semblante. Nossa Senhora permanece em vigília sobre uma sepultura. Na Pietà, o filho repousa no colo materno, e a pedra guarda o peso de um corpo que a mãe ainda sustenta. Quem se detém diante dela talvez se lembre de um colo, de uma despedida, de alguma ocasião em que também quis proteger do sofrimento alguém que amava.
Nesse jardim das saudades, os versos do açoriano Padre Mello encontram uma dolorosa intimidade com o que vemos. Escrito em Sapucaia, em 1897, seu poema acompanha uma romaria até o cemitério e, entre tantos rostos, demora o olhar sobre um velho. A multidão fica ao redor; o poeta se aproxima de um gesto. Vale ouvi-lo integralmente:
EM DIA DE FINADOS
Ao lúgubre gemer do triste campanário
vi muita gente correr em grande romaria.
Morrera em cada olhar o raio de alegria
surgindo em cada fronte o aspecto funerário.
Segui a multidão e fui ao cemitério;
vi grupos em redor de túmulos silentes,
vi rosas desfolhar e lágrimas ardentes
quais pérolas cair por sobre o chão funéreo.
Além, sublime quadro! Um velho venerando
vai com vagar abrindo a envelhecida urna,
ajoelha e contempla a ossada taciturna
e, mistérios do amor! ... beija-a de quando em quando.
Depois, ao céu, erguendo os olhos com piedade
balbucia uma prece. Era a crença divina
que, vendo na ossada, um palácio em ruína,
buscava o morador além da Eternidade!
Sapucaia, 1897 — Padre Mello
Depois desses versos, permanecemos algum tempo ao lado daquele velho. Padre Mello não nos diz quem ele perdeu. Deixa-nos diante do amor em sua expressão mais desamparada: o homem abre a urna, ajoelha-se e beija os restos de alguém cuja presença continua inteira em sua memória.
Naquele beijo, cabe uma vida que desconhecemos. Talvez o velho ouvisse uma voz, recordasse uma mesa posta, uma janela aberta ao fim da tarde. O poeta preserva esse segredo. Basta-lhe mostrar a ternura com que o homem se inclina, vencendo por um instante o temor que a morte costuma despertar.
Há uma proximidade comovente entre essa cena e a Pietà. A mãe sustenta o filho morto; o velho se curva sobre a ossada amada. Em ambos, o corpo que perdeu a vida continua recebendo cuidado. As mãos insistem em amparar. Os lábios ainda procuram beijar. O afeto reconhece aquilo de que o tempo já retirou a forma familiar.
Então o velho ergue os olhos.
É um movimento pequeno, mas nele o poema encontra sua abertura para o infinito. Diante do “palácio em ruína”, a prece procura seu antigo morador. A fé de Padre Mello se concentra nessa imagem: alguém habitou aquele corpo, sorriu por aqueles lábios, olhou o mundo por aqueles olhos. O velho busca em Deus a continuidade desse alguém.
Pelas alamedas do nosso cemitério, outras pessoas também erguem os olhos depois de ajeitar as flores. Algumas rezam; outras ficam caladas. Uma lembrança pode chegar tão nítida que por um momento parece possível escutar os passos de quem partiu. Depois, o vento passa, uma folha se move, e seguimos devagar.
A capela permanece no alto do morro. Sobre os túmulos, as imagens de pedra guardam seus gestos de amparo. Mais flores chegam, trazidas por mãos que envelheceram e por mãos de crianças que começam a conhecer os nomes de sua família.
E os versos de Padre Mello poderão acompanhar cada visitante nesse breve caminho entre a sepultura e o céu. Há mais de um século, seu velho venerando continua ajoelhado na página. Quando finalmente levanta o rosto, leva consigo o nosso olhar.
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| Capela de Nossa Senhora do Rosário |




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