segunda-feira, 14 de junho de 2021

O inventário de Antônio Teixeira de Siqueira, em 1855, e Padre Mello

Padre Mello deu a Bom Jesus sua história


Segundo Padre Mello, em seu texto "Primórdios de Bom Jesus", inserido no livro "Padre Mello, Prosa e Versos", editado por Delton de Mattos, em 2005, sua principal fonte de informação sobre a história de Bom Jesus foi Antônio Teixeira de Siqueira (outras fontes foram Dona Francisca de Paula Figueiredo Soares, Manoel Pinto de Figueiredo, Adelino Gonçalves, Juvenato Theotônio da Silva, Francisco José Borges e Antônio dos Santos Lisboa).

Foi entrevistando os mais antigos moradores de Bom Jesus, a partir de 1899, quando aqui chegou, que Padre Mello "doou" a Bom Jesus a sua história, como registrou certa vez Elcio Xavier, o Príncipe dos Poetas.

Padre Mello considera que Antônio Teixeira de Siqueira chegou a Bom Jesus antes de 1850. Segundo o pároco açoriano, "ele comprou de Silva Pinto a Fazenda da Barra e, naquele ano (1850), já Silva Pinto tinha construído a casa-mater, de que tenho falado, para mudar-se da Barra".

A pesquisadora Cristina Borges recebeu de Dona Nina, cópia do inventário de Francisco Teixeira de Siqueira, de 1855


Por outro lado, segundo o inventário de Francisco Teixeira de Siqueira, falecido em 3 de novembro de 1855, em Vila do Pomba (MG), pai dos irmãos Francisco, Antônio e José Teixeira de Siqueira, entre outros -  cuja cópia foi entregue pela Dona Nina à pesquisadora Cristina Borges -  "deve o casal do Inventariado a Francisco da Silva Pinto, de resto na compra da Fazenda sita no Itabapoana a quantia de 6 contos e 500 mil réis", sendo registrado o seguinte sobre a fazenda: "Fazenda da Barra no Itabapoana, distrito de Bom Jesus, Ribeirão do Pirapetinga em comum com Antônio Teixeira de Siqueira e Francisco Teixeira de Siqueira".

Como Padre Mello assevera que os três irmãos Antônio Teixeira de Siqueira, Francisco Teixeira de Siqueira e José Teixeira de Siqueira residiam na Barra do Pirapetinga, uma hipótese razoável é a de que José Teixeira de Siqueira tenha pago o que era devido ao Alferes e, assim, se unido aos dois irmãos na fazenda da Barra do Pirapetinga, após 1855.


domingo, 13 de junho de 2021

Usina Hidrelétrica Itaipu: visita de uma bonjesuense


Dra. Stephanie Rezende Alvarenga Moulin Mares






A Usina Hidrelétrica Itaipu Binacional começou a ser construída em 1975, no governo militar do General Geisel. Como o rio Paraná pertence ao Brasil e ao Paraguai, criou-se uma empresa de direito internacional, metade do governo federal brasileiro e metade do governo paraguaio.

Na época, o investimento foi de 100 milhões de dólares, parte custeado por empréstimos feitos com bancos internacionais; ainda hoje sendo pagos em prestações mensais.

A empresa gera cerca de 40 milhões de watts por ano (o equivalente ao uso de 500 mil barris de petróleo, se fosse uma termoelétrica).

Tem 3 mil funcionários!

Demorou 16 anos para ser construída e 143 funcionários morreram em acidentes de trabalho durante a construção.

Inúmeras pessoas e instituições foram fundamentais para que tudo desse certo. A Diretoria de Hidrografia e Navegação (DHN) da Marinha do Brasil, por exemplo, exerceu importante papel no estabelecimento da cota da lâmina de água do rio, junto à Comissão de Levantamento do Rio Paraná (CLRP).

Na lateral da estrutura ficam 3 comportas, que só ficam abertas extravasando um jato alto de água, se o nível do reservatório ficar acima de sua capacidade. Não era o caso, por isso estavam fechadas durante a visita feita em 23 de maio de 2021. As comportas têm ficado abertas cerca de 2 vezes por ano.

A usina tem 20 enormes turbinas. À frente delas há um prédio com a sala de controle de máquinas. O trajeto lembra a praça de máquinas de um navio, porém de um tamanho que vai além do que os olhos podem ver!

Foi um passeio adorável essa maravilha da engenharia!








* Dra. Stephanie é médica cardiologista da Marinha do Brasil e possui mestrado e doutorado na área de Fisiologia Cardíaca.

11 de junho: O EX-GOVERNADOR ROBERTO SILVEIRA COMPLETARIA 98 ANOS DE IDADE





O ex-governador Roberto Silveira estaria completando, dia 11 de junho, 98 anos de idade. Nasceu no Sítio Rio Preto, distrito de Calheiros, em Bom Jesus do Itabapoana. Logo depois, foi morar na Fazenda São Tomé, onde seu pai, Boanerges, respondeu a uma pergunta, lhe dizendo que teria nascido em cima de uma pedra. E a pergunta fora motivada pelo fato de um dos seus irmãos, Badger,  ter sido informado que fora encontrado numa moita de bananeira, enquanto o irmão Zequinha fora localizado próximo a uma porteira. 

Essa foi a razão pela qual o escritor João Sérgio Rocha deu título à sua grande obra "ROBERTO SILVEIRA, A PEDRA E O FOGO". A pedra significava sua "origem". O fogo significou o modo como morreu, no dia 28 de fevereiro de 1961, após um período em que passou internado em hospital, em decorrência dos ferimentos decorrentes da queda de um helicóptero, interrompendo sua ascensão à presidência da República. Sua morte gera, até hoje, sérias especulações de que ela teria sido planejada através de uma "preparação" da aeronave.

Em 2014, O Norte Fluminense já abordava esta questão, no link que segue.

http://onortefluminense.blogspot.com/2014/05/assassinato-do-governador-roberto.html

No dia 7 de agosto de 2016, a Associação dos Amigos do Memorial Governadores Roberto e Badger Silveira, protagonizou um momento histórico em nosso município: inaugurou o Memorial em honra aos dois ex-mandatários bonjesuenses, com o apoio da comunidade, dos amigos e da família Silveira e seus amigos. 

Memorial Governadores Roberto e Badger Silveira: preciosidade bonjesuense no Sítio Rio Preto, distrito de Calheiros.

Vejam como foi o evento no link que segue. 
http://memogovrobertoebadgersilveira.blogspot.com/search/label/Roberto%20Silveira

O vídeo do emocionante acontecimento pode ser visto em:
http://memogovrobertoebadgersilveira.blogspot.com/2017/10/phillip-johnston-e-rocio-salazar.html

A seguir, a relação das personalidades que estiveram presentes na inauguração do Memorial.

http://onortefluminense.blogspot.com/2016/08/inauguracao-do-memorial-governadores.html?m=1

Vejam fotos inéditas de Roberto Silveira, a seguir.

http://onortefluminense.blogspot.com/2016/08/fotos-ineditas-do-cinegrafista-oficial.html

O Norte Fluminense registrou algumas relíquias doadas ao Memorial por Ismélia Silveira, viúva de Roberto Silveira, no seguinte link.

http://onortefluminense.blogspot.com/2016/08/viuva-de-roberto-silveira-doa-reliquias.html

Assistam a vídeos com músicas em homenagem à Silveirada.

SEMEANDO PRIMAVERAS (homenagem ao pai de Roberto, Badger, Zequinha, Maria da Penha e Dinah Silveira)
https://www.youtube.com/watch?v=zMWe65GGyzo

SIMPLESMENTE ISMÉLIA
https://www.youtube.com/watch?v=QRix1YCW8Ns
ROBERTO SILVEIRA E A PEDRA



Do livro "A PEDRA E O FOGO, ROBERTO SILVEIRA", de João Sérgio Rocha, Casa Jorge

Roberto Silveira vive!

quinta-feira, 10 de junho de 2021

Bom Jesus e região ganharão um ateliê que pretende revolucionar a cultura

 


O aclamado artista plástico, restaurador, historiador de arte, escritor e poeta Adilson Figueiredo está trazendo para Bom Jesus do Itabapoana um projeto inovador: um Café Ateliê nominado "Cafézin".
 Segundo Adilson,
"estou transferindo meu ateliê, Café Atelier do Pátio, localizado na Antiga Fábrica Bhering, do Rio de Janeiro, para Bom Jesus".

Com endereço localizado na Avenida José de Oliveira Borges, no. 616, Adilson informa que pretende estabelecer "um espaço de arte, uma galeria, um café, um local para exibição de filmes e discussão sobre arte e literatura. Pretendo, ainda, promover saraus de poesia, aulas de desenho, de pintura e escultura. Resumindo, pretendo promover a 
cultura geral".

Adilson Figueiredo faz parte do Conselho Municipal de Tombamento de Bens Culturais em Bom Jesus do Itabapoana e é membro da Academia Bonjesuense de Letras.
Trabalhou na Secretaria do Governo do Estado na área da cultura, no Museu do Ingá e no Museu da Imagem de Som (MIS). Trabalhou, ainda, por 10 anos, no INEPAC (Instituto Estadual de Patrimônio Artístico e Cultural).

"Pretendo promover cursos pela manhã, à tarde e à noite. Aos  sábados, idealizo realizar cinemas de arte, com telão. Desejo, ainda, estabelecer
um dia de poesias, abrir espaço para o teatro, realizar
palestras sobre artes e promover Feiras Literárias. Pretendo dinamizar o máximo possível a área cultural, procurando trazer a juventude para essa área. Desejo incentivar, também, o voluntariado, para que as pessoas interessadas possam estar no ateliê se integrando ao ambiente artístico, assim como, quiçá, ganhar bolsa. Almejo, ainda, realizar parcerias para descobrir novos talentos artísticos".

"Saí de Bom Jesus quando eu tinha 15 anos de idade, e fui estudar no Instituto Abel, em Niterói. Depois, formei-me na Escola Nacional de Belas Artes, no Rio de Janeiro. Posteriormente, ingressei na 
primeira turma da Faculdade de Restauro da Estácio de Sá. Em seguida, cursei
Pós-Graduação na Faculdade do Mosteiro de São Bento em História de Arte Sacra, no Rio de Janeiro.
Apresentei minha monografia no Congresso Internacional do Barroco Luso-brasileiro, em Braga, Portugal. O tema foi o antigo Convento de São Boaventura de Macacu. Fui diversas vezes à Europa conhecer os bastidores de museus".

"Quero retribuir à minha cidade tudo o que recebi.
Quero contribuir para o desenvolvimento cultural da minha cidade.
Acho que Bom Jesus e região precisam e merecem um espaço agradável que promova encontros, eventos, reunião de artistas e, também, discussão sobre turismo, entre outros". 

Adilson considera possível inaugurar seu ateliê em agosto, o que seria um momento histórico para nosso município. 

 Inscrições para os cursos e contato: 21_999696283.
Instagram:
@cafezinatelier
Facebook:cCafezin. 

Para consultas:
FACEBOOK:
Cafeatelier dopatio

Instagram:
adilsonfigueiredo315.

E-mail: figueiredoadilson@yahoo.com.br














Café Atelier do Pátio, na Antiga Fábrica Bhering/RJ. Adilson está transferindo seu atelier do Rio de Janeiro para Bom Jesus


Gênio de Raul Travassos brilha em Campos dos Goytacazes


Em 2011, o genial Raul Travassos brilhou, mais uma vez, ao assentar uma Capela particular na casa do bispo Dom Fernando Rifan, em Campos dos Goytacazes.

Raul Travassos corrobora, assim, que é um artista universal!










10 de junho: Padre Mello compôs poesia em homenagem a Camões


O  genial açoriano, Padre Mello, da ilha de São Miguel, era um grande admirador de seu compatriota, Camões. Em 1932, compôs uma poesia em homenagem ao bardo, com a seguinte recomendação: "Soneto composto expressamente para o dia de Camões (10 do corrente) e dedicado pelo autor à Colônia portuguesa de Campos".

O jornal O Norte Fluminense se associa às homenagens a Camões, a Portugal e às Comunidades de Língua Portuguesa, postando o famoso soneto escrito por Padre Mello.


CAMÕES, GÊNIO IMORTAL


Depois que dos barões assinalados
foste o nome espalhando em toda parte
e com tão alto engenho e com tal arte
que da morte as fizeste libertados;

depois que nos teus versos sublimados,
que não se encontra quem de os ler se farte,
ofereceste à Pátria um estandarte
que arranca ao mundo culto estranhos brados:

morres ao fim.Contigo a Pátria morre,
tu nas mãos do infortúnio, ela, na Espanha,
mas sem que do inimigo o sangue jorre.

Vence o patriotismo árdua campanha:
revive a Pátria independente e forte,
e tu revives superando a morte.

Junho de 1932

Padre Mello


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Padre Mello era apreciador das obras de Camões

segunda-feira, 7 de junho de 2021

18 de junho: CHEGADA DE PADRE MELLO A BOM JESUS, EM 1899



Padre Mello chegou em Bom Jesus do Itabapoana no dia 18 de junho de 1899


O Blog do ECLB (Espaço Cultural Luciano Bastos) postou, em 2015, um importante texto sobre a chegada de Padre Mello a Bom Jesus do Itabapoana, há 122 anos, que reproduzimos a seguir.

http://espacoculturallucianobastos.blogspot.com/2012/04/padre-antonio-francisco-de-mello-o.html

Sobre a chegada de Padre Mello a Bom Jesus, há interessante artigo de Osório Carneiro, publicado em O Norte Fluminense, em 23 de abril de 1972, e que reproduzimos a seguir:

UM NOME INESQUECÍVEL
Como chegou a Bom Jesus o saudoso Padre Mello

    A esta altura já não há quem ignore que o saudoso Padre Antonio Francisco de Mello era natural da Ilha de São Miguel, em Portugal, onde nascera no dia 27 de abril de 1862. Vivo pudesse estar, contaria agora, 110 anos de idade. Não dispomos de nenhum elemento, infelizmente, que possa comprovar a data certa de sua chegada ao Brasil. Sabemos, no entanto, que chegado ao nosso país, a primeira paróquia que lhe coube dirigir foi a de Sapucaia, município fluminense, onde serviu por vários anos, sendo dali, posteriormente, transferido para Bom Jesus do Itabapoana, aqui chegando precisamente no dia 18 de Junho de 1899, quando se processava, por sinal, um pleito eleitoral, achado-se bastante movimentado o antigo povoado.
      Há uma particularidade interessante, no entanto, que muita gente ignora. A viagem do virtuoso sacerdote não se processou diretamente. Veio ele por trem da Leopoldina até Ponte do Itabapoana, onde baldeou para um outro trem da nossa antiga estradinha de ferro, já extinta, vindo a desembarcar na estação de Boa Vista, hoje Apiacá, que era o ponto final da linha, onde não havia casa de hospedagem, ali pernoitando por gentileza, na residência do sr. Francisco Turco, comerciante no povoado. Mas não se achava só, o Padre Mello. Duas senhoras, também de nacionalidade portuguesa, o acompanhavam na sua viagem. Uma era a sua irmã, d. Mariquinha Mello, e outra d. Cândida, que vieram juntos da ilha de São Miguel no mesmo transatlântico, sem que existisse essa senhora e os dois irmãos qualquer grau de parentesco. Eram apenas, em sua pátria de origem, vizinhos e bons amigos, muito unidos, formando por assim dizer, uma só família cristã.
       E assim é que, após haver dispensado todas as atenções aos seus distintos hóspedes, de maneira acolhedora, no dia seguinte, 18 de Junho de 1899, o sr. Francisco Turco os conduziu pessoalmente até Bom Jesus, de montaria, visto não haver, na época, nenhum outro meio de condução. Desde então o Padre Mello assumiu a condução espiritual de sua nova paróquia, onde serviu perto de meio século, nela permanecendo, como verdadeiro pastor de almas, até a sua morte, verificada a 13 de Agosto de 1947. A população, no entanto, jamais o esquecerá. Seu nome se acha, para sempre, ligado à história de nossa terra. A cada ano que passa mais a sua memória se agiganta na alma do povo, passando, assim de geração em geração.


Padre Mello foi vigário da Paróquia de Bom Jesus por 48 anos, tendo falecido em 13.08.1947, justa vc
mente durante os festejos que ajudou a instituir no município, e que deram origem à Festa de Agosto.


A Festa em louvor do Divino Espírito Santo era tradição na Ilha de São Miguel, e acabou sendo incorporada à tradição do município de Bom Jesus, no período de 13 a 15 de agosto.


Considerado por todos uma das figuras mais ilustres de nossa terra, Padre Mello não se limitou a sua atuação religiosa. Nas palavras de Luciano Bastos, em artigo intitulado "Bom Jesus, sua administração e Padre Mello", publicado em O Norte Fluminense, Padre Mello "teve papel importantíssimo no desenvolvimento da nossa terra, não apenas no setor religioso, mas no educacional, administrativo, social e em nossa emancipação política".



 Carta manuscrita escrita por Padre Mello no ano de 1941
destinada à Diretora do então Ginásio Rio Branco
Acervo: Espaço Cultural Luciano Bastos


Poeta e jornalista, Padre Mello foi o autor do Hino do Colégio Rio Branco, compondo Música e Letra.

Seus poemas refletem o interesse que teve em vida por diversos e variados temas. Aos temas religiosos, somam-se diversos outros que ajudam a compor uma parte da história de Bom Jesus na primeira metade do século XX.

A seguir alguns de seus  aplaudidos poemas: 

CARROS DE BOIS 

Por caminhos da roça tortuosos
estreitos e cavados, vão passando
velhos carros de bois, estes cantando,
aqueles em gemidos lamentosos.

Mas sendo iguais e todos preciosos
os frutos da terra vão levando,
e se o destino igual os vai guiando,
por que vão cantando e outros chorosos?

Que diga o coração da humana raça
quão variadamente ele palpita
se é varia a onda que por ele passa.

De dores e de alegrias no transporte,
tal como carro, canta chora, grita,
conforme o aperto dos cocões da sorte.

***

CONTRASTE

                            A um sino que serviu nas senzalas adquirido há
                           tempos pela Liga Católica de Itaperuna

Quão diferente tua voz agora
Que tão suave ao coração nos fala
daquela que bem junto da senzala
às gerações servís falava outrora!

Ao pobre escravo ias dizer: Lá fora
uma enxada te espera: entre na ala!
E no entretanto pelos vãos da sala
não penetrava ainda a luz da aurora.

Hoje porém é outro o teu ofício:
ou nos congregas em união fraterna
ou nos chamas ao Santo Sacrifício.

E sempre a despertar, meu velho sino,
não os escravos da servil taberna
mas os escravos do Amor Divino

***

MORRER SONHANDO

Cedo, bem cedo, perderei a vida
Planta ferida no mimoso pé.
Teu desengano perecer me ordena,
Na idade plena de esperança e fé.

Porém a morte me é suave e doce
Como se fosse uma ilusão de amor;
Embora eu sinta que uma luz se apaga
Outra se afaga de eternal fulgor.

Morrer sonhando! Como é doce a morte!
Que vale a sorte que esta vida tem?!
A vida é sempre uma fugaz mentira,
A morte aspira a realidade além.

Morre este corpo de servil matéria.
Baixa à miséria do funéreo pó,
Porém minha alma sempre viva sonha
Vida risonha; não mereço dó.

Beijo-te a mão que me assassina e creio
Que ela me veio libertar ao fim.
Morrer sonhando é despertar na glória;
Eis a vitória. Morrerei assim.

***

O RELÓGIO DA TORRE

Já luz de noite o relógio
já o relógio tem luz,
já sabe a quantos se deita
o povo de Bom Jesus

Mas por que andava de noite
a torre na escuridão?
mil razões a gente dava
e ninguém dava razão.

Até se disse: "De certo
economia de luz".
Mas luz é que não faltava
nos fios de Bom Jesus.

A razão, razão suprema
com que ninguém atinou
foi que do cofre da Igreja
o dinheiro se ausentou. 

(poema publicado em 1932, no jornal "O Momento")