O Blog do ECLB (Espaço Cultural Luciano Bastos) postou, em 2015, um importante texto sobre a chegada de Padre Mello a Bom Jesus do Itabapoana, há 122 anos, que reproduzimos a seguir.http://espacoculturallucianobastos.blogspot.com/2012/04/padre-antonio-francisco-de-mello-o.htmlSobre a chegada de Padre Mello a Bom Jesus, há interessante artigo de Osório Carneiro, publicado em O Norte Fluminense, em 23 de abril de 1972, e que reproduzimos a seguir:
UM NOME INESQUECÍVEL
Como chegou a Bom Jesus o saudoso Padre Mello
A esta altura já não há quem ignore que o saudoso Padre Antonio Francisco de Mello era natural da Ilha de São Miguel, em Portugal, onde nascera no dia 27 de abril de 1862. Vivo pudesse estar, contaria agora, 110 anos de idade. Não dispomos de nenhum elemento, infelizmente, que possa comprovar a data certa de sua chegada ao Brasil. Sabemos, no entanto, que chegado ao nosso país, a primeira paróquia que lhe coube dirigir foi a de Sapucaia, município fluminense, onde serviu por vários anos, sendo dali, posteriormente, transferido para Bom Jesus do Itabapoana, aqui chegando precisamente no dia 18 de Junho de 1899, quando se processava, por sinal, um pleito eleitoral, achado-se bastante movimentado o antigo povoado.
Há uma particularidade interessante, no entanto, que muita gente ignora. A viagem do virtuoso sacerdote não se processou diretamente. Veio ele por trem da Leopoldina até Ponte do Itabapoana, onde baldeou para um outro trem da nossa antiga estradinha de ferro, já extinta, vindo a desembarcar na estação de Boa Vista, hoje Apiacá, que era o ponto final da linha, onde não havia casa de hospedagem, ali pernoitando por gentileza, na residência do sr. Francisco Turco, comerciante no povoado. Mas não se achava só, o Padre Mello. Duas senhoras, também de nacionalidade portuguesa, o acompanhavam na sua viagem. Uma era a sua irmã, d. Mariquinha Mello, e outra d. Cândida, que vieram juntos da ilha de São Miguel no mesmo transatlântico, sem que existisse essa senhora e os dois irmãos qualquer grau de parentesco. Eram apenas, em sua pátria de origem, vizinhos e bons amigos, muito unidos, formando por assim dizer, uma só família cristã.
E assim é que, após haver dispensado todas as atenções aos seus distintos hóspedes, de maneira acolhedora, no dia seguinte, 18 de Junho de 1899, o sr. Francisco Turco os conduziu pessoalmente até Bom Jesus, de montaria, visto não haver, na época, nenhum outro meio de condução. Desde então o Padre Mello assumiu a condução espiritual de sua nova paróquia, onde serviu perto de meio século, nela permanecendo, como verdadeiro pastor de almas, até a sua morte, verificada a 13 de Agosto de 1947. A população, no entanto, jamais o esquecerá. Seu nome se acha, para sempre, ligado à história de nossa terra. A cada ano que passa mais a sua memória se agiganta na alma do povo, passando, assim de geração em geração.
Padre Mello foi vigário da Paróquia de Bom Jesus por 48 anos, tendo falecido em 13.08.1947, justa vc
mente durante os festejos que ajudou a instituir no município, e que deram origem à Festa de Agosto.
A Festa em louvor do Divino Espírito Santo era tradição na Ilha de São Miguel, e acabou sendo incorporada à tradição do município de Bom Jesus, no período de 13 a 15 de agosto.
Considerado por todos uma das figuras mais ilustres de nossa terra, Padre Mello não se limitou a sua atuação religiosa. Nas palavras de Luciano Bastos, em artigo intitulado "Bom Jesus, sua administração e Padre Mello", publicado em O Norte Fluminense, Padre Mello "teve papel importantíssimo no desenvolvimento da nossa terra, não apenas no setor religioso, mas no educacional, administrativo, social e em nossa emancipação política".
Carta manuscrita escrita por Padre Mello no ano de 1941
destinada à Diretora do então Ginásio Rio Branco
Acervo: Espaço Cultural Luciano Bastos
Poeta e jornalista, Padre Mello foi o autor do Hino do Colégio Rio Branco, compondo Música e Letra.
Seus poemas refletem o interesse que teve em vida por diversos e variados temas. Aos temas religiosos, somam-se diversos outros que ajudam a compor uma parte da história de Bom Jesus na primeira metade do século XX.
A seguir alguns de seus aplaudidos poemas:
CARROS DE BOIS
Por caminhos da roça tortuososestreitos e cavados, vão passandovelhos carros de bois, estes cantando,aqueles em gemidos lamentosos.
Mas sendo iguais e todos preciososos frutos da terra vão levando,e se o destino igual os vai guiando,por que vão cantando e outros chorosos?
Que diga o coração da humana raçaquão variadamente ele palpitase é varia a onda que por ele passa.
De dores e de alegrias no transporte,tal como carro, canta chora, grita,conforme o aperto dos cocões da sorte.***
CONTRASTE A um sino que serviu nas senzalas adquirido há tempos pela Liga Católica de Itaperuna
Quão diferente tua voz agoraQue tão suave ao coração nos faladaquela que bem junto da senzalaàs gerações servís falava outrora!
Ao pobre escravo ias dizer: Lá forauma enxada te espera: entre na ala!E no entretanto pelos vãos da salanão penetrava ainda a luz da aurora.
Hoje porém é outro o teu ofício:ou nos congregas em união fraternaou nos chamas ao Santo Sacrifício.
E sempre a despertar, meu velho sino,não os escravos da servil tabernamas os escravos do Amor Divino***
MORRER SONHANDO
Cedo, bem cedo, perderei a vidaPlanta ferida no mimoso pé.Teu desengano perecer me ordena,Na idade plena de esperança e fé.
Porém a morte me é suave e doceComo se fosse uma ilusão de amor;Embora eu sinta que uma luz se apagaOutra se afaga de eternal fulgor.
Morrer sonhando! Como é doce a morte!Que vale a sorte que esta vida tem?!A vida é sempre uma fugaz mentira,A morte aspira a realidade além.
Morre este corpo de servil matéria.Baixa à miséria do funéreo pó,Porém minha alma sempre viva sonhaVida risonha; não mereço dó.
Beijo-te a mão que me assassina e creioQue ela me veio libertar ao fim.Morrer sonhando é despertar na glória;Eis a vitória. Morrerei assim.***
O RELÓGIO DA TORRE
Já luz de noite o relógiojá o relógio tem luz,já sabe a quantos se deitao povo de Bom Jesus
Mas por que andava de noitea torre na escuridão?mil razões a gente davae ninguém dava razão.
Até se disse: "De certoeconomia de luz".Mas luz é que não faltavanos fios de Bom Jesus.A razão, razão supremacom que ninguém atinoufoi que do cofre da Igrejao dinheiro se ausentou. (poema publicado em 1932, no jornal "O Momento")