domingo, 8 de fevereiro de 2026

Maria Apparecida Dutra Viestel: a Historiadora de Bom Jesus do Itabapoana (III)

 

O Olhar de Maria Apparecida: A Humanização do Historiador


O historiador Antônio Dutra 

​A história de Bom Jesus do Itabapoana não seria completa sem o trabalho de preservação de Maria Apparecida Dutra Viestel. Como filha de Antônio Dutra, ela desempenha o papel vital de "historiadora da memória íntima", trazendo à luz os detalhes que os documentos oficiais não conseguem registrar. É através do seu relato sensível que compreendemos a transição simbólica e física do seu pai.

​"Troquei a enxada pela espátula"

​A importância da voz de Maria Apparecida reside em sua capacidade de revelar a vulnerabilidade e a determinação de Antônio Dutra. Segundo ela, seu pai, sendo um jovem de constituição franzina, não se adaptou ao rigor do trabalho braçal na zona rural. Ao deixar os oito irmãos na roça para buscar o seu destino na cidade, ele não estava apenas mudando de emprego, mas inaugurando uma nova era intelectual para a família e para o município.

​Maria Apparecida detalha com precisão o cenário dessa transformação:

"meu pai era franzino e não se adaptou ao trabalho da zona rural. Foi assim que deixou os 8 (oito) irmãos na roça e foi trabalhar na Farmácia Normal, como limpador de vidro e manipulador de receitas. A Farmácia Normal tinha sido adquirida por meu avô de um integrante da família Camargo, um tio-avô da pianista conhecida como dona Nina. Meu pai costumava dizer: 'Troquei a enxada pela espátula'. No prédio do estabelecimento, havia um apartamento que meu avô destinava a seus empregados e foi ali que meu pai passou a residir".

​A Farmácia como Berço do Intelecto

​É pelo testemunho de Maria Apparecida que entendemos como o ambiente da Farmácia Normal , adquirida por seu avô de um integrante da família Camargo, moldou o jovem Antônio. Ela nos revela que o interesse pelos livros e pela pesquisa não nasceu no isolamento, mas na observação e na escuta:

"Foi ouvindo as conversas de meu avô com as pessoas que ali compareciam, já que a Farmácia Normal era um local de encontro dos intelectuais da época, que meu pai se interessou pelos livros e pela leitura", assinalou a historiadora.

​A Relevância do Relato

​O depoimento de Maria Apparecida é o que permite ao leitor contemporâneo enxergar a Farmácia Normal além de suas paredes de tijolos. Através dela, sabemos que aquele balcão era, na verdade, uma tribuna onde o jovem limpador de vidros e manipulador de receitas absorvia o conhecimento dos mestres da época.

​Sem a narrativa de Maria Apparecida, a frase "Troquei a enxada pela espátula" seria apenas um dado biográfico; sob sua tutela, torna-se um símbolo de resistência cultural e de vocação. Ela não apenas herdou o sobrenome do historiador; ela herdou o compromisso de manter viva a chama daquela "Academia de Letras" que funcionava entre frascos e fórmulas, garantindo que o legado de dignidade e serviço ao próximo de Antônio Dutra continue a iluminar as futuras gerações bonjesuenses.

O prédio da Farmácia Normal (direita) foi desapropriado e demolido em 1948 para a construção de uma rua, hoje denominada República do Líbano 

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