sexta-feira, 19 de junho de 2026

O Encontro com Josias

 


Há encontros que acontecem nas ruas, mas que, na verdade, nos conduzem para dentro de nós mesmos. Foi assim quando encontrei Josias Grigória de Souza exercendo seu trabalho de gari, em uma rua da cidade. O tempo parecia seguir seu curso normal, mas a memória, essa viajante silenciosa, decidiu caminhar em direção contrária.

Ao vê-lo, não enxerguei apenas o homem dedicado ao seu ofício. Vi também o menino de outrora, filho de Antônia Grigória de Souza, a estimada lavadeira de minha família. Durante muitos anos, suas mãos laboriosas cuidaram de nossas roupas, e era Josias, ainda jovem, quem frequentemente as recolhia e as devolvia em minha casa.

Foi dessa convivência simples e espontânea que nasceu um coleguismo sincero. Éramos jovens compartilhando a mesma vizinhança, os mesmos caminhos e os mesmos sonhos que costumam habitar a juventude. Josias morava na Rua Aristides Figueiredo, onde construía, junto aos irmãos e amigos, as páginas singelas de uma história comum.

Seu pai, Silva José de Souza, era figura querida. Sua irmã, Lurdes, trabalhava na cantina do antigo Colégio Rio Branco. Nos intervalos das aulas, Josias estava sempre por perto, ajudando-a com dedicação e carinho, numa demonstração natural dos laços familiares que os uniam.

Enquanto conversávamos, percebi que o tempo havia mudado nossas aparências, mas não conseguira apagar as marcas das boas lembranças. Encontrar Josias foi como abrir um antigo álbum de fotografias guardado no coração. Cada recordação surgia envolta pela ternura de um período repleto de sonhos, de amizade e de bons sentimentos.

Naquele instante, a rua deixou de ser apenas uma rua. Transformou-se numa ponte entre o passado e o presente. E Josias, com sua simplicidade e dignidade, tornou-se novamente um personagem querido das memórias que ajudam a dar sentido à nossa própria caminhada.

Há pessoas que, mesmo quando o tempo as distancia, permanecem guardadas nos melhores compartimentos da alma. Josias é uma delas.

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