domingo, 21 de junho de 2026

O Sonho de Alcyr e Dora: a Confraria do Bistrô e o Panteão da Amizade


Na Fazenda Belo Jardim, homenagens transformam memória, afeto e convivência em patrimônio humano


(Fotos de André Luiz de Oliveira)
 

Tudo começou em torno de uma mesa de café.

No coração de Bom Jesus do Itabapoana, em um dos pontos mais tradicionais da cidade, o hoje conhecido Café Bistrô tornou-se, ao longo dos anos, muito mais que um estabelecimento comercial. O aroma do café recém-passado, misturado às memórias impregnadas em suas paredes, transformou o local em território de encontros, confidências e afetos.

Ali, diariamente, almas se encontram.

Os assuntos transitam com naturalidade entre o trivial e o profundo. Das singelas notícias da vida cotidiana às grandes questões existenciais; das inquietações pessoais aos acontecimentos que movimentam a sociedade. Há algo de sessão psicanalítica coletiva nesses encontros, conduzidos pela experiência acumulada dos anos, pelo olhar sensível sobre a condição humana, pela ironia elegante e pelo humor refinado que somente a convivência e a maturidade conseguem produzir.

Foi desse ambiente que nasceu, espontaneamente, a Confraria do Bistrô.

Seu núcleo possui uma centralidade natural, mas sua essência reside justamente na capacidade de acolher novos participantes e visitantes que enriquecem, diariamente, as conversas e os vínculos. O lema não está escrito em lugar algum, mas se manifesta em cada encontro: cultivar princípios sem perder a leveza; praticar o humor que aproxima e liberta.

Como numa grande família, seus valores transbordaram para aquilo que seus integrantes, em tom afetuoso, passaram a chamar de "Bistroriana".

Foi nesse espírito que, mais uma vez, a amizade ganhou forma concreta.

Um dos mais destacados confrades, Alcyr dos Reis Carvalho, decidiu homenagear amigos atribuindo seus nomes a locais da histórica e paradisíaca Fazenda Belo Jardim. Assim surgiram homenagens a Celso Loureiro, Reginaldo Chalhoub, Maiato, Dr. Altever, Adilson Figueiredo, Natinho e José Ari.

Nesta ocasião, chegou a vez de Gino Martins Borges Bastos receber a distinção. Uma nova placa foi inaugurada com a denominação de "Mirante da Filosofia Gino Martins Borges Bastos".

A cerimônia teve início com palavras do anfitrião, Alcyr dos Reis Carvalho.

Em seguida, o patrono Adilson Figueiredo, após recordar o convívio de infância com o homenageado, destacou o significado da homenagem:

"Ao conferir seu nome a este espaço, nosso amigo Alcyr não apenas presta uma justa homenagem, mas perpetua a memória de uma vida dedicada ao bem comum. Que esta denominação permaneça como expressão de gratidão e respeito por um homem cuja integridade, generosidade e compromisso com os mais elevados valores humanos constituem um legado digno de ser lembrado pelas presentes e futuras gerações."

Ao receber as generosas palavras que lhe foram dirigidas, Gino voltou o olhar para a figura luminosa de Adilson Figueiredo, cuja presença engrandece a vida cultural de nossa terra. Desde os tempos da infância, quando compartilhavam os mesmos horizontes e os sonhos simples das ruas de Bom Jesus, já se revelavam em seu espírito a sensibilidade, a curiosidade e a vocação que mais tarde o transformariam em artista, historiador, poeta e guardião da memória regional.

Adilson pertence à rara estirpe daqueles que alcançam reconhecimento sem perder a humildade de servir. Ao retornar à terra natal e nela semear cultura, beleza e conhecimento por meio do Espaço Cultural Cafézin, deu testemunho de uma grandeza que transcende a obra artística e alcança a dimensão humana. Sua decisão de retribuir à comunidade tudo o que dela recebeu revela um coração generoso e um compromisso exemplar com as futuras gerações. Por isso, ao agradecer os elogios recebidos, Gino fez questão de compartilhar a honra com amigos como Adilson Figueiredo, cuja vida é uma celebração permanente da arte, da memória e do amor por Bom Jesus.

Na sequência, Vera Chalhoub, viúva de Reginaldo Chalhoub, emocionou os presentes ao recordar a amizade entre o marido e o homenageado.

As lágrimas afloraram aos olhos de Gino quando relembrou a última visita feita ao amigo no hospital, ocasião em que foi recebido com a mesma alegria que sempre caracterizou a relação entre ambos.

"Eu me tornei cronista por causa do Reginaldo", afirmou, visivelmente emocionado.

Prosseguindo, Gino agradeceu a homenagem prestada pelos anfitriões, reconhecendo, com humildade, não se considerar merecedor de tamanha distinção. Estendeu ainda sua gratidão aos amigos presentes.

Destacou o caráter singular da iniciativa de Alcyr e Dora Carvalho. Mais do que simples placas identificadoras, aquelas denominações compõem algo inédito: um verdadeiro Panteão da Amizade.

Se há mais de dois mil anos Marco Vipsânio Agripa ergueu o majestoso Panteão de Roma em honra aos deuses da Antiguidade, Alcyr dos Reis Carvalho idealizou, em tempos modernos, o admirável Panteão da Fazenda Belo Jardim, em Bom Jesus do Norte, destinado a celebrar aqueles que considera dignos de permanecer na memória coletiva.

Ao lado da esposa, Dora Almeida Baptista Carvalho, Alcyr concede essas honrarias a amigos que, por suas trajetórias, contribuíram para engrandecer a sociedade.

Em sua fala, Gino apresentou uma reflexão filosófica inspirada no conceito da profecia autorrealizável.

"Alcyr, imagino seus pais quando escolheram seu nome. Alcyr significa 'aquele de linhagem nobre'. Carvalho, por sua vez, remete à árvore simbólica das Escrituras. Em Juízes 6,11, lê-se: 'O anjo do Senhor veio e assentou-se debaixo do carvalho em Ofra'. O carvalho representa raízes profundas, fé firme e resistência às tempestades da vida. Em Isaías 61,3, os justos são chamados de 'carvalhos de justiça, plantados pelo Senhor para a sua glória'."

A partir dessa imagem, desenvolveu o conceito da profecia autorrealizável, entendida como uma filosofia de construção da realidade.

"As palavras moldam decisões; as expectativas influenciam ações; as ações constroem o futuro. Aquilo que é profetizado pode influenciar o comportamento humano e, consequentemente, contribuir para tornar-se realidade."

Dirigindo-se ao anfitrião, concluiu:

"Seus pais profetizaram sobre você ao lhe atribuírem esse nome. A profecia realizou-se. Você a estendeu à sua amada esposa, aos filhos e aos netos, novos carvalhos do mundo. Crenças compartilhadas moldam o futuro social."

Segundo Gino, Alcyr e Dora continuam proclamando profecias autorrealizáveis sob a perspectiva da construção social.

A iniciativa de estabelecer o Panteão da Fazenda Belo Jardim foi concebida como um legado permanente: um espaço de reflexão, reconhecimento e celebração da vida. Um lugar onde o passado dialoga com o futuro e onde exemplos de coragem, determinação, amizade e sabedoria continuam inspirando gerações.

Mais do que um conjunto de placas, trata-se de um compromisso com a memória, com a preservação da identidade cultural e com a valorização da herança humana compartilhada.

Ao homenagear os amigos, Alcyr reafirma a importância da gratidão. Faz da Fazenda Belo Jardim um território simbólico onde a história pessoal se converte em patrimônio afetivo.

Em tempos marcados pela pressa, pela superficialidade e pela fragmentação dos vínculos, iniciativas assim assumem valor ainda mais significativo.

São gestos que recordam que a verdadeira grandeza humana não se mede pelo poder ou pela riqueza acumulada, mas pela capacidade de cultivar amizades, inspirar pessoas e deixar exemplos que resistam ao tempo.

Ao final da solenidade, Alcyr e Dora receberam um Certificado de Honra e Glória.

Após a cerimônia, os convidados percorreram os caminhos da fazenda, conhecendo as placas já instaladas em homenagem aos demais celebrados: Celso Loureiro, Reginaldo Chalhoub, Maiato, Dr. Altever, Adilson Figueiredo, Natinho e José Ari.

Em seguida, reuniram-se para um farto café, regado a conversas animadas, risos, recordações e companheirismo. Houve ainda espaço para os parabéns dirigidos a Maria Eduarda, esposa de Nahim, tornando a tarde ainda mais festiva.

Ao deixarem a Fazenda Belo Jardim, todos levavam consigo algo mais do que lembranças. Partiam fortalecidos pelo calor humano dos encontros que Alcyr e Dora sabem proporcionar, encontros que renovam a esperança, fortalecem os laços de amizade e reafirmam a importância de celebrar a vida.

E a história continua.

Alcyr já anunciou a instalação de duas novas placas, o que certamente dará origem a novos encontros, novas homenagens e novas páginas dessa confraria construída sobre afeto, memória e fraternidade.

Porque, no fundo, é disso que se trata: preservar nomes, celebrar trajetórias e manter acesa a chama da amizade, para que ela ilumine não apenas o presente, mas também o amanhã.










































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