quinta-feira, 13 de agosto de 2026

Merhige Hanna Saad: o homem que trouxe o Líbano para Bom Jesus

 A luz de Merhige Hanna Saad ainda vive no  Cine Monte Líbano



Há homens raros, que constroem lugares onde uma cidade inteira aprende a sonhar.

Merhige Hanna Saad foi um desses homens.

Nascido nas montanhas do Líbano, em Remahala, em 18 de março de 1895, chegou ao Brasil ainda muito jovem, aos 17 anos, trazendo consigo aquilo que tantos imigrantes traziam: poucas palavras da língua portuguesa, alguma instrução, uma mala de sonhos e uma coragem imensa diante de um mundo desconhecido.

O Brasil haveria de lhe ensinar uma língua. Bom Jesus haveria de lhe ensinar um destino.

Quando desembarcou em terras brasileiras, Merhige, o “Jorge” que os brasileiros aprenderiam a chamar, não sabia falar português. Mas aprendeu. Conta sua história que um carreiro que passava regularmente pela região o ajudou a dominar a leitura e a escrita. É uma imagem bonita e profundamente brasileira: um jovem estrangeiro aprendendo a língua de sua nova pátria à beira das estradas, entre o trabalho, a generosidade alheia e a obstinação de quem não aceitava que a dificuldade fosse maior que o sonho.

Em 1914, veio para Bom Jesus do Itabapoana.

Do pequeno comércio de armarinhos e tecidos, aberto com o irmão Karim, passou ao comércio de café. E, quando a crise de 1929 quase arrastou tudo, voltou a percorrer estradas e fazendas, montado em seu burrinho, levando mercadorias e trazendo, muitas vezes, café como pagamento.

A vida lhe ensinou cedo que prosperidade não é uma dádiva: é uma construção.

E Merhige construiu.

Construiu armazéns. Plantou café. Negociou. Trabalhou. Criou uma família. E, sobretudo, passou a investir em algo que talvez revelasse ainda mais profundamente sua alma: a cultura.

Na década de 1940, tornou-se proprietário de salas de cinema em Bom Jesus, Bom Jesus do Norte, Vila Velha, Colatina e Baixo Guandu. Mas foi em Bom Jesus do Itabapoana que seu sonho ganhou uma dimensão que ultrapassaria sua própria existência.

Em 14 de agosto de 1950, a cidade testemunhou a inauguração do Cine-Teatro Monte Líbano.

E é impossível falar daquele edifício sem falar do homem que o imaginou.

O Monte Líbano não era apenas uma sala de projeção. Era uma declaração de amor à cidade.

Dois andares de salas comerciais, uma arquitetura imponente, uma construção que, para a época, nada devia aos melhores teatros da capital. Ali, em uma cidade do interior, ergueu-se uma casa destinada à beleza, à música, ao teatro, ao cinema e ao encontro.

Por suas portas passaram artistas, companhias teatrais, músicos e grandes nomes da cultura brasileira. Bom Jesus, tantas vezes distante dos grandes centros, passou a fazer parte das rotas daqueles que percorriam o país levando arte e encantamento.

Essa é a maior obra de Merhige Hanna Saad: ele não construiu apenas paredes.

Construiu possibilidades.

Construiu uma janela para o mundo.

Construir o Monte Líbano foi, de certa maneira, construir um pedaço do futuro de Bom Jesus.

Não por acaso, naquela noite de 14 de agosto de 1950, durante o banquete de inauguração, Merhige recebeu o título de Cidadão Bonjesuense. O homem que havia chegado de tão longe, vindo das montanhas do Líbano, recebia da cidade uma espécie de abraço definitivo.

Ele já não era apenas o imigrante que chegara falando outra língua.

Era filho daquela terra.

Sete anos depois, instalaria no segundo andar do edifício a Rádio Bom Jesus, também de sua propriedade, levando para dentro daquele espaço um importante acervo musical. O cinema, o teatro, a rádio: tudo parecia obedecer a uma mesma vocação, fazer a cidade ouvir, ver, sentir e imaginar.

Ao lado do Monte Líbano, Merhige e Alzira construíram também uma casa onde a vida familiar se encontrou com a história política do Estado do Rio de Janeiro. Ali viveram momentos que aproximariam aquela família de grandes personagens da vida pública brasileira, especialmente depois do casamento de sua filha Ismélia com o açordescendente Roberto Silveira, futuro governador do Estado.

Quando sugeriram a Merhige que levasse seus recursos para investir em imóveis no Rio de Janeiro, ele respondeu com a simplicidade de quem sabia onde havia fincado suas raízes:

“Invisto em Bom Jesus o que ganho em Bom Jesus.”

Não era apenas uma resposta. Era uma declaração de amor.

Enquanto outros enxergavam o Rio como promessa de riqueza, Merhige enxergava em Bom Jesus algo maior: uma terra que lhe dera trabalho, prosperidade, amigos e pertencimento. E foi aqui, noeio de nossas ruas e nossa gente, que decidiu devolver à cidade aquilo que a cidade lhe proporcionara.

Seu patrimônio não era apenas feito de tijolos, paredes e negócios. Era feito de gratidão.

E é justamente por isso que o Cine Monte Líbano permanece, ainda hoje, como uma espécie de testemunho de sua escolha: Merhige não investiu apenas dinheiro em Bom Jesus. Investiu sua própria história.

Nenhuma lembrança é tão comovente quanto aquela preservada por sua filha, Marian Saad Sauma, muitos anos depois.

Depois de uma grave enfermidade, Merhige retornou a Bom Jesus. E a primeira coisa que quis fazer foi voltar ao Cine Monte Líbano para cumprimentar seus funcionários.

Que gesto extraordinário.

O homem não voltou primeiro ao escritório.

Não procurou contas, documentos ou negócios.

Voltou ao cinema.

Voltou à obra que era também uma parte de sua alma.

Depois, em casa, entregou a Alzira um chinelo que trouxera de presente. Segurou a mão da esposa e caminhou com ela por todos os cômodos. Ao final, tomado pela emoção, disse:

“É aqui que temos de ficar!”

Pouco depois, enquanto Alzira preparava uma canja, Merhige entrou no banheiro. A porta, como de costume, não estava trancada. Quando ela o chamou e não obteve resposta, entrou e o encontrou caído, envolvido na toalha.

Era 25 de abril de 1973.

Merhige Hanna Saad morreu na cidade que havia escolhido para viver e que, muitos anos antes, também o havia escolhido para ser seu filho.

Há uma beleza silenciosa nessa despedida.

O homem que atravessara o oceano para encontrar uma nova vida terminou seus dias exatamente onde desejava: em Bom Jesus.

E é por isso que o Cine Monte Líbano não pode ser visto apenas como um prédio antigo.

O Monte Líbano pertence ao coração de uma cidade.

Hoje, quando se fala na retomada do Cine Monte Líbano, não se está simplesmente falando da recuperação de paredes, portas, janelas, palco ou poltronas. Está-se falando da possibilidade de reacender uma luz que Merhige Hanna Saad acendeu há mais de sete décadas.

Uma luz que atravessou gerações.

Uma luz que sobreviveu ao silêncio.

Uma luz que ainda espera voltar a iluminar a cidade.

Merhige, lá das montanhas de Remahala, trouxe consigo uma pequena chama quando embarcou naquele navio italiano em 1912.

No Brasil, essa chama encontrou trabalho.

Em Bom Jesus, encontrou raízes.

E, em 14 de agosto de 1950, transformou-se em luz.

A luz do Monte Líbano.

Por isso, quando as portas daquele cinema voltarem a se abrir, haverá muito mais do que uma inauguração.

Haverá um reencontro.

Entre o passado e o futuro.

Entre o Líbano e Bom Jesus.

Entre um imigrante e a cidade que ele adotou.

Entre a memória e o sonho.

E, sobretudo, entre uma cidade e o homem que um dia acreditou que ela merecia sonhar grande.

Merhige Hanna Saad construiu um cinema.

Mas o tempo revelou que, na verdade, ele havia construído uma parte da alma de Bom Jesus do Itabapoana.



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