No cartaz, Abu Dhabi se ergue entre o azul e o ouro, como uma cidade que recolheu a luz do poente para guardá-la em suas torres. À frente, um tabuleiro parece prolongar-se até as águas. Sobre ele, as peças aguardam: há nessa quietude a promessa de milhares de histórias prestes a se encontrar.
A imagem anuncia a Olimpíada de Xadrez de 2028. Mas, antes mesmo de qualquer lance, já nos convida a imaginar a chegada dos jogadores. Cada um levará na bagagem alguma coisa que não aparece nas fotografias: o primeiro tabuleiro, a voz de um professor, as derrotas que custaram o sono, o sacrifício de uma família, a alegria de descobrir uma combinação.
Quantos caminhos serão necessários para chegar àquela mesa! Alguns terão começado em clubes tradicionais; outros, numa escola pequena, diante de peças gastas pelo uso. Talvez um futuro representante de seu país esteja agora aprendendo a mover um cavalo, sem suspeitar de que aquele salto poderá levá-lo tão longe.
Emociona ver, no mesmo cartaz, o anúncio da Olimpíada para pessoas com deficiência. A presença desses jogadores pede condições de participação e reconhecimento de seu talento. Diante do tabuleiro, estarão pessoas com ambições, estilos e histórias próprias, desejosas de competir, aprender e conquistar.
Pensamos nas mãos que conduzirão aquelas peças. Mãos jovens, mãos experientes, mãos que talvez tremam nos segundos finais. Cada movimento carregará uma decisão; cada decisão, a coragem de assumir suas consequências. Mesmo no silêncio de uma sala de jogos, a vida se manifesta com intensidade.
E pensamos também em nossos estudantes de Bom Jesus, descobrindo o xadrez, abrindo um livro, repetindo uma partida, aprendendo a esperar. Há uma ligação delicada entre esses pequenos gestos e a grande reunião anunciada na imagem. O mundo do xadrez cresce assim: alguém ensina, alguém se encanta, alguém decide continuar.
No brilho dourado do cartaz, o rei parece imponente. Nosso olhar, porém, procura os peões. São eles que avançam devagar, casa por casa, expostos às dificuldades do caminho. Às vezes, um deles chega à última fileira, e aquele pequeno corpo, que parecia destinado a tão pouco, ganha uma nova possibilidade.
Essa é a esperança que a imagem desperta: a de que cada pessoa encontre espaço para desenvolver aquilo que traz consigo.
Sob o céu de Abu Dhabi, no meio de bandeiras e tabuleiros, haverá partidas memoráveis. Mas haverá também um instante discreto, repetido muitas vezes, que merece ser guardado: dois desconhecidos estendendo as mãos antes do primeiro lance.
Nesse gesto, o mundo inteiro poderá caber.

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