segunda-feira, 27 de abril de 2026

Lira Santa Cecília de Varre-Sai comemora 109 anos de história



Na tarde  em que a Lira Santa Cecília de Varre-Sai celebrou seus 109 anos, a música dividiu espaço com a memória e a tradição. A comemoração reuniu não apenas a comunidade local, mas também sete liras e bandas da região, que se uniram em um encontro marcado por dobrados, reencontros e reverência à história musical de Varre-Sai.

No meio das apresentações, um momento em especial silenciou o público: a homenagem ao personagem tão conhecido quanto querido da cidade, Antônio Alberto Monteiro, o Coim. Foi pelos versos da escritora Isabel Menezes que a celebração ganhou contornos mais íntimos e emocionais.

Em forma de crônica lírica, o poema resgatou não apenas a figura de Coim, mas sua essência dentro da história da banda. Descrito como “guardião da Lira”, ele foi lembrado como presença constante, daqueles que não apenas acompanham, mas sustentam o espírito coletivo. Mesmo diante de limitações, evocadas com delicadeza, sua permanência era movida por um vínculo profundo com a música e com a instituição.

A homenagem também destacou seu papel como incentivador de jovens músicos, alguém que, com gestos simples, ajudava a formar talentos e fortalecer laços. Mais do que memória individual, tratava-se do reconhecimento de um legado vivo, construído no cotidiano.

O prefeito Lauro Fabri, presente na celebração, anunciou a intenção de ampliar o alcance da data. Segundo ele, o objetivo é transformar o aniversário da Lira em um evento de caráter nacional, reunindo corporações musicais de diferentes regiões e consolidando Varre-Sai como referência nesse cenário, em respeito à trajetória histórica da instituição.

Já a secretária de turismo Shoraya Alonso Ridolphi destacou o envolvimento coletivo para a realização da festa. De acordo com ela, todos os órgãos da administração municipal contribuíram para a organização do evento, que já se firmou como uma das celebrações mais tradicionais do calendário local no mês de abril.

Dr Silvestre Gorini,  ex-prefeito e ícone  de Varre-Sai, esteve presente, e se emocionou ao relembrar sua trajetória na Lira Santa Cecília. Lembrou que o avô de Baden Powel foi o primeiro maestro da Lira Santa Cecília. 

Emocionante também foi a homenagem a Giuseppe Tupini, fundador da Lira Santa Cecília. A homenagem foi endereçada à Tia Lúcia Tupini, que representou a família e foi coroada como Rainha da Lira.

A respeito de Giuseppe Tupini, o jornal O Norte Fluminense traz aqui um depoimento de seu neto, o saudoso Orlando Tupini, que viveu seus últimos anos em Bom Jesus. 

 "ENTREVISTA HISTÓRICA COM ORLANDO TUPINI

Os avós italianos de Orlando Tupini, Giuseppe Toppini e Enrica Moscaroli Tupini, viajaram no Vapor Colombo, desde a Itália até o porto do Rio de Janeiro, chegando ao Brasil no dia 3 de abril de 1896.

Giuseppe relatava que, durante a viagem ao Brasil, os italianos se dedicavam a entoar canções de esperança, como a seguinte: 

"Noi, italiani lavoratori,

Allegri andiamo nel Brasile

E voi altri, d'Italia signore

Lavoratelo il vostro badile

Se volete mangiare" 

Segundo informa Orlando, "alguns italianos foram para Minas Gerais. Meus avós, contudo, foram até o Porto de Santos, permanecendo em São Paulo por cerca de um ano. Posteriormente, um emissário de Varre-Sai (RJ) foi a São Paulo contratar italianos para trabalharem na plantação de café. Meu avô concordou com a proposta e veio trabalhar na Fazenda Paraíso, de propriedade dos antepassados de minha esposa Margessi".

Os imigrantes vieram de trem para a região Noroeste Fluminense, onde havia uma estação em Natividade (RJ). A partir daí se deslocaram para Varre-Sai a pé, em lombo de burros ou mesmo em carros de boi.

Giuseppe Tuppini fixou-se, em primeiro lugar, na região da Cruz da Ana, exercendo as atividades de ferreiro e lavrador.

Apaixonado por música e por sanfona, Giuseppe Tupini fundou a banda de música Lira Santa Cecília de Varre-Sai".

Ao final da comemoração, no meio de discursos, músicas e lembranças, prevaleceu a sensação de continuidade. A Lira segue, fortalecida pelo passado e impulsionada pelo presente. E, como ressaltou a poetisa em sua homenagem, figuras como Coim não se despedem, permanecem, conduzindo, mesmo em silêncio, cada nova nota que ecoa pelas ruas de Varre-Sai.

O Guardião da Lira

(Poesia em homenagem ao  Coim (Antônio Alberto Monteiro), feita a pedido do professor de música  Gabriel Rampazio)


Hoje o silêncio se curva em respeito,

e a música, ainda que toque, chora baixinho.

No compasso da saudade, lembramos de você, Coim,

não com tristeza da ausência, mas com muito carinho.


Ia à frente, como quem abre portas invisíveis,

anunciando a nossa banda, anunciando alegria.

E cada passo seu, firme ou já cansado,

era coragem vestida de melodia.


Mesmo quando o corpo pedia descanso,

sua alma insistia em permanecer.

Quantas vezes a fraqueza o alcançou,

mas nunca foi capaz de te vencer.


Guardião das chaves, não só da sede,

mas do coração da Lira inteira.

Carregava no peito um orgulho bonito,

de quem guarda um tesouro e o reverencia.


Incentivador dos pequenos sonhos,

acolhia cada menino com olhar de luz.

E no elogio simples, sincero,

semeava pautas, plantava músicos.


Sentia-se dono, e era, de certo modo,

pois só pertence assim quem ama de verdade.

Um menino eterno, num corpo de homem,

feito de pureza, afeto e lealdade.


Lembro de suas mãos cheias de livros,

espalhando minha poesia no centenário da Lira 

E no gesto generoso, multiplicava cultura,

fazendo da arte sua eterna vida.


Pelas ruas de Varre-Sai, era guia, era abrigo,

um anjo atento no centro da cidade.

E entre perguntas sobre novos livros,

me ensinava, sem saber, o valor da simplicidade.


Mas quando à frente da Lira se colocava,

já não era apenas o menino sonhador:

era um pequeno grande homem, sério e altivo,

batendo o bumbo, com o peito inflado de amor.


Hoje, teu bumbo repousa, mas não silencia,

tua foto sorri, mas não se despede.

Porque quem viveu como você viveu, Coim,

não parte: permanece.


E neste encontro, entre notas e memórias,

a Lira Santa Cecília te eterniza assim:

não como alguém que se foi cedo demais,

mas como alguém que ficou para sempre em nós.

Descansa, guardião.

A banda segue… mas agora, guiada por ti.

(Isabel Menezes - Professora e Historiadora de Varre-Sai)
















































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