sexta-feira, 10 de abril de 2026

Padre Mello e Sapucaia: Berço de um Soneto e de uma Ausência

 

"Saudade. Ao povo de Sapucaia, em mudança para Bom Jesus do Itabapoana, ao avistar o Paraíba...no trem"



Há partidas que não terminam no instante em que o trem se afasta. Elas continuam vivendo, silenciosas,  dentro de quem fica e de quem parte.

No dia 17 de junho de 1899, Padre Mello deixou Sapucaia. O trem seguia seu destino rumo a Bom Jesus do Itabapoana, mas seu olhar ficou preso por um instante às águas do Paraíba. 

Foi ali, no meio do movimento dos trilhos e o fluxo do rio, que a saudade o alcançou primeiro. Não como lembrança distante, mas como presença viva. E, para não perdê-la, ele a escreveu. Nasceu, assim, um soneto, não apenas poema, mas testemunho de um coração em travessia.O tempo seguiu seu curso, como o próprio rio. 

Décadas se passaram, e aquelas palavras, junto a tantas outras, desapareceram no silêncio das coisas que se julgam perdidas. Até que, por um desses acasos que parecem desenhados por mãos invisíveis, reapareceram em um alfarrábio de Lisboa. O Prof. Dr. Márcio Pacheco, atraído pela beleza da caligrafia, recolheu os manuscritos sem imaginar que levava consigo não apenas páginas antigas, mas fragmentos de uma vida inteira.

Somente mais tarde veio a revelação: eram escritos de Padre Mello. E, com eles, retornava também aquela saudade, intacta, como se o tempo não tivesse ousado tocá-la.

Há, nisso tudo, um delicado espelho. A saudade que Padre Mello sentiu ao deixar Sapucaia é a mesma que, anos depois, haveríamos de sentir por ele, quando partiu de Bom Jesus do Itabapoana, em 13 de agosto de 1947. Como se o sentimento, uma vez lançado ao mundo, encontrasse sempre um caminho de volta.

E assim, no meio de partidas e reencontros, o que permanece não é apenas a história, mas o afeto que a sustenta, essa saudade contínua, que atravessa gerações e, como um rio, nunca deixa de correr.











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