quinta-feira, 9 de abril de 2026

Oficina Une Cultura e Meio Ambiente: O Legado do Mês de Padre Mello

 



Uma tarde de aprendizado, sensibilidade e compromisso com o futuro marcou a realização da oficina “Literatura e Meio Ambiente”, fruto de uma parceria entre o Colégio Estadual Padre Mello, o Jornal O Norte Fluminense, a ABIJAL, a Academia Bonjesuense de Artes e Letras e o professor e escritor Adriano Moura. O encontro integrou a programação do Mês de Padre Mello, iniciativa dedicada à promoção da cultura e ao desenvolvimento humano, especialmente entre os jovens.

Mais do que um evento, a oficina se revelou um espaço de escuta, reflexão e encantamento. No ambiente acolhedor do colégio, instituição reconhecida pela seriedade de seu trabalho pedagógico, estiveram presentes profissionais que representam o compromisso com a educação de qualidade: Nathyara Teixeira, diretora; Dr. Marcos Mendonça, coordenador pedagógico; além dos professores Marcela Borges e Rondinelli Kamp. Cada presença reafirmava, de forma silenciosa e firme, o cuidado com a formação integral dos estudantes, uma notícia alvissareira para toda a comunidade.

Conduzindo a atividade, Adriano Moura apresentou aos alunos uma leitura sensível do trecho “Gargaú”, de seu livro Telêmaco. A narrativa da “Moça Bonita”, com sua beleza trágica e sua transformação em guardiã do manguezal, ecoou na sala como um sopro de poesia e alerta. No meio de raízes, marés e silêncios, a história revelou não apenas um mito, mas uma metáfora viva sobre o amor, a perda e a urgência de preservar a natureza.

Enquanto as palavras percorriam o imaginário dos estudantes, era possível perceber que algo germinava ali, uma consciência, talvez, ou um novo modo de olhar o mundo. A literatura, naquele instante, deixava de ser apenas texto para se tornar experiência.

Ao final, em um gesto simples e carregado de significado, o autor declarou: “Adorei as crianças”. E foi nesse clima de afeto e troca que o estudante Guilherme Borges se destacou, sendo contemplado com um exemplar da obra após se voluntariar para a leitura compartilhada.

Embora eventos como esse muitas vezes passem ao largo dos grandes noticiários, sua grandeza reside justamente no impacto silencioso que produzem. Como ensinou Liev Tolstói, para alcançar o universal é preciso começar pela própria aldeia. E é isso que se viu: uma comunidade que acredita no poder transformador da educação, da arte e da palavra.

A cobertura realizada pela TV Alcance, sob a condução de Isac Nascimento, assegura que esse momento não se perderá no tempo. Fica, agora, o convite, quase uma esperança, de acompanhar a trajetória desses jovens. Pois é nas pequenas sementes, plantadas com cuidado, que se anuncia a possibilidade de uma sociedade mais culta, sensível e verdadeiramente humanizada.


Nathyara Teixeira, diretora do C.E. Padre Mello


Dr Marcos Mendonça, Coordenador Pedagógico


Marcela Borges, Profª de Língua Inglesa


Rondinelli Kamp, Professor de Matematica


Guilherme Borges, ganhador do livro por se voluntariar a ler junto com o autor 


Adriano Moura










Colégio Estadual Padre Mello




GARGAÚ, TRECHO DO LIVRO “TELÊMACO”, DE ADRIANO MOURA

​Amanhecia em Gargaú quando chegamos. Passamos o dia andando pela orla e vila de pescadores atrás de uma pista. Até no mangue nos aventuramos, ainda que sabendo dos perigos representados pela Moça Bonita, que poderia pensar que queríamos fazer mal aos animais ou plantas do manguezal.

​- Você conhece essa história, Telêmaco?

​- Meu pai me contou quando era criança. Dizia que uma moça muito bonita, de olhos claros e cabelos ruivos e rica se apaixonou por um rapaz pobre que ela conheceu na beira do Rio Paraíba enquanto ele pescava. Como os pais dela não permitiram o namoro, ela combinou de se encontrar com ele na beira do rio para fugirem. Na noite da fuga, saiu escondida pela janela do quarto. Porém, por causa da escuridão, errou o caminho. Em vez de seguir em direção ao rio, acabou entrando sozinha no manguezal e se perdeu. Com a subida da maré e o lamaçal, ela não conseguiu sair, e suas pernas ficaram presas nas raízes do manguezal. Sua família e os amigos se reuniram para procurar. Encontraram ela sem vida. Dizem que seu espírito se tornou guardião das plantas e animais do lugar, principalmente dos caranguejos. Por isso são tão grandes. Sabia que as garras de um guaiamum podem medir até trinta centímetros? Quase perdi as mãos tentando segurar um.

​- Mas nós não representamos perigo para o mangue. Não precisamos temer a Moça Bonita — disse confiante meu companheiro de viagem.

​Nos embrenhamos nas entrâncias e reentrâncias do mangue. O solo lodoso dificultava a caminhada e o cheiro forte nos obrigava a tapar o nariz em alguns trechos.

​Ouvimos então um choro atrás de uma raiz avermelhada. Seguimos na direção até encontrarmos uma jovem ruiva sentada, com vários peixes mortos numa cesta formada com a saia do próprio vestido. Só podia ser ela, a Moça Bonita.

​- É a poluição - disse ela. - Esse não é o cheiro natural do mangue. Olhe! — Apontou na direção onde se encontrava uma quantidade enorme de tudo quanto é tipo de lixo. — Isso está destruindo o berçário.

​ - Como assim berçário?

​- Peixes, crustáceos, moluscos. São muitas as vidas que nascem aqui. O solo do mangue quase não tem mais nutrientes para alimentar quem dele precisa. Estou chorando porque não consigo mais protegê-los.

​Dei a ela a descrição do meu pai e perguntei se não tinha visto ninguém parecido por ali. Respondeu que não, mas falou que quem se perde no mar pode aparecer em qualquer lugar que a ele esteja ligado: praia, ilha, mangue, rio ou céu. Achei tão bonito ela falar aquilo! Mas durante a conversa com a Moça, não notamos a cheia da maré.

​ - Precisamos sair daqui - falou Oswaldo apreensivo.

​ - Eu não consigo me mover. Meus pés estão presos na lama.

​Notamos que a água e a lama subiam rápido demais.

​ - É a Moça que está fazendo isso, Oswaldo? Será que ela está pensando que somos os culpados pelo envenenamento do mangue?

​A moça já tinha se desfeito dos peixes que estavam em seu colo e foi se aproximando de nós. Não tinha mais a aparência de moça, mas de um enorme caranguejo, um guaiamum grande e vermelho, quase do tamanho de um cavalo. Uma de suas puãs me agarrou pela cintura e me ergueu à altura da boca, como se fosse me devorar. Comecei a gritar. Não vi mais meu amigo. Pensei logo que pudesse ter afundado, mas já tinha subido no alto da carapaça do bicho, como se montasse um desses dragões de histórias de aventura.

​- Socorro, Oswaldo, ele vai me comer.

​ - Calma. Caranguejos não comem animais vivos.

​ - Piorou. Então ele vai me matar antes de comer.

​Para nossa surpresa, o guaiamum foi saindo do mangue, colocou a gente na areia firme e voltou a ser a Moça Bonita de cabelos ruivos e olhos claros.

-​ Pensei que fosse comer a gente?

- ​Como seu amigo mesmo disse, caranguejos não comem animais vivos. Eu não faria mal a vocês. Não é essa minha função aqui. Viram aqueles peixes mortos? Em breve não haverá mais vida no manguezal e não serão apenas os que lá vivem que morrerão. Quantas pessoas também dependem do mangue? Agora vão. Preciso voltar e tentar continuar meu trabalho. Espero que encontre seu pai, Telêmaco, e lembre-se: quem se perde no mar pode aparecer em qualquer lugar que a ele esteja ligado: praia, ilha, mangue, rio ou céu.







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