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| Padre Mello (acervo do Espaço Cultural Luciano Bastos, antigo Colégio Rio Branco, onde foi Professor) |
11/12/1932 – O Lar Catholico (MG)
I
Tu sentes, bem o sei, íntima amargura
por não teres acesso à luz nesses teus olhos;
vives na escuridão assim como em refolhos
a linda mariposa em crisálida escura.
Vendo, verias tu do mundo a formosura,
o sol, o prado, o inseto, a flor… e mil abrolhos;
mas também a tua alma encontraria escolhos
onde teu coração julgasse ver ventura.
Muitas vezes, porém, os que bons olhos temos,
desejamos, oh dor! não tê-los por momentos,
para não vermos bem o mal que não queremos.
Para todos a vida é um espinho agudo;
temos a mesma sorte, o mesmo sofrimento,
tu porque nada vês, nós porque vemos tudo.
II
Vives (disseste tu), na escuridão; mas creio
que há dentro de ti mesmo a claridade intensa
de ideias a girar numa amplidão imensa
em que a razão é o sol colocado no meio.
Que a anímica substância imaterial que veio
dar vida ao organismo é o ser que sente e pensa,
e se ela receber um dia a luz da crença,
por si mesma será de luz um mundo cheio.
Não te lamentes pois, vives na claridade;
teu sol não tem ocaso, é sempre no levante,
não sentes como nós da noite a escuridade.
Desta sorte não sei qual menos importante,
se esse mundo ideal - tudo realidade,
se este mundo real - nossa ilusão constante.
III
E se algum dia a luz teus olhos penetrasse
através da retina imagens conduzindo,
não suponhas que a luz te iria descobrindo
o íntimo do ser; ela só mostra a face.
Não há raio de luz que um átomo traspasse;
o mesmo raio xis os corpos invadindo
não invade a matéria; esta lhe vai fugindo
opondo a superfície à onda pertinácia.
Assim, quem pelo estudo alcança da ciência
os preciosos dons, ainda mais ignora
porque somente vê das coisas a aparência.
Pois se vemos somente o que se vê por fora
e olhos não tem ninguém que possa ver o fundo,
somos todos, amigo, uns cegos neste mundo.


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