Jornal fundado por Ésio Martins Bastos em 25 de dezembro de 1946 e dirigido por Luciano Augusto Bastos no período 2003-2011. E-mail: onortefluminense@hotmail.com
quarta-feira, 15 de abril de 2026
O Açoriano Padre Mello: o Filho de Camponês
Por Gino Martins Borges Bastos
Padre Mello, os Açores e o interior fluminense: a vida de um homem que uniu religião, cultura e memória
"Morrer sonhando é despertar na glória! Eis a vitória, morrerei assim!”
Padre Antonio Francisco de Mello, eternizado como Sacerdote-Poeta, é uma figura central na história e na cultura de Bom Jesus do Itabapoana.
Os versos do poema "Morrer Sonhando" ecoam no tempo e permanecem gravados em seu busto, erguido em frente à Igreja Matriz do Senhor Bom Jesus, assim como junto ao seu sepulcro, na Capela do Divino Espírito Santo, no interior do templo.
Nascido às 3 horas da manhã de 27 de abril de 1863, entre os verdes campos de Achada Grande, no Nordeste da ilha de São Miguel, nos Açores, Padre Mello teve sua origem marcada pela simplicidade do meio rural. Foi batizado em 25 de maio do mesmo ano, na Igreja de Nossa Senhora da Anunciação, em Achada Grande, tendo como celebrante o cura Manoel Joaquim Soares.
Era filho de Marianno de Mello, camponês, e de Roza Maria Pimentel, residentes na Rua Nova. Pelos laços familiares, descendia, por parte paterna, de Sebastião de Mello e Joana Maria de Mello; e, por parte materna, de Antônio Francisco da Costa e Roza de Pimentel. Teve como padrinhos Antônio Ignácio Borges, lavrador, e Dona Jacinta Augusto Francisco, também moradores da mesma rua e freguesia.
Criado em uma família humilde de camponeses, sua trajetória começou sob o signo da simplicidade. A própria certidão de batismo registra a condição do pai como “campônio”, termo que traduz, com singeleza, a essência de suas origens.
Rua Nova, a rua onde nasceu Padre Mello
Achada Grande
Em Achada Grande, a economia ainda palpita ao ritmo da terra. A população mantém-se fiel ao setor primário, onde a agricultura ocupa lugar central, com destaque para o cultivo da batata, que brota de um solo generoso e fértil. Ao lado dela, a pecuária, sobretudo a criação de gado bovino, completa o sustento de muitas famílias, preservando práticas que atravessam gerações.
Apesar da forte ligação ao campo, a freguesia revela sinais de equilíbrio e autonomia. O comércio local, os estabelecimentos de restauração e os serviços existentes mostram-se suficientes para responder às necessidades básicas da população, compondo um cotidiano onde tradição e funcionalidade caminham lado a lado.
Igreja de Nossa Senhora de Anunciação em Achada, onde Padre Mello foi batizado no dia 25 de maio de 1863
Arte: Claudia Borges Bastos do Carmo
"Filho de lavrador, fui criado no meio do movimento das colheitas que chegavam e dos cereais que saíam, intermediados pelos carreteiros (...) Saido desse meio diretamente para o Seminário, nunca perdi a saudade dos campos, o amor às lavouras, a apreciação da enxada e dos mais utensílios com que o braço do homem cultiva a terra..."
BREVE ÁRVORE GENEALÓGICA DA FAMÍLIA DE PADRE MELLO
Por Ruy Carlos Herrera Braga (Engenheiro Civil, MBA Economia Gestor de Obras e Planejamento), residente em Campinas (SP), sobrinho bisneto de Padre Mello
Marianno de Mello e Roza Maria de Pimentel tiveram 7 filhos, 3 chegaram à vida adulta.
1.1. - Manuel Francisco de Mello e Maria Luiza (Roza da Anunciação) Rego; ambos naturais da Ilha de São Miguel - Açores, PT, se conheceram na travessia entre Portugal e o Brasil, casaram-se no Brasil, onde tiveram seus 2 primeiros filhos, ao todo foram 12 filhos, mas somente 8 chegaram à vida adulta;
1. 1. 1. - Jaime Francisco de Mello, solteiro; natural do Rio de Janeiro, RJ/Br, criado na Ilha de S. Miguel, Imigrou para o Brasil em 1909 e após 1913 seu paradeiro é desconhecido;
1. 1. 2. - Antônio Francisco de Mello, natural do Brasil, solteiro, criado na I. de S. Miguel, imigrou para Boston, Ms. - US e depois para o Brasil
1. 1. 3. - Manuel Francisco de Mello, natural da Ilha de São Miguel, Açores, PT, Casado, 2filhos (casal), Natural da ilha de S. Miguel - PT, imigrou para Boston, Ms. - US;
1. 1. 4. - José Francisco de Mello, natural da Ilha de São Miguel, Açores, PT, Casado, 2 Filhos ( 2 meninas), Nasceu na Ilha de S. Miguel, imigrou para Boston, Ms. - US; casado com descendentes
1. 1. 5. - Lourdes Maria de Mello, natural da Ilha de São Miguel, Açores, PT, Casada, 2 filhos (casal), Nasceu, viveu e morreu na Ilha de S. Miguel.
1. 1. 6 - João Francisco de Mello, natural da Ilha de São Miguel, Acores, PT, Casado, 1 filho, Nasceu na Ilha de S. Miguel, imigrou para Brasil
1. 1. 6. 1 - Ari José Ventosa Mello, natural de Campinas, casado, comerciante, sem geração, falecido em 02/01/2022.
1. 1. 7. - Maria Francilina, natural da Ilha de São Miguel -Açores, PT, Casada imigrou para o Brasil. Ao retornar para apresentar o filho aos pais falece na ilha de São Miguel;
1.1.7.1 - Manuelzinho, criado como filho por Manuel e Roza, Casado, Imigrou para Boston, Ms - US; Carece de informações
1. 1. 8. - Trindade Maria de Mello, natural da Ilha de São Miguel, Açores, PT, veio com a família (a negócios) para o Brasil em 1909, por possuir apenas 5 anos ficou para ser criada e alfabetizada pelo Pe. Mello e Tia Maria, morando com eles até 1913, quando retornam a Ilha de São Miguel. Voltam ao Brasil em 1922 com toda a família, enquanto procurava lugar para se estabelecer na cidade do Rio de Janeiro, ficou novamente hospedada com os Tios em Bom Jesus de Itabapoana, hospedagem esta que se repetiria por mais 4 oportunidades, no mesmo ano, em virtude do clima da família: Manuel Francisco, Maria Luiza, Antônio, João e Trindade, mudam-se para Campinas - SP. Ao chegarem, Manuel Francisco, com 70 anos, vem a falecer, em 1925. Sua filha Trindade casa-se com Antônio Herrera com quem teve 3 filhos:
1. 1 . 8. 1. - Miguel Herrera, natural de Campinas - SP, dentista, casado, 1 filho(falecido);
1. 1. 8. 1. 1 - Rodrigo Antônio Badan Herrera, natural de Campinas - SP, Advogado, casado, 1 Filho;
1. 1. 8. 2. 5. 2. - Luiza Herrera Braga, natural de Campinas - SP, Mestre em Língua Portuguesa, solteiro;
1. 1. 8. 3. - Luiz Carlos Herrera, natural de Campinas - SP, casado, 3 filhos;(falecido)
1. 1. 8. 3. 1. - Juliano Herrera, natural de Campinas - SP, Comerciante, casado, carece de informações;
1. 1. 8. 3. 2. - Guilherme Herrera, natural de Campinas - SP, Fisioterapeuta, casado, carece de informações;
1. 1. 8. 3. 3. - Luiz Gustavo Herrera, natural de Campinas - SP, Médico Geriatra, casado, carece de informações;
1.2. - Antônio Francisco de Mello, natural da Ilha de São Miguel, Açores, PT, Sacerdote, Agrimensor, Escritor e Poeta: Padre Mello, Imigrou para o Brasil, sem geração;
1.3. - Maria de Mello, natural da Ilha de São Miguel, Açores, PT, imigrou para o Brasil com o Irmão Padre, solteira.
Arte: Claudia Borges Bastos do Carmo
A formação de Padre Mello começou no Seminário de Angra - fundado em 1862 - em 1880, onde se destacou como estudante exemplar, homem de leitura vasta e inclinação natural para a poesia, traço que marcaria toda a sua vida e obra. Em seus estudos havia a necessidade de formação clássica (latim, humanidades). Nos livros de Padre Mello encontrados fortuitamente em um alfarrábio (sebo) em Lisboa, pelo pesquisador dr Márcio Pacheco, da Universidade Federal do Rio Grande do Norte, constam obras de latim e grego.
Foi ordenado sacerdote em 25 de agosto de 1888, na Capela do Paço Episcopal, pelas mãos de D. Francisco Maria de Sousa Prado de Lacerda, então Bispo Titular de Neápolis e futuro sucessor na Diocese de Angra do Heroísmo. A partir desse momento, iniciava-se um percurso sacerdotal profundamente ligado ao serviço e à entrega.
Arte: Claudia Borges Bastos do Carmo
Soneto de Padre Mello composto em Angra do Heroísmo, Açores, em 1890, dedicado aos presbíteros ordenados
(Obs.: um dos sonetos localizados fortuitamente pelo Prof. Dr. Márcio Pacheco em um sebo de Lisboa)
Aos Presbyteros
ordenados no dia 5 de Agosto de 1890
Na partida Bella coincidência!
Longe foram também sonhos de collete
romando um prederio regio
Bella coincidência!
Vimos sahir d'aqui - Cenáculo da sciencia
Como elles partis armados d'um scudo
- thesouro da graça e o fruito do estudo
Como elles partis em nome de Deus Trino
d’elle augusto é nosso destino
Vós ides para o mundo, ides para a batalha
onde a voz da descrença, é o som da metralha
Ides entrar no campo onde em perpétua liça
a treva quer ser luz - o mal quer ser justiça
campo onde Satarnaz o império
império a Deus disputa
mais, ides entrar comvosco mesmo em lucta
Mas avante! Por vós treme o Céo benino
A sombra salutar do lábaro divino
esteja sempre na alma a esperança da vitória
Ide!...
Quem manda?
— Deus.
O prêmio?
— A eterna glória
Angra.
Padre João Caetano Flores: o padre açoriano que escreveu biografia sobre Padre Mello
A trajetória inspiradora do Padre Antônio Francisco de Mello, marcada por fé profunda e delicada sensibilidade poética, foi eternizada na biografia “Sacerdote-Poeta”, escrita pelo padre João Caetano Flores, seu conterrâneo da ilha de São Miguel, fonte viva das palavras que ora se seguem, tecidas à luz de sua obra e da memória que nela resplandece.
Padre Mello iniciou o seu ministério como capelão na Ribeira Chã, entre 1889 e 1895, função mantida às expensas do Marquês da Praia e Monforte. Viveu na Rua de São José, em casa pertencente a José Caetano da Costa, inserido no quotidiano simples da comunidade que passou a servir.
Ali, a sua ação pastoral ultrapassou os limites do altar, alcançando também o campo social, onde se revelou incansável. Um registo da ata da Câmara Municipal de Lagoa, datado de 10 de janeiro de 1891, testemunha esse compromisso em tempo de adversidade. Durante uma epidemia de febres tifóides que assolou a Ribeira Chã, Padre Mello destacou-se não apenas como sacerdote, mas como verdadeiro servidor dos mais frágeis.
O documento relata que, entre mais de uma centena de doentes, o número de mortes foi surpreendentemente reduzido. E, entre os responsáveis por esse desfecho, surge a figura do capelão, descrito como alguém que “se distingue em actos de caridade”, assistindo os enfermos como enfermeiro, oferecendo-lhes cuidados, dietas e amparo, muitas vezes de forma gratuita, sobretudo aos mais indigentes.
Em reconhecimento, a Câmara deliberou lançar em ata um voto de louvor ao Reverendo Antônio Francisco de Mello, enaltecendo “os sentimentos de humanidade que lhe são peculiares” e a generosidade com que voluntariamente se dedicou aos doentes. Era o retrato de um sacerdote cuja fé se traduzia em ação concreta, onde a caridade ganhava corpo no cuidado diário.
Após deixar a Ribeira Chã, Padre Mello partiu para o Brasil, onde viria a viver grande parte da sua vida. Faleceu a 13 de agosto de 1947, aos 84 anos, em Bom Jesus de Itabapoana, na Diocese de Campos dos Goytacazes, no estado do Rio de Janeiro, encerrando, longe da terra natal, uma existência marcada pela devoção, pela poesia e pelo serviço ao próximo
A obra, escrita por seu conterrâneo, o também saudoso Padre João Caetano Flores, resgata a essência de um homem cuja vida uniu espiritualidade e arte. Ambos tiveram ação pastoral em Ribeira Chã, na ilha de São Miguel, compartilham não apenas o mesmo solo, mas um legado de devoção e expressão que segue tocando gerações. Ele indicou a obra literária realizada por Parte Msllo nos Açores e ressaltou sua vocação poética.
A produção literária de Padre Mello, iniciada ainda nos Açores, revela a sensibilidade de um espírito dividido entre o sagrado e a palavra. Desde cedo, a sua escrita encontrou forma em publicações que espelham tanto o humor quanto a devoção, a reflexão moral e o lirismo íntimo.
Entre as suas obras editadas em terras açorianas, destaca-se Cofre das Anedotas (1887), uma coletânea de ditos espirituosos, episódios curiosos e pequenas lições morais, impressa em Angra do Heroísmo. Pouco depois, já em Ponta Delgada, surgem textos de natureza mais íntima e poética, como O Padre (1890), poemeto composto ainda no tempo de seminário, onde se pressente o encontro entre vocação religiosa e expressão literária.
Em 1891, publica Armas, um emocionado epicedio dedicado à memória do seu diretor espiritual, o Padre João Jacinto Armas d’Amaral, e, no mesmo ano, Matutinas, uma coletânea de poesias com 164 páginas, oferecida ao Marquês da Praia e Monforte como gesto de gratidão. Dois anos depois, em 1893, assinala-se a publicação de LXXIII, composição dedicada ao bispo de Angra, D. Francisco Ribeiro Vieira de Brito.
Além dessas obras, deixou ainda poemas como Vitória do Gênio, Os Cavalos de Zebinho e Visão da Morte, nos quais transparece a amplitude do seu olhar, ora contemplativo, ora profundamente humano. É também de sua autoria o hino do Seminário Episcopal de Angra, sinal de uma ligação duradoura à instituição que moldou o seu percurso.
A crítica reconhece na sua poesia uma autenticidade rara. O escritor, poeta e professor Ruy Galvão de Carvalho, na Antologia Poética dos Açores (1979), observa que os seus versos são “formalmente singelos, mas espontâneos”, por vezes rústicos, porém marcados por um lirismo delicado. Sem recorrer a artifícios ou excessos, Padre Mello constrói uma poesia simples e sonora, que flui “como a água da nascente, deslizando por entre vales floridos e prados ridentes”.
Desde cedo, a sua vida revelou-se atravessada por duas vocações inseparáveis: a poesia e o sacerdócio. No ambiente formador do Seminário de Angra do Heroísmo, encontrou o espaço ideal para cultivar ambas, fazendo da palavra um prolongamento da fé e da fé uma inspiração constante para a palavra.
Um soneto composto por Padre Mello nos Açores, em 1893
(obs.: um dos sonetos descoberto fortuitamente pelo pesquisador Prof. Dr. Márcio Pacheco em um sebo de Lisboa)
Soneto
Entre dois pólos se mantém a vida:
berço e túmulo, a morte e o nascimento.
Nem maior nem menor merecimento
vem de alcançá-la que de ser perdida.
A vivente nenhum foi concedida
vontade própria em um e outro momento;
começar e findar o movimento
são efeitos de causa mais subida.
Não se alardeie o berço de ouro fino
nem procure ninguém campa marmórea
que nem uma nem outra faz mais dino.
O todo só está na trajectória:
subir, subir, subir... — eis o destino;
ser grande pelo mérito — eis a glória.
(Açores — 1893)
Padre Mello e a imigração açoriana em 1895
Arte: Claudia Borges Bastos do Carmo
A travessia que mudaria para sempre o destino de Padre Mello começou a bordo do vapor Argentina, que partiu da ilha Terceira rumo ao Brasil. Ao lado da irmã, Maria Júlia de Mello, a Marquinha, e de Dona Maria Cândida de Jesus, enfrentou 24 dias de viagem até aportar em terras brasileiras, em 4 de outubro de 1895. Era o início de uma nova etapa, longa, fecunda e decisiva.
Passaporte de Padre Mello
Página 137 do Livro Registro de Passaportes, relacionada ao visto de passaporte, destino Rio de Janeiro, com menção ao Padre Antônio Francisco de Mello e à lista de passageiros do paquete - navio - alemão Argentina no porto do Rio de Janeiro.
Lista de Passageiros a bordo do paquete alemão "Argentina"
1895 - Padre Mello chega ao Brasil
Pesquisas efetuadas em arquivos digitais no site do Arquivo Nacional da Torre do Tombo, um dos arquivos de âmbito nacional da rede portuguesa de arquivos, possibilitou conhecer algumas listas de passageiros que viajaram de Portugal para o Brasil em 1895, dentre elas, a do paquete alemão "Argentina", que saiu de Lisboa em 11 de setembro e chegou ao Brasil em 04 de outubro.
Lista de Passageiros a bordo do paquete alemão "Argentina"
Saída de Lisboa: 11 de setembro de 1895 com destino para o Rio de Janeiro.
O livro contém os seguintes dados no Nº de ordem 8:
Nome: Padre Antonio Francisco de Mello;
Naturalidade: Ilha de São Miguel;
Idade: 32 anos;
Governo Civil de Lisboa: número 1775.
Observações sobre o Documento
A página apresenta uma reprodução da "Relação dos passageiros a bordo do paquete alemão Argentina". Embora a caligrafia original do século XIX seja manuscrita e de difícil leitura na imagem, o texto impresso na página resume os dados vitais para a genealogia e historiografia da região, confirmando a trajetória do clérigo vindo dos Açores.
Este registro é um elo fundamental para compreender a imigração açoriana e a influência religiosa no vale do Itabapoana naquele período.
PADRE MELLO E SAPUCAIA: BERÇO DE UM SONETO E DE UMA AUSÊNCIA
"Saudade. Ao povo de Sapucaia, em mudança para Bom Jesus do Itabapoana, ao avistar o Paraíba...no trem"
Padre Mello foi pároco em Sapucaia de 1895 a 17 de junho de 1899, quando foi transferido para Bom Jesus do Itabapoana. Há partidas que não terminam no instante em que o trem se afasta. Elas continuam vivendo, silenciosas, dentro de quem fica e de quem parte.
Naqieie dia, Padre Mello deixou Sapucaia. O trem seguia seu destino rumo a Bom Jesus do Itabapoana, mas seu olhar ficou preso por um instante às águas do Paraíba.
Foi ali, no meio do movimento dos trilhos e o fluxo do rio, que a saudade o alcançou primeiro. Não como lembrança distante, mas como presença viva. E, para não perdê-la, ele a escreveu. Nasceu, assim, um soneto, não apenas poema, mas testemunho de um coração em travessia.O tempo seguiu seu curso, como o próprio rio.
Décadas se passaram, e aquelas palavras, junto a tantas outras, desapareceram no silêncio das coisas que se julgam perdidas. Até que, por um desses acasos que parecem desenhados por mãos invisíveis, reapareceram em um alfarrábio de Lisboa. O Prof. Dr. Márcio Pacheco, atraído pela beleza da caligrafia, recolheu os manuscritos sem imaginar que levava consigo não apenas páginas antigas, mas fragmentos de uma vida inteira.
Somente mais tarde veio a revelação: eram escritos de Padre Mello. E, com eles, retornava também aquela saudade, intacta, como se o tempo não tivesse ousado tocá-la.
Há, nisso tudo, um delicado espelho. A saudade que Padre Mello sentiu ao deixar Sapucaia é a mesma que, anos depois, haveríamos de sentir por ele, quando partiu de Bom Jesus do Itabapoana, em 13 de agosto de 1947. Como se o sentimento, uma vez lançado ao mundo, encontrasse sempre um caminho de volta.
E assim, no meio de partidas e reencontros, o que permanece não é apenas a história, mas o afeto que a sustenta, essa saudade contínua, que atravessa gerações e, como um rio, nunca deixa de correr.
Chegada a Bom Jesus do Itabapoana
Arte: Claudia Borges Bastos do Carmo
Padre Mello chegou a Bom Jesus do Itabapoana em 18 de junho de 1899, lugar que adotaria como pátria afetiva e onde deixaria marcas profundas e duradouras.
Sobre a chegada de Padre Mello a Bom Jesus, o jornal O Norte Fluminense publicou artigo de Osório Carneiro em 23 de abril de 1972, que é reproduzido a seguir.
"Há uma particularidade interessante, no entanto, que muita gente ignora. A viagem do virtuoso sacerdote não se processou diretamente. Veio ele por trem da Leopoldina até Ponte do Itabapoana - no Estado do Espírito Santo - onde baldeou para um outro trem da nossa antiga estradinha de ferro, já extinta, vindo a desembarcar na estação de Boa Vista, hoje Apiacá - onde está a sede da Casa dos Açores do Espírito Santo - que era o ponto final da linha, onde não havia casa de hospedagem, ali pernoitando por gentileza, na residência do sr. Francisco Turco, comerciante no povoado.
Mas não se achava só, o Padre Mello. Duas senhoras, também açorianas, o acompanhavam na sua viagem. Uma era a sua irmã, d. Mariquinha Mello, e outra d. Cândida, que vieram juntos da ilha de São Miguel no mesmo transatlântico, sem que existisse essa senhora e os dois irmãos qualquer grau de parentesco. Eram apenas, em sua pátria de origem, vizinhos e bons amigos, muito unidos, formando por assim dizer, uma só família cristã.
E assim é que, após haver dispensado todas as atenções aos seus distintos hóspedes, de maneira acolhedora, no dia seguinte, 18 de Junho de 1899, o sr. Francisco Turco os conduziu pessoalmente até Bom Jesus, de montaria, visto não haver, na época, nenhum outro meio de condução".
Arte: Claudia Borges Bastos do Carmo
Uma das primeiras atitudes de Padre Mello em Bom Jesus foi voltar-se, com delicadeza e reverência, às raízes da terra. Com olhos de quem sabe escutar o tempo e alma de cronista, recolheu as vozes dos mais antigos, tecendo, com elas, a memória viva da região. Foi assim que se firmou o registro de que, em 1842, o mineiro Antônio José da Silva Neném, vindo de Rio Novo, desbravou aquelas paragens ao lado do português Manoel Gomes de Oliveira e de Manoel da Silva, o lendário Manoel Monarca.
Na cidade que o acolheu, estreitou laços com portugueses e descendentes de açorianos, herdeiros de uma tradição iniciada entre 1860 e 1863: a Festa do Divino Espírito Santo. Mais do que pároco, fez-se guardião dessa chama antiga, não apenas preservando-a, mas soprando-lhe novo fôlego, para que jamais se apagasse.
Não por acaso, como recordou Elcio Xavier, seu coroinha e mais tarde chamado de “Príncipe dos Poetas”, Padre Mello “doou-nos a nossa história”. E doou em múltiplas formas: nos versos que escreveu, nas crônicas que semeou, nas páginas do jornal Meu Campinho, nome que resgatava o antigo “Campo Alegre” e traduzia o carinho com que nomeava sua terra adotiva.
Guardião das tradições, também imprimiu sua marca na Festa do Divino ao introduzir o “Hino da Alva Pomba”, melodia de origem açoriana que, até hoje, ressoa nas procissões de agosto. Conduzido pela Lira Operária Bonjesuense, o canto atravessa gerações como eco de um oceano vencido, herança que cruzou o Atlântico para florescer em novo solo.
Assim, no meio de palavras, gestos e obras, Padre Mello fez de sua vida uma ponte: uniu os Açores ao Brasil, a fé à cultura, o passado ao presente.
Mas seu saber não se limitava ao campo das letras e da música. Hábil também nas artes da construção, participou da elevação das torres da Igreja Matriz e orientou a edificação de diversos prédios, incluindo um marco em Varre-Sai, erguido em 1917, terra onde igualmente exerceu seu ministério entre 1899 e 1924.
Conhecedor da terra e de seus ciclos, dominava as práticas agrícolas, sobretudo o cultivo do café. Com isso, guiou lavradores, incentivou colheitas e ajudou a fazer brotar prosperidade nos campos. Sua atuação alcançou ainda a vida pública, envolvendo-se na luta pela segunda emancipação de Bom Jesus do Itabapoana, concretizada em 1º de janeiro de 1939.
Sua presença marcou profundamente o imaginário da cidade. Em 1942, o escritor Octacílio de Aquino, seu mais notável pupilo, registrou uma cena singela e reveladora: uma criança teria dito aos pais, “o que eu quero é estudar para Padre Mello”. Na simplicidade dessa frase repousa a grandeza de seu legado: mais do que ensinar, ele inspirava destinos.
Padre Mello findou a Lira da Mocidade, em 1911
Sob o sopro do tempo e o eco dos metais, nasceu a Lira da Mocidade, em junho de 1911, filha do sonho do Padre Mello e da sensibilidade musical do maestro Alfredo Brasil, cujo requinte transformava notas em poesia.
Era mais que uma banda: era o coração jovem de uma época, pulsando nas ruas, nas festas e nas almas, reunindo nomes que hoje repousam na memória como acordes antigos, Lauro Paranhos, Antenor Benigno, Roldão e Amado dos Santos, Juvencio Teixeira, Aristides da Silva, os irmãos Xavier Bastos e tantos outros.
Cada instrumento carregava um pedaço de história, cada melodia atravessava o tempo como um rio sonoro, levando consigo a alegria, a esperança e o orgulho de uma comunidade inteira.
E mesmo daqueles cujos nomes o tempo suavemente apagou, permanece o essencial: o som, a entrega, a beleza de um tempo em que a música era encontro e eternidade.
A Lira da Mocidade não silenciou, ela ainda ressoa, invisível, nos ventos da lembrança, e nas Liras que a sucederam até a atual Lira Operária Bonjesuense.
Alvorada com a Lira Operária Bonjesuense em homenagem a Padre Mello
Lira Operária Bonjesuense, com seu icônico Maestro Nilo Rodrigues, é resultado da sucessão de Liras em Bom Jesus do Itabapoana
A OBRA LITERÁRIA DE PADRE MELLO
Homem de múltiplos talentos, destacou-se ainda como músico e compositor, sendo autor do hino do antigo Colégio Rio Branco. Os versos revelam uma forte dimensão cívico-pedagógica, articulando patriotismo e ideal educativo numa linguagem solene e exortativa. A referência inicial a Barão do Rio Branco funciona como símbolo de grandeza histórica e projeção nacional, elevando o colégio a herdeiro desse prestígio moral.
Padre Mello foi autor do hino do Colégio Rio Branco, onde foi professor
Ao longo do texto, observa-se o uso de vocativos (“irmãos”) e de verbos no imperativo (“Estudemos”) que reforçam o caráter coletivo e formativo do hino, criando um sentido de comunidade e missão partilhada. A oposição implícita entre riquezas materiais e o “saber” como valor supremo evidencia uma concepção humanista da educação, em que ciência e letras são caminhos para o progresso individual e institucional. Por fim, a repetição de expressões como “honra e glória” confere ritmo e reforça o tom laudatório, típico de hinos escolares, enquanto consolida a ideia de que o sucesso acadêmico dos alunos reverte simbolicamente para a dignidade da instituição.
Padre Mello: o Professor do Colégio Rio Branco
(Acervo do Espaço Cultural Luciano Bastos, antigo Colégio Rio Branco)
Sonetos a um moço cego
É na poesia que a alma de Padre Mello se revela com maior intensidade. Em um dos três “Sonetos para um moço cego”, publicados em 11 de dezembro de 1932, no jornal O Lar Católico, sua sensibilidade atinge o ápice ao refletir sobre a condição humana:
“Para todos nós, a vida é um espinho agudo;
temos a mesma sorte, o mesmo sofrimento,
tu porque nada vês, nós porque vemos tudo.”
Versos que condensam dor e lucidez, revelando um olhar profundamente humano.
A poesia de Padre Mello em francês
Em 1901, Padre Mello compõe um fascinante soneto em francês intitulado "Prière" (Oração), que revela a grande erudição do pároco açoriano. Trata-se de uma oração em forma de poema dedicada a uma jovem chamada Maria Thérèsed'Azevedo Mattos por ocasião de seu nascimento (ou aniversário). "Regarde à tes beaux yeux cet Angelet si bel", assinala o primeiro verso: "Olha com teus belos olhos este Anjinho tão belo".
Maria Teresa era filha do português nascido na ilha de Madeira, Manoel Antônio de Azevedo Mattos, que integrou a 1ª intendência de Bom Jesus em 25/12/1890, quando nosso município se emancipou pela primeira vez.
O soneto "Burro Douto", composto em Varre-Sai,
foi publicado no jornal Cachoeirano, de Cachoeiro de Itapemirim, ES, no dia 15 de abril de 1915, com grande repercussão
Em Varre-Sai, onde teve atuação pastoral juntamente com Bom Jesus, entre 1899 e 1924, Padre Mello encontrou inspiração para um de seus poemas mais curiosos e delicados: “Burro Douto”. Nele, transforma uma cena simples, a entrada de um burro em uma farmácia, em matéria poética. Ele revela algo profundo: a capacidade de rir com inteligência, de observar a vida com leveza e de reconhecer poesia no cotidiano da vila. Talvez seja por isso que o soneto de Padre Mello continua tão atual. Porque ele nos lembra que a sabedoria nem sempre veste toga ou carrega diplomas. Às vezes, ela anda pelos caminhos de terra, observa o mundo com curiosidade e nos faz sorrir diante das pequenas surpresas da vida.
Nos versos de “O Padre” o eu lírico constrói uma defesa vigorosa da fé diante das críticas dos “pseudos sábios”, expressão que carrega um tom irônico e deslegitimador daqueles que, sob a aparência de conhecimento, atacam a religião. Ao afirmar que, caso a fé seja ofendida, o padre possui “a arma da ciência” e “o forte da graça”, o poeta articula uma conciliação entre razão e espiritualidade, sugerindo que o verdadeiro religioso não se apoia apenas na devoção, mas também no saber racional como instrumento de defesa. Essa dualidade reforça a ideia de equilíbrio entre intelecto e fé, ao mesmo tempo em que exalta a figura do sacerdote como alguém preparado tanto no campo do conhecimento quanto no da transcendência, conferindo-lhe autoridade moral e intelectual para enfrentar críticas e preservar os valores religiosos.
Já no soneto “Carros de Bois”, Padre Mello contempla o mesmo universo rural com densidade filosófica: alguns carros cantam, outros gemem, embora levem frutos iguais por caminhos semelhantes. Assim, o velho poeta eleva a paisagem da roça a uma reflexão mais profunda sobre a condição humana.
Crianças
Publicação da Gráfica Gutemberg em 13 de agosto de 1953
No poema "Crianças", Padre Mello apresenta uma visão melancólica e cíclica da existência humana, estruturada através do contraste entre a pureza infantil e a desilusão da vida adulta. Nas três primeiras estrofes, o eu lírico descreve a criança como um ser de luz, livre de "pesares", "saudades" ou "cuidados", vivendo em um presente absoluto onde o mundo se limita à sua própria essência. No entanto, a estrofe final rompe essa idealização com uma nota sombria de fatalismo: ao reconhecer que já foi criança, o narrador projeta nas crianças o seu próprio destino de amargura. A expressão "tombar de esperanças" sugere que o amadurecimento é, inevitavelmente, um processo de perda, transformando a alegria lúdica de hoje na melancolia reflexiva de amanhã.
A VITÓRIA DO GÊNIO
"A Vitória do Gênio" é uma obra de caráter épico e celebrativo, que narra um dos marcos mais importantes da aviação lusófona: a Primeira Travessia Aérea do Atlântico Sul, realizada em 1922 por Gago Coutinho e Sacadura. Padre Mello coloca Gago Coutinho e Sacadura Cabral no mesmo patamar de heróis como Vasco da Gama.
O resultado da venda do livreto contendo seu poema também foi destinado às obras da Igreja Matriz: " Preço 2$000 ou qualquer donativo para as obras da igreja Matriz de Bom Jesus do Itabapoana, a cargo do autor", assinala a publicação.
Na obra, Padre Mello sugere que a coragem necessária para enfrentar o "mar tenebroso" no século XV é a mesma necessária para enfrentar o "mar tormentoso" pelo ar no século XX.
O poema utiliza uma linguagem que remete aos grandes clássicos (como Os Lusíadas, de Camões), elevando os aviadores ao status de heróis modernos.
"Do túmulo silente, a horas calmas,
quando dorme e descansa Lísia bela,
ergue-se um vulto que, empunhando palmas,
cinge de louros virida capela.
E, transpondo ligeiro o chão funéreo,
some-se na amplidão. Quem é? Mistério!
Repousa tudo em paz, mas quase mudos
velam dois gênios consultando mapas.
Há traços frescos, gráficos, estudos,
indicações de rumos e de etapas.
De súbito uma porta faz-se aberta,
e vulto estranho a admiração desperta.
"Camões?" – "Eu mesmo. Sim, o velho luso
que lusas glórias já cantei na vida;
e se aqui vos pareço agora intruso,
sabei que esta missão vos é devida,
pois a quem concebeu tão alta ideia
fale o cantor da índica epopeia"...
Os versos que construíram a Matriz
.
"Em troca d'este exemplar o autor pede uma esmola para as obras de sua egreja matriz".
Padre Mello, figura singular entre fé e criatividade, encontrou na palavra impressa um caminho improvável para erguer sonhos concretos. Vendia seus próprios escritos, entre eles o poema “Leão XVIII”, com o propósito de arrecadar recursos para a construção da Igreja, transformando versos em alicerces. Não deixa de ser notável que a Igreja Matriz do Senhor Bom Jesus possa figurar como uma das raras, talvez única, erguida a partir da venda de livretos de poesia.
Padre Mello e a Defesa da Ciência:
Uma Análise da Obra "O Charlatão".
Sob a pátina amarelada do tempo, onde o papel sussurra segredos de um século passado, repousa a promessa de um duelo moral em versos. A capa de "O Charlatão" não é apenas um frontispício; é um convite para entrar em uma arena de rimas e retidão, datada de 1912, em um Brasil que ainda tateava sua modernidade sob a luz de lampiões.
O Poema que Anuncia a Cura
Padre Mello não se apresenta com a severidade do púlpito, mas com a agilidade da pena. Ele nos oferece um "Poemeto", um fragmento de algo maior, o décimo episódio da obra inédita intitulada "O Médico". É fascinante notar o estado de urgência: o texto está "prestes a entrar no prelo", capturando aquele instante de ansiedade literária onde as palavras estão prestes a se tornar eternas pelo chumbo da tipografia.
A Devoção ao Saber
A dedicatória é um gesto de reverência e combate:
"EDIÇÃO DEDICADA À Illustre Classe Medica"
Aqui, a poesia se torna aliada da ciência. Padre Mello ergue seu poema como um escudo em defesa dos homens de jaleco e estudo, posicionando a arte contra o embuste. Há uma elegância quase cavalheiresca em usar a métrica para honrar aqueles que curam pelo método, em oposição aos que enganam pela lábia.
Como um sussurro de advertência, o pequeno quarteto à direita sela o destino do impostor:
"De saber alheio... fútil / Rege-se ao sol-posto. / Com mais razão ostente / a sentença ao charlatão."
É a crônica da queda. O charlatão, que vive de brilhos emprestados e sombras ("sol-posto"), é desmascarado pela luz da verdade poética. A justiça, aqui, não vem de um tribunal de leis, mas da Typografia Almeida, em Bom Jesus do Itabapoana, no Rio de Janeiro.
Olhar para essa capa é viajar para uma época em que a palavra impressa era a arma mais nobre contra a ignorância. Entre as manchas de ferrugem do papel e a tipografia sóbria, "O Charlatão" permanece como um monumento lírico à ética, lembrando-nos que, mesmo há mais de cem anos, a sociedade já buscava na poesia o remédio contra a mentira.
Dramaturgo, Padre Mello compôs a peça teatral "Os Cavallos de Zebinho"
Em outra iniciativa, lançou a peça teatral “Os Cavallos de Zebinho”, em 1926, cuja renda destinava-se à aquisição de um novo carro para Euzébio, o popular Zebinho, evidenciando um espírito prático envolto em lirismo e solidariedade.
Poesia de Padre Mello ajudou a eleger senador em 1946
Senador José Carlos Pereira Pinto
Naquele ano de 1945, quando o Brasil ainda reaprendia a respirar os ares da democracia, a palavra, essa matéria invisível, ganhou peso de destino nas mãos de Padre Mello. Não era apenas fé que ele oferecia do púlpito; era também verso, era também esperança moldada em rima, era também política elevada à dignidade da poesia.
E assim nasceu o acróstico, engenho e devoção, onde cada letra erguia, como tijolo de linguagem, o nome de José Carlos Pereira Pinto. Não um nome qualquer, mas um nome que, aos olhos do poeta-sacerdote, já carregava consigo a promessa do bem comum. Era como se o poema não apenas descrevesse um homem, mas o convocasse ao destino que lhe era atribuído.
Na cadência do soneto, via-se mais do que elogio: via-se um retrato ideal. O industrial transformava-se em símbolo, o homem de posses que abre o cofre, o cidadão que edifica hospitais, o cristão que reparte o pão e o cuidado. Entre versos, surgia uma cidade ampliada, onde Campos e seus arredores encontravam abrigo não apenas em paredes de concreto, mas em gestos de caridade.
E na oitava final, o tom se tornava ainda mais íntimo, quase pastoral. O candidato já não era apenas figura pública, mas irmão dos pobres, companheiro das dores alheias, mediador entre a necessidade e o alívio. A poesia, então, cumpria sua mais antiga função: não apenas cantar, mas persuadir, não apenas adornar, mas conduzir.
Quando veio 1946, e as urnas confirmaram o nome que o poema já havia consagrado, parecia que a realidade seguira o ritmo dos versos. Como se a eleição tivesse sido, em parte, escrita antes, não nos jornais ou discursos, mas na delicada arquitetura de um acróstico.
E ficou, para além do mandato, essa cena quase esquecida: um padre-poeta, uma cidade em transformação e a crença de que palavras, quando carregadas de fé e intenção, podem tocar o curso da história.
"Justíssimo é que Bom Jesus, em cheio,
O leve às urnas e que o veja eleito
Senador Federal, e desse jeito
Ele verá que vive neste meio..."
Padre Mello foi plagiado em uma das revistas mais influentes do Brasil no início do século XX
No Brasil febril das primeiras décadas do século XX, onde a imprensa era palco e tribunal, a pena ainda carregava o peso da honra, e a poesia, esse território sagrado da sensibilidade, não admitia profanações sem resposta. Foi assim que, em abril de 1924, nas páginas da revista O Malho, uma das principais revistas de circulação nacional no início do século XX, ergueu-se um caso que misturava lirismo, ironia e denúncia: o plágio das poesias de Padre Mello.
Filho de camponês, nascido sob o céu austero dos Açores, Padre Mello havia feito da palavra sua lavoura mais fértil. Cultivara versos como quem semeia trigo em solo ingrato, com paciência, fé e uma confiança quase mística na eternidade do espírito. Décadas antes, publicara em Ponta Delgada o livro Matutinas, onde depositara sua alma em estrofes de devoção, amor e contemplação.
Eis, porém, que o tempo - esse guardião caprichoso - trouxe-lhe de volta seus próprios versos, não como eco, mas como usurpação.
Nas edições 1.123 e 1.124 de O Malho, surgiam dois poemas: “Os meus amores” e “A Rodolpho Machado, na sua morte”, assinados por um certo Antonio Gomes Smith. Não fossem as mínimas alterações - duas palavras aqui, uma inversão ali - seriam espelhos quase perfeitos da criação original do padre-poeta.
A denúncia veio em forma de carta, mas com o timbre de uma peça literária. Padre Mello não brandiu a indignação em gritos: preferiu a lâmina fina da ironia. “Com tão pequeno capital”, escreveu, “não tem o Sr. Smith direito à sociedade.” E sugeriu, com elegante veneno, que ao menos o imitador apresentasse “o cartão da casa” - isto é, reconhecesse a autoria legítima.
A redação de O Malho, experiente nos dramas humanos que atravessam a imprensa, respondeu com admiração: nenhuma palavra editorial poderia superar a precisão e o espírito da carta recebida. O caso, entretanto, estava longe de se encerrar.
Chamado à tribuna pública, Antonio Gomes Smith apresentou sua defesa. Alegou ser vítima de uma intriga, vítima de mãos ocultas que teriam manipulado seus versos e sua assinatura. Invocou honra, amizade e até perseguição - como se a autoria fosse uma entidade volátil, capaz de se deslocar entre homens como sombra ao entardecer.
Mas a poesia, como a verdade, deixa rastros.
E quando se pensava que o episódio já se dissiparia nas brumas do esquecimento, um novo golpe: outro poema, “Semelhanças”, também de lavra do padre, aparecia novamente sob o nome do mesmo autor. A reincidência dissolvia qualquer resquício de dúvida e dava ao caso contornos quase farsescos - um teatro de máscaras mal ajustadas.
Padre Mello retornou, mais uma vez, às páginas da revista. E sua resposta, longe de inflamada, era ainda mais cortante. Comparou o plagiador a um rato que rói o fundo do saco onde se guardam as poesias - imagem doméstica e devastadora, que traduzia não apenas o furto, mas a sordidez do gesto.
Havia, no entanto, algo de profundamente simbólico nesse episódio.
De um lado, um sacerdote-poeta, moldado na humildade rural, cuja obra nascera do silêncio, da contemplação e do tempo longo. De outro, a pressa - essa ânsia moderna de ser visto, lido, celebrado - ainda que à custa da voz alheia.
O plágio, nesse contexto, não era apenas crime literário: era um sintoma. Revelava uma sociedade em transformação, onde o brilho da fama começava a rivalizar com o valor da criação, e onde a autoria - antes sagrada - passava a ser, para alguns, apenas um detalhe negociável.
Mas, no fim, permaneceu aquilo que sempre sobrevive: a palavra verdadeira.
Porque versos podem ser copiados, mas não recriados em sua origem. E a poesia de Padre Mello, nascida entre ilhas, fé e memória, conservava algo que nenhuma usurpação poderia alcançar - a autenticidade silenciosa de quem escreve não para o aplauso imediato, mas para a eternidade.
Assim, nas páginas amareladas de O Malho, ficou registrado não apenas um escândalo, mas uma lição: há glórias que se improvisam, e há outras que resistem ao tempo - intactas, como a própria alma da poesia.
A Gabriel de Almeida, na sua morte
(Uma das poesias plagiadas)
Morrer é triste como a tua idade!
E tu contaste o derradeiro dia
quando tudo no mundo te sorria:
esposa e filhos, gloria e eternidade.
Esposa e filhos!... Dois idolatrados
carceres lindos onde livremente
captivos collocaste eternamente
teu coração, tua alma e teus cuidados.
Ella a esposa - conquista do passado,
os filhos - esperança do futuro.
Que dor perder tão cedo o affecto puro
que os extremos da vida tinha alliados!
Eternidade e gloria!... quanto é raro
ganhar dos homens um louvor ingente
e das cinzas do tumulo silente
revindicar ovante um nome claro.
Tudo alcançaste; mas é triste, triste,
cerrar tão cedo a pagina da Historia!...
Gosa no céo da immaculada Gloria
já que da terra poucou tempo viste.
Manuscritos desaparecidos de Padre Mello são reencontrados em Portugal
O soneto “Soneto”, tradução do latim feita por Padre Mello em 6 de agosto de 1898, quando era pároco em Sapucaia, foi um dos poemas localizados num sebo de Lisboa
No silêncio das ruas antigas de Lisboa, entre estantes carregadas de memórias e pó, o Prof. Dr. Márcio Pacheco cruzou o limiar de um alfarrábio. Ali, onde o tempo repousa em páginas esquecidas, seus olhos encontraram algo incomum: manuscritos em português, desenhados com uma caligrafia de rara beleza, como se cada letra ainda respirasse a alma de seu autor.
Movido por uma intuição quase inexplicável, levou-os consigo.
Dias depois, já em sua casa, ao abrir cuidadosamente aquele achado, revelou-se o prodígio: eram obras de Padre Mello. Poesias reunidas em um caderno, guardando versos que haviam desaparecido junto com sua vasta biblioteca após sua morte, como se o tempo os tivesse engolido… ou protegido.
E então, contra toda lógica, retornaram.
Os açorianos talvez não hesitassem em dizer: foi obra do Divino Espírito Santo.
Diante de tão rara descoberta, o Prof. Dr. Márcio Pacheco realizou um gesto à altura do milagre: doou não apenas os manuscritos reencontrados, mas também sua própria biblioteca à Casa dos Açores do Espírito Santo. Um ato de generosidade que não apenas preserva o passado, mas reacende o futuro.
Assim, um novo capítulo se abre na história de Padre Mello.
Se suas palavras um dia partiram rumo a terras distantes, hoje regressam ao seu berço, não como ecos perdidos, mas como presença viva.
É o pertencimento que atravessa o tempo, passado, presente e futuro, e, enfim, encontra repouso eterno.
Um Emocionante Soneto Composto em Sapucaia em 1897: O Velho, O Beijo à Ossada e o Olhar à Eternidade
O pooema "Em dia de Finados" foi composto por Padre Mello, em 1897, quando ele era pároco em Sapucaia. É uma obra que explora a melancolia e a transitoriedade da vida sob uma ótica cristã. Nos primeiros versos, o autor estabelece uma atmosfera sombria através de imagens sensoriais como o "lugubre gemer" do campanário e a visão de uma "grande romaria" despida de alegria. O cenário do cemitério é descrito com uma carga emocional densa, onde elementos físicos, como pétalas de rosas e lágrimas, se confundem para simbolizar o luto coletivo e a inevitabilidade da morte, transformando o espaço fúnebre em um local de contemplação da finitude humana.
No desdobramento do texto, o foco converge para a figura de um "velho venerando", cujo gesto de abrir uma urna e beijar a "ossada taciturna" eleva o poema de uma tristeza meramente descritiva para uma reflexão metafísica sobre o amor e a fé. A metáfora final, que compara o corpo falecido a um "palácio em ruína", reforça a ideia da alma como o verdadeiro "morador" que transcende a matéria. Assim, o poema conclui que, embora o corpo se desfaça, a esperança religiosa redireciona o olhar do observador para a "Eternidade", transformando o horror da decomposição em uma prece de piedade e crença na vida pós-morte.
EM DIA DE FINADOS
Ao lúgubre gemer do triste campanário
vi muita gente correr em grande romaria.
Morrera em cada olhar o raio de alegria
surgindo em cada fronte o aspecto funerário.
Segui a multidão e fui ao cemitério;
vi grupos em redor de túmulos silentes,
vi rosas desfolhar e lágrimas ardentes
quais pérolas cair por sobre o chão funéreo.
Além, sublime quadro! Um velho venerando
vai com vagar abrindo a envelhecida urna,
ajoelha e contempla a ossada taciturna
e, mistérios do amor! ... beija-a de quando em quando.
Depois, ao céu, erguendo os olhos com piedade
balbucia uma prece. Era a crença divina
que, vendo na ossada, um palácio em ruína,
buscava o morador além da Eternidade!
Sapucaia, 1897 Padre Mello
OS LIVROS SOBRE PADRE MELLO LANÇADOS EM BOM JESUS
Cinco são as publicações em Bom Jesus do Itabapoana sobre Padre Mello: "PADRE MELLO, HOMENAGEM DO COLÉGIO RIO BRANCO", impresso por Luciano Bastos; homenagem da Gráfica Gutemberg por ocasião da inauguração do busto de Padre Mello, em 13 de agosto de 1953; "PADRE MELLO, o imortal", de Dra Nísia Campos, contendo depoimentos de pessoas que conviveram com o pároco; "Padre Mello, Prosa e Versos", editado por Delton de Mattos, que pesquisou publicações nos jornais A Voz do Povo e O Norte Fluminense, e "Obras Selecionadas de Padre Mello", lançada pela Editora O Norte Fluminense, contendo publicações do acervo particular de Luciano Bastos, doações ao Espaço Cultural Luciano Bastos e pesquisas no Arquivo Nacional.
RUMO AO MUNDO: UM NOVO LIVRO QUE PROMETE ULTRASSAR FRONTEIRAS
Em Bom Jesus do Itabapoana, onde já se registram quatro obras dedicadas à vida e ao legado de Padre Antônio Francisco Mello, um novo capítulo começa a ser delineado. O Professor Dr. Márcio Pacheco prepara um estudo que promete ultrapassar fronteiras geográficas e intelectuais, projetando a produção do pároco açoriano para o cenário nacional e internacional. Com uma abordagem inédita, a obra propõe uma leitura filo-sócio-linguística de fatos reais convertidos em sonetos, revelando, sob rigor acadêmico e sensibilidade estética, as múltiplas camadas de sentido presentes na escrita de Padre Mello.
Voltada especialmente ao público dos países lusófonos, com destaque para os Açores, terra natal do sacerdote, a obra resgata a trajetória de um homem que, desde sua chegada ao Brasil em 18 de junho de 1899 até seu falecimento em 13 de agosto de 1947, transformou o cotidiano em matéria de poesia e luz. Intitulado “Poesias e Reflexões de um Cotidiano”, o trabalho de Márcio Pacheco não apenas revisita essa herança literária, mas a amplia com o peso de uma trajetória acadêmica extensa e multifacetada, na qual filosofia, teologia e linguagem se entrelaçam para iluminar, com lirismo e precisão, a permanência de um pensamento que ecoa além do tempo.
Padre Mello morreu em 13 de agosto de 1947, justamente no início da Festa de Agosto, celebração à qual era profundamente ligado. Antes de partir, deixou um pedido simbólico e revelador: que a festa não fosse interrompida. Como se, mesmo diante da morte, quisesse preservar a alegria, a fé e a continuidade da tradição.
Conhecer sua vida, sua obra e o legado de humanismo que construiu é mais do que revisitar o passado, é encontrar um exemplo que permanece atual. Sua trajetória convida à reflexão e inspira à imitação, não pelo extraordinário distante, mas pela grandeza vivida no cotidiano.
No arco luminoso de sua existência, Padre Mello elevou a condição humilde de filho de camponeses à dimensão de um verdadeiro patrimônio da civilização e da cultura. Entre serras e vales de Bom Jesus do Itabapoana, e por onde passou, semeou fé, poesia e pensamento. Sua palavra tornou-se luz para os espíritos e consolo para os corações.
Sacerdote e poeta, viveu como quem cultiva um sonho maior que si mesmo, e assim cumpriu o destino que ele próprio cantara: “morrer sonhando é despertar na glória; eis a vitória, morrerei assim”. E porque viveu sonhando,com a beleza, com Deus e com a dignidade humana, seu sonho não se extinguiu com a morte. Permanece vivo na memória das gerações, como uma estrela serena que continua a iluminar os caminhos da cultura e da alma.
Reconhecimento da comunidade acadêmica da FAMESC sobre a importância da obra de Padre Mello
Em 2017, a convite do professor de Filosofia do Direito, Dr. Auner Pereira Carneiro, da FAMESC (Faculdade Metropolitana São Carlos), ocorreu uma relevante palestra intitulada “Reflexões filosóficas sobre a obra de Padre Mello e sua influência no cotidiano regional”.
O professor Auner Pereira Carneiro, egresso da Universidade Federal do Paraná e doutor pela Universidade de São Paulo, relatou que tomou conhecimento da obra enquanto estava em São Paulo. Segundo ele: “Chamou-me a atenção o poema ‘Somos Todos Operários’, e entendi que deveria convidar o editor do opúsculo. Acho que um anjo me tocou”.
O evento representou o início de um importante reconhecimento da comunidade acadêmica acerca da relevância da obra de Padre Mello.
Décadas depois, o poema foi musicado pelo açoriano Francisco Amaro Borba Gonçalves.
SOMOS TODOS OPERÁRIOS
Somos todos operários
com oficio diferente:
a matéria - para o braço,
as ideias - para a mente.
Pois sendo o homem um composto
de corpo e alma, convém
que assim como o corpo o serve
o sirva a alma também.
Assim mesmo quis que fosse
a divina Providência;
o corpo serve com braços,
a alma com inteligência.
E o que se dá no indivíduo
dá-se na sociedade;
uns - a força, outros - a ideia,
sem quebrar a unidade.
Pensai nisto, homens do século,
operários e patrões.
Sois membros do mesmo corpo
embora haja distinções.
O COLEGIO ESTADUAL PADRE MELLO
Além da Avenida Padre Mello, Bom Jesus conta com o importante Colégio Estadual Padre Mello.Seu emblema é um rico exemplo de heráldica institucional combina elementos religiosos, acadêmicos e históricos.
1. Elementos de Identidade e Localização
Texto Superior: "C. E. PADRE MELLO" identifica a instituição de forma direta.
Texto Inferior: "CENTRO DE ENSINO INTEGRADO PADRE MELLO" reforça o nome completo da unidade, acompanhado da localização: Bom Jesus do Itabapoana - R.J.
Datas (1863 - 1966): Essas datas são fundamentais para a cronologia da instituição. O ano de 1863 se refere ao do nascimento de Padre Mello. O ano de 1966 marca a inauguração do educandário.
2. Simbolismo Heráldico (O Escudo)
O escudo é dividido horizontalmente em duas cores principais, carregando símbolos de forte peso semântico:
A Lâmpada a Óleo (Campo Azul): Situada na parte superior, a lâmpada é o símbolo universal do conhecimento, da sabedoria e da luz da educação. Ela remete à ideia de que o ensino "ilumina" o caminho dos estudantes e afasta a "escuridão" da ignorância.
A Cruz Latina (Campo Vermelho): Localizada na parte inferior, a cruz branca sobre o fundo vermelho é uma referência direta à origem religiosa da instituição e à figura do Padre Mello. Ela simboliza a fé cristã e os valores éticos que fundamentam a base pedagógica da escola.
3. Ornamentos Externos
O Galero (Chapéu Eclesiástico): Acima do escudo, há um chapéu preto com cordas e nós laterais. Na heráldica, este é o galero, utilizado para indicar o grau de um clérigo. Sua presença aqui homenageia o patrono, o Padre Mello, reforçando seu status sacerdotal e sua liderança na comunidade.
O Listel (Faixa): Na base do escudo, a faixa azul sustenta as datas históricas e o nome da cidade, funcionando como a base sólida da tradição da escola.
4. Significado das Cores
Azul: Associado à justiça, perseverança e lealdade. No contexto escolar, representa a busca pela verdade.
Vermelho: Simboliza coragem, sacrifício e espírito de serviço. Pode representar o fervor missionário do patrono.
Branco/Prata: Representa a pureza, a integridade e a paz.
O emblema comunica que o Colégio Estadual Padre Mello é uma instituição de tradição que busca equilibrar a formação intelectual (a lâmpada) com a formação moral e religiosa (a cruz), sob a inspiração histórica de seu patrono clérigo. É uma imagem que evoca respeito à história local e compromisso com a iluminação através do saber.
PÃO DO PADRE: A CULINÁRIA AÇORIANA EM BOM JESUS DO ITABAPOANA
Em 2015, Ruth Fragoso de Azevedo Silveira prestou depoimento importante ao jornal O Norte Fluminense sobre a história do Pão do Padre, culinária açoriana em Bom Jesus do Itabapoana.
A ORIGEM DO PÃO DO PADRE
(Testemunho de Ruth Fragoso de Azevedo Silveira ao jornal O Norte Fluminense)
"A irmã de Padre Mello, Maria Júlia de Mello, conhecida como Dona Mariquinha, veio com ele para Bom Jesus, no dia 18 de junho 1899, juntamente com Dona Cândida, mulher de posses e patroa de Mariquinha, que ajudou Padre Mello em sua ordenação. Mariquinha e Dona Cândida costumavam fazer um delicioso pão caseiro que era muito apreciado pelo pároco. Além disso, todos os dias, por volta das 15h, elas também vendiam o pão, para ajudar a manter os serviços da Igreja. Por este motivo, ele passou a ser chamado de Pão do Padre.
Eu conheci Padre Mello quando eu era muito pequena. Nasci em 18 de agosto de 1923. Fui batizada por ele, assim como minhas quatro irmãs.
Foi ele quem oficializou o casamento de meus pais José e Hermínia, e das minhas irmãs mais velhas. Não realizou o meu, por ter sido levado ao descanso eterno. Padre Mello se adaptou ao convívio da nossa Vila, por ter encontrado pessoas como ele vindas das belas paragens de Portugal.
Convivia com os meus avós paternos e maternos, por eles serem conterrâneos. Intelectual, além de sacerdote que com muito zelo conduzia seu rebanho para o bem.
Matemático, escritor, poeta, agrimensor, professor. Por algum tempo, ministrou aulas de português no Colégio Rio Branco. Exigente com a nossa língua, nos dava muita bronca quando não sabíamos conjugar um verbo, ou não sabíamos análise sintática.
Guardo suas poesias com carinho. Ele era apaixonado pela Festa de Agosto, ocasião em que a Igreja distribuía alimentos aos pobres. Era frequentador do lar de meus avós Manoel Antônio de Azevedo Mattos e Dª Terezinha. Meu avô, como bom português, sabia receber seus visitantes com bons vinhos.
Minha avó materna, filha de portugueses, era casada com o professor José Cândido Fragoso, e, ambos, tinham o vigário como um grande amigo, que sempre frequentava sua residência.
Todos os filhos de meus avós foram batizados por ele. Por ocasião da morte de minha tia Inhá (Maria Tereza), sua presença foi primordial naquele momento de tanta dor. Sua afeição por minha família era de muito amor. Deixou, para aliviar nossa dor e sofrimento, um lindo poema intitulado 'Gottas de Balsamo', escrito em 1902.
Padre Mello fez voto de pobreza. Seus pertences eram doados por amigos. A partir de certa época, ele foi morar em um pequeno quarto localizado ao lado da Igreja Matriz. Foi ali que ele faleceu, na mais absoluta pobreza.
Está aí o relato da vida deste Padre Mello que se tornou um mito em nossa cidade".
Ruth Fragoso de Azevedo Silveira informou ao jornal O Norte Fluminense sobre a origem do Pão do Padre.
SARAUS AÇORIANOS CELEBRAM PADRE MELLO
Em Bom Jesus do Itabapoana, os Saraus Açorianos florescem sob a luz íntima da memória e da tradição, celebrando Padre Mello na residência da família Borges Bastos. A casa torna-se templo de evocação e ternura, onde cada palavra sussurrada carrega o peso doce da história, e cada gesto reacende vínculos antigos, como se o passado ali respirasse entre paredes silenciosas.
No meio de vozes, versos e lembranças, erguem-se taças de vinho português, cintilando como pequenas constelações nas mãos dos presentes; e, em cada brinde, palpita a herança, o afeto e a poesia que atravessam o tempo. Há, nesse instante suspenso, uma comunhão delicada entre o efêmero e o eterno, onde a saudade se transforma em canto e o amor se perpetua em celebração.
PADRE MELLO: PRESENÇA VIVA EM BOM JESUS DO ITABAPOANA, O ABRIL QUE NUNCA TERMINA
No mês em que abril floresce em memória e devoção, Padre Mello ressurge no coração de Bom Jesus do Itabapoana como presença viva, quase palpável, no meio de ruas, histórias e gestos cotidianos. O que nasceu de forma espontânea, como simples reconhecimento, tornou-se tradição que atravessa gerações, envolvendo o município em um tempo que não é apenas calendário, mas sentimento. Abril deixa de ser apenas mês: transforma-se em espaço de encontro entre passado e presente, onde a memória se torna celebração e a saudade, gratidão.
E, no entanto, nenhum tempo seria suficiente para conter a grandeza de seu exemplo. Por isso, a homenagem se estende para além dos dias contados, como um sopro contínuo que atravessa o ano inteiro. Pensar em Padre Mello é acreditar que a elevação humana e cultural se constrói no cotidiano, nos pequenos gestos de fé, cuidado e dignidade. É reconhecer que sua presença permanece viva não apenas na lembrança, mas na forma como cada vida pode, silenciosamente, tornar-se também um testemunho de luz.
Tela em óleo eternizou Padre Mello
A consagrada artista plástica mineira, natural de Rio Novo (MG), eternizou, em 2019, em traços e cores a devoção do Padre Mello. Na tela em óleo, ele surge de joelhos, segurando com reverência uma coroa destinada a Nossa Senhora de Fátima, em um cenário que remete à serenidade de uma mata.
No meio de sombras e luz, abre-se uma clareira simbólica onde despontam a Igreja Matriz do Senhor Bom Jesus, cuja construção contou com seu empenho, e o antigo Palacete de Malvino Rangel. Ao fundo, a Praça Governador Portela ganha vida com a passagem de um carro de bois, evocando memórias, fé e a simplicidade de um tempo que ainda ecoa na alma.
Caricatura de Padre Mello feita por Octacílio de Aquino, o mais brilhante pupilo do pároco açoriano
Sob o traço firme e afetuoso de Octacílio de Aquino, a fisionomia de Padre Mello transcende o papel para se tornar eterna. Nesta caricatura, não vemos apenas o mestre, mas a alma de um educador que moldou destinos e semeou sabedoria nos corredores do Colégio Rio Branco.
O Traço que Eterniza a Saudade
A silhueta do Mestre: O perfil inconfundível, coroado pelo chapéu que era sua marca registrada, desenha o contorno de uma vida dedicada à fé e ao ensino. Cada linha posta por Octacílio é um verso de gratidão, revelando a fisionomia de quem olhava o mundo com a profundidade dos sábios.
O Olhar do Pupilo: Há uma beleza singular quando o aluno supera a técnica para alcançar a essência. Octacílio, o "mais brilhante pupilo", não usou apenas nanquim; usou a memória viva de quem foi guiado por essa presença serena e paternal.
Um Legado em Preto e Branco: A simplicidade do desenho ecoa a retidão de caráter do homenageado. É uma imagem que fala de um tempo onde a educação era um sacerdócio e o respeito era o alicerce de cada lição.
"Nesta homenagem, o papel deixa de ser inerte para pulsar com a história de Bom Jesus do Itabapoana. Padre Mello permanece aqui: não apenas como uma figura histórica, mas como um guia eterno, desenhado com a tinta indelével do afeto."
Esta obra, preservada no acervo de Luciano Bastos, é o retrato de um encontro entre gerações: o mestre que ensinou o caminho e o artista que, com seu talento, garantiu que o caminho jamais fosse esquecido.
Padre Mello em Crochê: o Boneco que Guarda um Legado
No meio de fios e memórias, Rita de Cássia Côgo transforma o crochê em afeto palpável. No delicado gesto do amigurumi, nasce o Padre Mello, não apenas em forma, mas em presença, tecido com respeito, história e pertencimento. Pequeno no tamanho, imenso no significado, o boneco carrega mais que linhas: guarda lembranças, honra trajetórias e mantém vivo um legado que segue palpitando na cultura da região. Arte que não apenas se vê, sente-se.
Sobrinho bisneto de Padre Mello, a história do papagaio, a medalha e o prato
Ruy Carlos Herrera Braga, sobrinho bisneto de Padre Mello, residente em Campinas, São Paulo, nos informou o seguinte.
"Curiosidade na minha família é tida como lenda.
Pe. Mello tinha um papagaio, um papagaio falante, mas o Pe. Mello viajava muito e, na sua ausência, o papagaio não emitia um único som.
No dia que o papagaio começa a falar ... o Padre Mello estava por chegar... Tia Maria podia começar a preparar um belo almoço, pois certamente ele iria chegar.
Minha avó, que viveu 5 anos com eles em Bom Jesus de Itabapoana, me contou repetidas vezes essa história, sempre as mesmas palavras e pontuação.
É história, incrível, mas é contada de geração a geração, há 120 anos, e já estamos na 5a., contando com a da minha avó, testemunha ocular desta história".
Talvez seja lenda. Talvez seja verdade.
Mas há histórias que não precisam escolher entre uma coisa e outra. Elas existem num território mais profundo, onde a memória encontra o afeto, e o tempo se curva diante do que merece permanecer.
E, no fundo, o que ecoa não é apenas o papagaio que falava.
É a presença de Padre Mello que, mesmo ausente, nunca deixava de chegar.
Ruy Carlos Herrera Braga também menciona uma medalha.
"Minha mãe foi abençoada por Padre Mello em Bom Jesus do Itabapoana, em 1932, e carrega desde seu nascimento uma medalha da família do Sagrado Coração de Jesus, dada por Tia Maria".
Ruy Carlos Herrera Braga destaca ainda um prato simples que guarda histórias que o tempo não apaga.
Na propriedade do camponês Marianno Mello, pai de Padre Mello, mãos jovens talvez de Manuel Francisco de Mello ou Antonio Francisco de Mello, transformavam o cotidiano em sustento e memória. Antes de se tornar o Padre Mello, aos 25 anos, Antônio já revelava sua essência: no meio da massa e a fé, moldava não só o pão, mas o próprio caminho.
"Em nome do Governo dos Açores, curvo-me diante da saudosa memória do nosso comum Padre Mello” (Dr. José Andrade)
A visita de José Andrade, Diretor Regional das Comunidades do Governo dos Açores, a Bom Jesus do Itabapoana, em 25 de julho de 2022, transcende o simples registro protocolar para se inscrever como um gesto carregado de memória, identidade e reencontro atlântico.
Diante do busto do Padre António Francisco de Mello, no átrio da Igreja Matriz do Senhor Bom Jesus, o visitante micaelense, nascido em Ponta Delgada, pareceu encurtar séculos de travessia e saudade, religando simbolicamente duas margens de uma mesma herança cultural.
Intelectual prolífico, autor de obras como Açores no Mundo e Transatlântico, Andrade encarna a figura do “bonjesuista”, termo cunhado por Octacilio de Aquino, que define aqueles que, mesmo vindos de longe, adotam a terra com devoção afetiva.
Nesse entrelaçar de histórias, emerge a consciência de um “Bom Jesus açoriano”, tecido por descendências, afetos e legados, onde nomes como Francisco Amaro Borba Gonçalves se somam à memória viva de Padre Mello, o “homem dos sete ofícios”, como o definiu Andrade.
A evocação de sua chegada em 1899 e de sua entrega vital à cidade até 1947 reforça a dimensão quase mítica dessa figura que, nascida na freguesia da Achada, no concelho de Nordeste, tornou-se patrimônio espiritual do Vale do Itabapoana.
Ao curvar-se, em nome do Governo dos Açores, diante dessa memória, José Andrade não apenas homenageia um conterrâneo ilustre, mas reafirma a cumplicidade fraterna entre os Açores e o Brasil, uma ponte viva de cultura, história e emoção que continua a dignificar e enobrecer ambos os lados do Atlântico.
DR. JOSÉ ANDRADE: "emnome do Governo dos Açores,curvo-me perante a saudosa memória do nosso comum Padre Mello"
"As comemorações dos 160 anos de nascimento de Padre Mello assumem uma pertinente expressão de nossa partilhada açorianidade graças ao importante envolvimento da Casa dos Açores do Espírito Santo.
Sob a dinâmica do principal fundador Dr Nino Moreira Seródio, a CAES promove e acolhe a significativa visita do Grupo Folclórico Padre Tomás de Borba, da sua vizinha Casa dos Açores do Rio de Janeiro, que leva a cumplicidade fraterna da cultura açoriana ao Vale do Itabapoana neste final do mês de abril.
Desta forma se iluminam ainda mais os 160 anos de luz que evocam o legado marcante de Padre Antônio Francisco de Mello, açoriano da ilha de São Miguel, micaelense do concelho de Nordeste, nordestense da freguesia da Achada.
Aqui nasceu a 27 de abril de 1863, viajou ao Brasil em 1895 e, em 1899 se ficou em Bom Jesus do Itabapoana, a que dedicou meio século de sua vida e entregou sua morte a 13 de agosto de 1947.
Ali foi "homem dos sete ofícios" - sacerdote, empreendedor, escritor, poeta, historiador, compositor e professor - tornando-se figura maior da história local.
Isso mesmo testemunham com justificado orgulho o investigador Antônio Soares Borges e o editor Gino Borges Bastos também eles ligados à jovem Casa dos Açores do Espírito Santo.
Por tudo isso, em nome do Governo dos Açores, curvo-me perante a saudosa memória do nosso comum Padre Mello e felicito os promotores desta merecida homenagem a que assim gostosamente nos associamos.
Ponta Delgada, 24 de abril de 2023.
José Andrade
Diretor Regional das Comunidades do Governo dos Açores".
Grupo Folclórico Padre Tomás Borba, da Casa dos Açores do Rio de Janeiro, homenageou Padre Mello
No dia 29 de abril de 2023, no meio de vozes que ecoam tradição e passos que guardam memória, o Grupo Folclórico Padre Tomás Borba, da CARJ, Casa dos Açores do Rio de Janeiro, celebrou, com emoção, a herança açoriana que vive em nosso Espírito Santo.
Na Capela do Divino Espírito Santo, onde repousa o saudoso Padre Mello, cada gesto foi homenagem, cada canto foi saudade transformada em arte.
Uma reverência viva à fé, à cultura e às raízes que nos unem além do tempo.
O busto de Padre Mello: guardião silencioso de fé e memória
Diante da Igreja Matriz, ergue-se o busto de Padre Mello, guardião silencioso de fé e memória, inaugurado em 13 de agosto de 1953. Padre Mello ajudou a erguer não apenas paredes, mas também a alma de um povo, moldada com traços da herança açoriana que ainda ecoa nos detalhes da construção.
À sua frente, a praça respira vida. Ali, no meio de passos apressados e encontros cotidianos, ele vigia com serenidade, como quem ainda protege os caminhos dos bonjesuenses.
À direita, um prédio de feições libanesas revela outra corrente dessa história. Pertenceu a Merhige Hanna Saad, trazendo consigo a marca de um povo que também aqui fincou raízes, misturando culturas, sonhos e destinos.
No meio de pedras, fachadas e silêncios, a cidade conta sua própria origem: um encontro de mares e desertos, de açorianos e libaneses, que juntos teceram a identidade viva de Bom Jesus, onde cada esquina guarda um fragmento de memória e pertencimento.
É o encontro de duas terras irmãs, unidas pela mesma raiz e pela mesma memória. Ali, o tempo se dissolve, e o Atlântico deixa de ser distância para se tornar ponte, onde a saudade, o respeito e a história se reconhecem como um só sentimento.
Padre Mello e seus pupilos de Bom Jesus
Agosto de 1939. No meio de olhares firmes e sonhos partilhados, Padre Mello reúne seus pupilos, jovens mentes que ajudariam a tecer a vida intelectual de Bom Jesus. Ali, entre nomes e histórias, pulsa a essência de uma geração que encontrou na palavra, no estudo e no jornal A Voz do Povo o caminho para transformar seu tempo.
Naquele instante eternizado, não são apenas rostos que se alinham, mas ideias que florescem, vozes que se erguem e um futuro que começa a ser escrito a muitas mãos, sob a inspiração de um mestre que fez do saber sua missão.
Uma imagem que não guarda apenas pessoas, mas o nascimento de um legado.
No primeiro plano, da direita para a esquerda: José Maria Garcia, José Tarouquella, Renato Wanderley, Osório Carneiro, Padre Mello, Octacilio de Aquino e Romeu Couto. Em segundo plano: Dalton Tarouquella, "Dico", Neiva, Ernani Tarouquella, Onofre, "Totinho", Hélio Garcia e Elvio Tarouquella.
Padre Mello e seus pupilos, parte da elite intelectual de Bom Jesus, integrante do jornal A Voz do Povo, em agosto de 1939.
Padre Mello e a segunda e definitiva emancipação de Bom Jesus
Niterói, 14 de dezembro de 1938. Um instante que o tempo não ousou apagar: sob a assinatura do interventor Amaral Peixoto, o Decreto nº 633 sela a segunda e definitiva emancipação de Bom Jesus do Itabapoana.
Ao seu lado, o então tenente-coronel Fernando Lopes da Costa, que o futuro elevaria a general, o incansável Padre Mello e a caravana bonjesuense, testemunhas vivas de um sonho que se tornava história.
Mais que um ato político, era o nascimento reafirmado de um povo, a conquista de sua própria voz, o destino enfim escrito pelas próprias mãos. (Pesquisa de Cláudia Borges do Carmo)
Padre Mello era topógrafo e confeccionou o primeiro mapa de Bom Jesus do Itabapoana
Este mapa é uma oração escrita em geografia. Cada linha é um destino; cada mancha no papel é a marca de um dedo que, há décadas, apontou para o futuro e perguntou: "Falta muito para chegar?"
Sob o manto pardo do tempo, onde o papel se fez pergaminho e a tinta se tornou sombra, repousa o desenho de uma terra antiga. Este não é apenas um mapa; é o rastro de passos que o vento não apagou, uma cartografia de saudades em tons de terra e âmbar.
No papel amarelado pelo tempo, onde a memória se mistura ao traço firme da mão humana, surge o primeiro retrato de caminhos e silêncios de Bom Jesus do Itabapoana. No alto, quase como um sussurro antigo, lê-se “LEGENDA”, a chave para decifrar aquele mundo desenhado com cuidado e fé.
Ali, o Padre Mello, utilizando um teodolito, organizou o território em sinais e linhas: caminhos que serpenteiam como rios secos, trilhas que ligam casas, povoados, vidas. Cada risco guarda uma intenção, orientar, registrar, eternizar.
O mapa não é apenas geografia; é narrativa. As estradas desenhadas contam histórias de passagem, de encontros e despedidas. Os pontos dispersos sugerem moradias, talvez capelas, talvez sonhos fincados no chão de terra. Tudo ali pulsa com a simplicidade de um tempo em que mapear era também um ato de pertencimento.
Décadas depois, esse testemunho cartográfico atravessou o tempo pelas mãos de Elcio Xavier, o “Príncipe dos Poetas”, que o ofereceu como quem entrega um relicário de memória ao Espaço Cultural Luciano Bastos.
E assim, no meio da arte e história, o mapa permanece: não apenas como registro do espaço, mas como poema visual de uma cidade em formação, onde cada linha é um verso e cada caminho, uma história que ainda ecoa.
Elcio Xavier, o Príncipe dos Poetas, doou o primeiro mapa de Bom Jesus ao ECLB e homenageou Padre Mello, de quem foi coroinha, em 2017. Em seu livro de memórias, assinalou: "Padre Mello era um verdadeiro homem de Deus".
O teodolito de Padre Mello
Havia, nas mãos de Padre Mello, um instrumento que ia além do metal e das lentes: o teodolito era, para ele, um modo de compreender o mundo.
Enquanto muitos erguiam os olhos apenas ao céu, ele os dividia entre o alto e a terra, como quem sabia que também o chão precisa ser revelado, compreendido, desenhado. Com paciência de quem mede mais do que distâncias, Padre Mello percorreu as terras de Bom Jesus do Itabapoana, traçando linhas invisíveis que, pouco a pouco, se tornariam caminhos, limites, pertencimento.
Diante da Igreja Matriz do Senhor Bom Jesus, seu teodolito não registrava apenas ângulos e proporções. Ali, ele media o espaço onde a fé se ergueria em pedra, onde o sagrado encontraria morada entre os homens. E assim, no meio de números e silêncio, ajudou a transformar devoção em arquitetura.
Padre Mello caminhava com sete ofícios - sacerdote, poeta, historiador, compositor, professor e empreendedor (agrimensor), talvez nunca os tenha separado. Ao medir a terra e prédios, também os consagravam. Ao desenhar limites, abria horizontes.
Assim foi com Padre Mello. Ao empunhar o teodolito, ele não apenas exercia uma técnica, exercia uma forma de construção. Mediu terras, desenhou mapas, orientou edificações. Em cada medição, havia mais que precisão: havia propósito.
Seu trabalho não se limitava ao presente. Ele organizava o espaço para que a vida florescesse com ordem, sentido e permanência. E isso é, em sua essência, empreender: transformar conhecimento em realidade, visão em estrutura, intenção em legado.
Seu teodolito parecia apontar não apenas direções, mas destinos.
E ainda hoje, nas ruas, nas construções, na própria ideia de cidade, permanecem os traços desse olhar preciso e sensível, como se, de algum modo, cada canto de Bom Jesus guardasse a memória de um homem que soube medir o mundo sem jamais reduzir sua grandeza.
Décadas mais tarde, essa relíquia, testemunho inaugural de Bom Jesus do Itabapoana, encontrou abrigo e permanência graças a um gesto de memória e afeto. Foi doada ao Espaço Cultural Luciano Bastos pelo saudoso Irmão Ederaldo do Carmo, sobrinho bisneto de Padre Mello, ao lado de sua mãe, Maria Terezinha do Carmo Oliveira.
Nesse ato, mais do que a entrega de um objeto histórico, consolidou-se a preservação de uma origem. O mapa segue vivo, não apenas como registro técnico, mas como narrativa de fundação, onde a exatidão do teodolito se transforma em poesia territorial, e onde cada traço continua a contar, em silêncio, a história de um lugar que aprendia a se reconhecer.
Ir. Ederaldo do Carmo, sobrinho bisneto de Padre Mello, doou o teodolito ao Espaço Cultural Luciano Bastos
Duas residências de Padre Mello
No alto da memória de um tempo antigo, erguia-se o famoso Castelinho, morada do Padre Mello e símbolo de fé e presença. Construído por Dona Cândida Mello, açoriana de posses e de espírito determinado, que cruzou o oceano e chegou ao Brasil em 4 de junho de 1895, acompanhada do pároco açoriano e de sua irmã Mariquinha.
Hoje, o tempo silenciou suas paredes, restando apenas a torre, sentinela solitária de histórias que o vento ainda sussurra. Lá no alto ficava o quarto de Padre Mello, onde o olhar alcançava horizontes e orações. Pela lateral, uma escada levava ao topo descoberto do Castelinho, onde céu e fé pareciam se encontrar.
Nos seus últimos dias, porém, a grandiosidade deu lugar à simplicidade. O padre passou a viver em um pequeno abrigo, um quarto, uma sala e um banheiro, ao lado da Gruta de Nossa Senhora de Lourdes, erguida em fevereiro de 1943, ao lado da Igreja Matriz do Senhor Bom Jesus. Foi ali, entre limites físicos e grandeza espiritual, que celebrou um casamento, mesmo sem poder caminhar até a igreja.
Da janela, como quem semeia esperança, distribuía santinhos aos que passavam, acolhendo cada visitante com gestos de ternura e devoção.
E assim, no dia 13 de agosto de 1947, partiu em silêncio, envolto na pobreza material, mas pleno de santidade, deixando na terra não apenas lembranças, mas um legado de fé que o tempo jamais apaga.
Padre Mello na Fazenda de Fortunato Mangaravite, em 1915
De batina branca, como quem carrega a paz no próprio corpo, Padre Mello caminha entre a terra e o céu, na Fazenda de Fortunato Mangaravite, em Bom Jesus do Norte, no longínquo ano de 1915. Há silêncio no ar, mas também há fé, daquela que brota simples como o chão sob seus pés, e se eleva suave, como prece ao entardecer. No meio de campos e horizontes vastos, sua presença parece costurar o sagrado ao cotidiano, fazendo da paisagem um altar e da vida, oração. Um instante guardado no tempo, onde a história respira e o espírito encontra abrigo.
Padre Mello na Capela com crianças e pais:
o eterno num momento
Na singela capela, onde a luz atravessa os vitrais como um sussurro divino, Padre Mello ergue a voz, não em autoridade, mas em ternura.
Diante dele, olhos atentos de crianças e corações silenciosos de pais se unem num mesmo instante de escuta. Suas palavras não são apenas ensinamentos, mas sementes lançadas em terra fértil, tocando almas com delicadeza e esperança.
Há algo de eterno naquele momento: a fé sendo partilhada, o amor sendo ensinado, e o tempo, por um instante, rendido à beleza do encontro entre gerações.
Ali, no meio de bancos simples e olhares iluminados, nasce um elo invisível, daqueles que atravessam a vida inteira.
Padre Mello: encontro de vestes, altar e flores
Diante do altar, Padre Mello se eleva não em altura, mas em presença. Sua figura, envolta pela sobrepeliz de rendas delicadas e pela estola marcada por cruzes, parece entrelaçar o humano ao divino. Sob as vestes, a batina escura guarda o silêncio de quem carrega a fé como missão e destino.
O altar, coberto por rendas minuciosas, revela em seus bordados o sagrado que se faz detalhe, o Coração que ama, o cálice que oferece, a entrega que nunca cessa. Cada fio parece tecido com devoção, como se mãos invisíveis ali tivessem bordado orações.
E entre tudo isso, erguem-se os lírios brancos, puros, serenos, quase etéreos. São como testemunhas silenciosas daquele instante, símbolos de uma pureza que não é ausência de mundo, mas presença de graça. Ali, evocam a doçura da Virgem e a santidade que floresce no cotidiano.
No encontro de vestes, altar e flores, não há apenas rito, há poesia. Há um sopro do eterno que toca a terra, e por um instante, tudo se torna sagrado.
Traslado dos Restos Mortais de Padre Mello em 2007
No dia 13 de agosto de 2007, o Padre Vicente Osmar Batista Coelho promoveu o traslado dos restos mortais de Padre Mello que estavam na Capela do Cemitério para a Capela do Divino Espírito Santo, no interior da Igreja Matriz do Senhor Bom Jesus, reformada com muita beleza e encanto por Raul Travassos, um dos maiores cenógrafos do Brasil.
A magistrada Mônica Pancho fez o discurso solene: "Hoje, o meu sonho se tornou realidade, pois Padre Mello está aqui dentro da Igreja, e todos nós poderemos com ele falar, não em sonho, mas de verdade, em oração. Obrigada, Padre Vicente, por ter transformado meu sonho em realidade".
Padre Vicente Osmar Batista Coelho
No silêncio sagrado que envolve o tempo e a memória, a alma se curva diante do eterno, e ali, entre fé e saudade, renasce a presença de quem jamais partiu por inteiro. O gesto da magistrada Dra. Mônica Pancho, naquele 13 de agosto de 2007, não foi apenas uma homenagem, foi um encontro entre o visível e o invisível, entre o sonho e a eternidade, onde Padre Mello, mais do que lembrado, foi sentido em cada batida de coração que buscava Deus.
Há palavras que não se encerram no instante em que são ditas; elas ecoam como preces vivas, atravessando o tempo e tocando almas. E assim são as palavras que brotaram daquele sonho: um chamado suave e profundo para que cada ser humano descubra, dentro de si, o santuário onde Deus habita. Porque encontrar Deus é, acima de tudo, encontrar-se na própria essência, despido de vaidades, revestido apenas da simplicidade que conduz à paz verdadeira.
Na travessia da vida, no meio de jardins de dor e escadas de esperança, cada passo nos aproxima do divino, ainda que por caminhos distintos, todos levam à mesma luz. E ali, no mistério da fé, compreendemos que nenhuma dor é em vão, nenhum pranto é esquecido, pois tudo se transforma em passagem, em aprendizado, em ponte para o encontro maior com o sagrado.
Hoje, mais do que memória, há presença. Mais do que saudade, há comunhão. Padre Mello repousa onde a fé o eternizou, e sua voz ainda sussurra aos corações atentos: buscai e encontrareis. Que cada um de nós, à sua maneira, encontre Deus no íntimo da alma, e, nesse encontro, descubra a paz que não passa, a luz que não se apaga e o amor que jamais morre.
Raul Travassos, um dos maiores cenógrafos do Brasil, deixou sua arte também marcada na Igreja Matriz, em 2013, onde suas mãos ajudaram a renovar não apenas espaços, mas sentimentos. Entre suas obras, destaca-se a Capela do Divino Espírito Santo, lugar de silêncio e eternidade, onde repousam os restos mortais de Padre Mello, guardados sob o cuidado da fé e da memória.
Um Francisco que, em devoção, se curva diante de outro Francisco
Diante do sagrado silêncio da Capela do Divino Espírito Santo, no coração da Igreja Matriz do Senhor Bom Jesus, o açoriano Francisco Amaro Borba Gonçalves se ajoelha. Em gesto de fé e memória, reverencia o túmulo do Padre Mello, e o tempo parece suspenso.
É mais que um encontro: é um elo invisível que atravessa o oceano e as gerações. Um Francisco que, em devoção, se curva diante de outro Francisco. Raízes que não se perdem, apenas encontram o caminho de volta.
A sala que Guarda o Tempo na CAES, Casa dos Açores do Espírito Santo, em Apiacá
Na CAES, Casa dos Açores do Espírito Santo, erguida no distrito de José Carlos (Iuri), em Apiacá, o tempo parece repousar em silêncio devoto na Sala do Padre Mello. Ali, no meio de paredes que guardam memórias e ecos de fé, cada detalhe sussurra histórias de travessias, de encontros e de raízes que atravessaram o oceano para fincar-se na terra capixaba.
Foi também em Apiacá que o Padre Mello chegou, vindo de Sapucaia, RJ, trazido pelo compasso ritmado do trem, no dia 17 de junho, como quem chega carregando não apenas bagagens, mas destinos. No dia seguinte, seguiu rumo a Bom Jesus do Itabapoana, deixando para trás um rastro de presença que ainda hoje ressoa, como se o próprio tempo, tocado por sua passagem, tivesse decidido permanecer.
INSÍGNIA AÇORIANA A PADRE MELLO E A GLÓRIA DE BOM JESUS DO ITABAPOANA
Num gesto que transcende o protocolo e toca o âmago da alma açoriana, Dr. Nino Moreira Seródio, presidente da Casa dos Açores do Espírito Santo, entregou em 13 de agosto de 2024, a Insígnia Açoriana que um dia lhe fora confiada, não como quem se despede de um símbolo, mas como quem perpetua um legado.
A honraria, carregada de história, memória e identidade, encontrou em Padre Mello não apenas um novo guardião, mas um coração capaz de compreender o seu verdadeiro significado. Foi um instante de rara beleza: um encontro entre gratidão, respeito e continuidade.
Com a autorização do Governo dos Açores, por meio do Diretor Regional das Comunidades, Dr. José Andrade, o gesto ganhou ainda mais força, não apenas institucional, mas profundamente humano. Como se, naquele ato simples e grandioso, as ilhas se fizessem presentes, atravessando o oceano para abraçar os seus filhos além-mar.
Ali, naquele momento, não se entregava apenas uma insígnia. Entregava-se história. Partilhava-se identidade. Renovava-se o elo invisível que une gerações, terras e sentimentos.
E assim, no meio das mãos que oferecem e mãos que recebem, perpetua-se o espírito açoriano: vivo, generoso e eternamente ligado às suas raízes.
Insígnia Autônoma de Reconhecimento do Governos dos Açores
Segue o documento do Governo dos Açores
REGIÃO AUTÔNOMA DOS AÇORES** SECRETARIA REGIONAL DOS ASSUNTOS PARLAMENTARES E COMUNIDADES Direção Regional das Comunidades
EM LOUVOR DO PADRE MELLO
Há pessoas que fazem toda a diferença nos lugares por onde passam.
E poucas pessoas terão feito tanta diferença como o Padre Mello no Vale de Itabapoana.
Antônio Francisco de Mello nasceu a 27 de abril de 1863. no arquipélago dos Açores, na ilha de São Miguel, no conselho do Noroeste, na freguesia da Achada.
Era filho de Mariano Francisco de Mello e de Rosa Pimentel de Mello e foi batizado na sua terra natal a de 25 de meio de 1863.
Frequentou o Seminário de Angra, na ilha Terceira e foi ordenado sacerdote na capela do Paço Episcopal, em 24 de agosto de 19888, por D. Francisco de Lacerda, então bispo titular de Neápolis e futuro bispo da diocese açoriana.
Foi nomeado capelão do lugar da Ribeira Chã, no concelho da Lagoa, na Ilha de São Miguel, onde viveu a partir de 1890.
Poucos anos depois, seguindo o grande percurso emigratório dos Açores para o Brasil que remontava ao início do século XVII, chegou ao Rio de Janeiro a 4 de outubro de 1895 e a Bom Jesus do Itabapoana a 18 de junho de 1899, acompanhado da sua irmã Maria Júlia de Mello.
Foi vigário desta paróquia da Diocese de Campos por 48 anos, falecendo a 13 de agosto de 1947, com 84 anos de idade, exatamente há 77 anos e ironicamente, em plena Festa do Divino Espírito Santo, que tanto ajudou a inovar e a dinamizar.
O emblemático Hino da Alva Pomba, que trouxe para estas terras do Brasil no século XIX, ainda hoje é interpretado pela Lira Operária Bonjesuense ou pelo grupo musical Amigos da Arte, com devoção e carinho, em sentida homenagem ao histórico sacerdote açoriano.
O Padre Mello, também poeta, escritor e redator da imprensa local, deixou-nos um legado único, sem precedentes e sem paralelo, no Município de Bom Jesus e no Vale de Itabapoana, a nível religioso, educacional, administrativo, social e político.
Por isso, quando agora cumprimos a celebração anual da Festa de Agosto ou Festa da Coroa, agradecemos a sua vida e enaltecemos a sua obra.
Prestamos assim merecida homenagem à sua saudosa memória, em nome da Direção Regional das Comunidades do Governo dos Açores.
Mas à celebração deste ano acresce ainda um significado especial: A Casa dos Açores do Espírito Santo, inaugurada a 25 de julho de 2022, dedica ao Padre Mello a Insígnia Autonômica de Reconhecimento que a Região Autônoma dos Açores atribuiu ao seu presidente, Dr. Nino Moreira Seródio, em sessão solene comemorativa do Dia dos Açores e realizada na Ilha do Faial a 20 de maio de 2024.
Ficará esta insígnia açoriana junto ao túmulo do nosso comum sacerdote e à Coroa do Espírito Santo simbolizando e significando uma relação de cumplicidade entre o Arquipélago dos Açores, o Vale de Itabapoana, o Padre Mello e a Festa do Divino.
Como se assim ficássemos todos juntos para sempre.
Bem-haja, Padre Mello.
Descanse em paz!
Jose Andrade
Diretor Regional das Comunidades do Governo dos Açores.
Ponta Delgada, 13 de agosto de 2024.
Padre Mello e a família Seródio: unidos pela fé que atravessa gerações
Na imagem, o batizado de Maria Francisca Seródio, celebrado em 1937, na Igreja Matriz do Senhor Bom Jesus. Ali estão Moacir, Maria Seródio, Filinha (Amélia), com a pequena Nísia Seródio nos braços, Manoel Seródio, Alzira Seródio, Alice Seródio e o Padre Mello, todos reunidos sob a luz suave da fé e da ternura, como se o tempo, por um instante, tivesse aprendido a rezar com eles.
E assim, no meio de travessias e batismos, entre partidas e encontros, a família Seródio foi sendo escrita, como uma oração antiga, passada de geração em geração.
O coração sagrado da antiga Matriz
Esta fotografia é um portal de luz que nos transporta ao coração sagrado da antiga Matriz, onde o tempo parece ter estagnado em um suspiro de devoção.
No centro do altar, que se ergue como uma montanha de rendas, gessos e promessas, vislumbramos a figura do Padre Mello. Ele não é apenas um celebrante; é o pastor cercado por seu rebanho de anjos terrenos. Sua presença é o ponto de equilíbrio entre o divino, esculpido nas alturas do retábulo, e o humano, que transborda no primeiro plano.
A Sinfonia de Fé
O Altar-Catedral: O antigo altar do Senhor Bom Jesus apresenta-se como uma arquitetura celestial. É um emaranhado lírico de nichos, santos e adornos que parecem flutuar sob os arcos, criando uma moldura de glória para o rito que ali se desenrola.
A Alvura das Almas: Observe o contraste das vestes brancas das crianças, pequenos querubins de carne e osso que preenchem o presbitério. O branco não é apenas uma cor, é o brilho da inocência capturado pela lente, uma extensão das flores e das toalhas que ornamentam o sagrado.
O Olhar da Comunidade: Na parte inferior, uma multidão de rostos curiosos e piedosos volta-se para nós. São olhares profundos, marcados pela esperança e pelo pertencimento. Cada rosto é um verso de uma história maior, a história de um povo que encontrava naquela igreja o seu porto seguro e sua identidade.
"Nesta imagem, a poeira do tempo não apaga o fervor. Padre Mello ergue-se como o mastro de uma embarcação de fé, navegando em um mar de crianças e santos, sob o olhar atento do Senhor Bom Jesus."
A foto é um registro de uma era de comunhão absoluta. Há uma harmonia quase mística entre a grandiosidade barroca do altar e a simplicidade sincera dos fiéis. É, acima de tudo, um retrato do amor de uma cidade pelo seu padroeiro e pela liderança espiritual que guiava seus passos naquela Bom Jesus de outrora".
Padre Mello Entre Berços e Túmulos
(Octacilio de Aquino)
Padre Mello faleceu no dia 13 de agosto de 1947
"Foi ele o guia espiritual da nossa sociedade, influindo decisivamente na formação moral dos que aqui olharam pela primeira vez a luz do sol, ajudando-nos a enterrar os primeiros mortos queridos, no começo destes quase cinquenta anos que hoje se encerram, e ainda muito recentemente embalando, com as bênçãos da religião, através da pia batismal, os derradeiros berços, os berços da geração que era desponta.
E neste dia de amarguras para todos nós, são as promessasrisonhas destes berços e são as vozesimensas daqueles túmulos, as esperanças do presente e as sombras do passado, que se apresentam, juntando-se às vozes de todas as famílias, acompanhando conosco as homenagens de respeito, de admiração e de reconhecimento profundo ao vulto preclaro da nossa cristandade, que tanto fez por nossa terra e por nossa gente".
"Se da terra desapareceu um homem, surgiu no céu mais um santo: Santo Antonio Mello de Bom Jesus!"
Capela do Divino Espírito Santo, na Igreja Matriz do Senhor Bom Jesus, onde estão os restos mortais de Padre Mello
PADRE MELLO MORREU, MAS SUA LEMBRANÇA VIVE CONOSCO NA SAUDADE QUE DEIXOU
(Por Octacílio de Aquino, transcrito do jornal O Norte Fluminense de 24/08/1947)
Bom Jesus, na expressão de todas as suas camadas sociais, assistiu, compungida, nas primeiras horas da tarde do dia 13 do mês em curso, a agonia dos últimos instantes, desse vulto gigantesco que durante quase meio século, encheu das filigranas de ouro de sua inteligência fulgurante, a nossa literatura; desse titan, em cujo espírito arraigara-se com tanta gala os sublimes ensinamentos de Jesus, repartindo com seus amados paroquianos, as graças, que pela sua bondade, pelas suas supremas virtudes, alcançava dos céus.
A própria Natureza, antevendo o fim breve de quem como o Padre Mello fora em todo o decurso de sua vida, devotado à causa do bem, a própria Natureza, despiu a roupagem de luz com que o sol a vestira e deixou que, com lágrimas da chuva fria e triste, tivesse curso o seu pranto de água.
E veio o desenlace! E enquanto a alma boníssima daquele ancião ascendia às regiões célicas, a nossa gente ali estava para dar ao seu extremado pároco o seu último adeus.
Mas o Padre Mello não morreu! Se a sua matéria voltou ao pó de que foi feita, o seu espírito alando aos céus, demandou o seu verdadeiro lugar, por isso que, se da terra desapareceu um homem, surgiu no céu mais um santo: Santo Antonio Mello de Bom Jesus!
Feita por espanhóis na década de 50, portaentalhada é um dos GRANDES TESOUROS da Matriz de Bom Jesus
A porta da Igreja Matriz foi esculpida por artistas espanhóis na década de 1950 (entre 1950 e 1956), especialmente para a Igreja Matriz do Senhor Bom Jesus em Bom Jesus do Itabapoana (RJ).
Os autores da porta são os espanhóis Francisco Fernando Ciria, Armando Munhoz e Antonio Ruiz Lopes, por encomenda do também espanhol Monsenhor Ovídio Simon, que foi pároco da igreja de 1950 a 1956.
Essa porta é uma obra moderna do século XX feita no estilo tradicional barroco/neoclássico religioso, o que explica a excelente qualidade do entalhe mesmo sendo relativamente recente.
Os artistas espanhóis trouxeram a tradição ibérica de entalhe em madeira sacra (muito forte na Espanha e no sul da Europa) e a adaptaram ao contexto brasileiro. Por isso a porta tem:
Forte influência dos tetramorfos (os quatro símbolos dos Evangelistas: Anjo = Mateus, Águia = João, Leão = Marcos e Boi = Lucas), um tema clássico na arte cristã europeia.
Composição simétrica e hierárquica, típica da arte sacra que busca transmitir ordem, solenidade e mensagem teológica.
Detalhes muito bem executados nas penas das asas, nas crinas do leão, nas folhas da palmeira e nas expressões das figuras, prova da alta habilidade técnica dos escultores.
O fato de ter sido feita por imigrantes espanhóis na década de 1950 mostra um momento interessante da história local: a igreja trouxe artistas europeus para enriquecer o patrimônio artístico da Matriz, mantendo a tradição de portas ricamente entalhadas mesmo em pleno século XX.
Resumo da porta como patrimônio: é uma das peças mais importantes do interior da Igreja Matriz. Combina técnica europeia de alto nível com iconografia católica tradicional. Representa um belo exemplo de arte sacra contemporânea (meados do século XX) feita no estilo clássico.
O espanhol Monsenhor Ovídio Simon encomendou a porta da Igreja Matriz
Padre Francisco Apoliano e a Reforma Interior da Igreja Matriz do Senhor Bom Jesus
O interior da Igreja Matriz do Senhor Bom Jesus é obra do Monsenhor Francisco Apoliano a partir de 1963. Ele reflete um estilo eclético típico das igrejas brasileiras do final do século XIX e início do XX, combinando elementos neogóticos, neorromânicos e heranças barrocas/rococós na decoração.
O destaque principal do interior é o teto em caixotões (painéis retangulares emoldurados), ricamente decorado com pinturas que narram episódios do Novo Testamento.
As cenas mais destacadas incluem a Via Sacra (a Paixão de Cristo, com as 14 estações tradicionais) e a Transfiguração de Jesus (no altar ou em painéis próximos).
Essas pinturas seguem a tradição da arte sacra brasileira, onde o teto funciona como um "livro ilustrado" para os fiéis analfabetos ou semianalfabetos da época: ao olhar para cima, o devoto contempla a vida de Cristo de forma sequencial e contemplativa.
As molduras douradas ou ornamentadas criam profundidade e elevação, técnica ilusionista herdada do barroco que "traz o céu para dentro" da igreja. A luz natural das janelas altas realça as cores e dá vida às imagens.
Essa decoração reforça o caráter catequético e devocional da igreja.
São 27 vitrais no total, doados por famílias bonjesuenses, o que demonstra forte envolvimento comunitário.
Eles retratam diversas fases da vida de Cristo (Nascimento, Ministério, Paixão, Ressurreição etc.), filtrando a luz natural em cores vibrantes que "pintam" o interior.
Elementos como a rosácea (janela circular no fundo) e os vitrais laterais seguem a tradição gótica: a luz colorida simboliza a presença divina, a graça e a iluminação espiritual que entra na vida dos fiéis.
A nave única com arcos em série (ligeiramente ogivais ou alongados) cria ritmo e direciona o olhar para o altar e o teto, evocando o estilo neogótico e a ascensão espiritual.
Douramentos, molduras e pintura marmorizada nas paredes (técnica comum para simular pedra nobre) conferem opulência e solenidade sem excessos.
A igreja representa o ecletismo religioso brasileiro: base neoclássica com toques neogóticos (verticalidade, vitrais, rosácea) e pintura narrativa barroca no teto. Ela reflete a fé popular do interior fluminense, onde a arte sacra serve tanto para embelezar quanto para ensinar a doutrina cristã.
Hoje, é um cartão-postal da cidade e espaço de contemplação: "onde a arte, espiritualidade se encontram e dialogam". As pinturas e vitrais preservam a memória coletiva e convidam à oração e reflexão.
Monsenhor Francisco Apoliano reformou o interior da Igreja Matriz a partir de 1973
A Igreja Matriz do Senhor Bom Jesus: testemunho do tempo e da fé
Sob o céu tranquilo de Bom Jesus do Itabapoana, ergue-se a Igreja Matriz como memória viva do tempo. Inaugurada em 1880, pelas mãos e pela fé do padre Guedes Machado, ela nasceu simples e solene, como quem aprende a rezar junto ao povo. Décadas depois, em 1931, Padre Mello redesenhou suas formas, como quem renova promessas sem apagar a essência.
Na praça Governador Portela, onde o tempo passeia em passos lentos, a fachada erguida por Padre Mello permanece como um suspiro de beleza atravessando gerações. Suas linhas, tocadas pela história e pela fé, ainda hoje encantam os olhos e aquecem o espírito de quem por ali passa.
A fachada da Igreja Matriz do Senhor Bom Jesus, em Bom Jesus do Itabapoana (RJ), apresenta uma composição neoclássica com influências ecléticas típicas das matrizes brasileiras do final do século XIX e início do XX.
Destacam-se as duas torres laterais simétricas, de grande verticalidade, com relógio circular e coroadas por cúpulas e cruzes, que emolduram o volume central mais baixo e ornamentado.
O frontispício é marcado por um frontão triangular interrompido, encimado por uma cruz, com janelas em arco pleno e uma imponente porta central dourada, ladeada por colunas e elementos decorativos em alto-relevo que conferem ritmo e solenidade.
A fachada é revestida em tom claro (bege/rosado), criando contraste elegante com os detalhes em branco e o dourado da porta, transmitindo uma sensação de equilíbrio, grandiosidade e acolhimento.
No conjunto, a arquitetura reflete a devoção popular ao Bom Jesus e o papel central da igreja na identidade histórica da cidade.
O tempo, porém, também deixa suas marcas. Em 1973, já cansada pelos anos e pelo peso dos materiais antigos, a igreja pediu cuidado. E foi o padre Francisco Apoliano quem ouviu esse chamado. Antes de qualquer gesto, buscou o saber técnico do engenheiro Paulo Sérgio do Canto Cyrillo, como quem escuta antes de agir. E, mesmo diante das pressões para derrubar as torres, manteve-se firme: preservar era também respeitar a alma do povo.
Assim, em meio a reformas e resistências, a Igreja Matriz permanece não apenas como construção, mas como testemunho: de uma fé que atravessa gerações, de mãos que constroem, de vozes que insistem em manter de pé aquilo que o coração reconhece como sagrado.
Imponente e silenciosa, a fachada da Igreja Matriz do Senhor Bom Jesus ergue-se como testemunho do tempo e da fé. Obra imortalizada por Padre Mello, ela guarda em suas formas a alma açoriana que ajudou a moldar a história do município.
Mais que pedra e arquitetura, é memória viva, um símbolo que atravessa gerações, mantendo acesa a chama de um povo, de uma origem, de uma devoção que jamais se apaga.
VÍDEO: Um Mistério na Homenagem a Padre Mello
"Embora eu sinta que uma luz se apaga… outra me afaga com eternal fulgor". Versos que não apenas ecoam na memória, mas que parecem atravessar o tempo como um sopro de eternidade. Assim nasceu, no coração sensível do Pe. Mello, o poema “Morrer Sonhando”, mais tarde envolto em melodia no dia 27 de abril de 1967, pelas mãos inspiradas da professora Marisa Teixeira Valinho, tornando-se o hino eterno do Colégio Estadual Padre Mello.
E foi sob o céu carregado de emoção, na escadaria da Igreja Matriz, que esses versos voltaram a palpitar com vida. Na noite dedicada aos 155 anos de seu nascimento, em 2018, o Grupo Musical Amantes da Arte entoou, com devoção e reverência, a canção que carrega alma, história e fé, durante o tributo a Padre Mello, um encontro de raízes, saudade e homenagem. Na escadaria estavam os jovens do grupo de Danças do Centro Educacional Rosa de Souza Pereira, de Bom Jesus do Norte, ES, dirigido pela Madre Virgínia Alves Lima.
Mas o instante guardava ainda um mistério, desses que parecem escritos pela própria mão do invisível. No exato momento em que se cantava: “Embora eu sinta que umaluz se apaga”, a luz, de fato, se apagou na escadaria, vencida pela sobrecarga da energia. E então, como se o verso se fizesse carne, o mundo mergulhou por um breve instante na penumbra.
Foi nesse silêncio iluminado que outra luz se ergueu, suave, trêmula e profundamente simbólica. As velas, levadas em homenagem ao pároco açoriano, passaram a brilhar com intensidade quase sagrada, como se cada chama fosse uma oração viva, uma presença invisível, um elo entre o céu e a terra.
E ninguém se calou. Ao contrário, as vozes se elevaram ainda mais fortes, mais sentidas, mais unidas. A canção continuou, agora embalada pela luz das velas e pela certeza de que há claridades que não dependem da eletricidade, mas da fé que arde no íntimo de cada coração.
Assim, naquela noite, não foi apenas uma homenagem que se fez, foi um sinal. Um encontro entre palavra e acontecimento, entre poesia e realidade, onde a luz que se apagou revelou, paradoxalmente, a força eterna da luz que nunca se extingue.
Contemplem, com o coração aberto, como tudo se desenrolou naquele instante singular.
Padre Mello: uma chama viva que o tempo não apaga
Na imagem que o eterniza, Padre Mello escreve, caneta em punho, rodeado de livros, como quem conversa com o tempo. Ali está mais que um homem: está a essência de uma vida dedicada ao saber, à cultura e à elevação do espírito.
Filho de camponês, fez-se grande pela força do pensamento e pela luz do conhecimento. Tornou-se gênio, não por acaso, mas por vocação e entrega. E assim permanece: uma chama viva, que o tempo não apaga.
O homem e a memória: entre a fé e a eternidade
Padre Mello viveu com simplicidade extrema. Fez voto de pobreza e, nos últimos anos, residia em um pequeno quarto ao lado da igreja. Faleceu em 13 de agosto de 1947, aos 84 anos, justamente no início da Festa de Agosto, qual pediu que não fosse interrompida.
Sua morte foi sentida como perda coletiva. Para muitos, não desapareceu um homem, mas elevou-se um exemplo.
Sua vida foi marcada pela união entre palavra e ação. Sacerdote e poeta, fez da fé uma prática concreta e da poesia um instrumento de elevação espiritual.
Seu legado permanece vivo: na memória do povo, na cultura local, na literatura e na fé compartilhada
Padre Mello transformou sua existência em ponte, entre os Açores e o Brasil, entre o sagrado e o humano, entre a simplicidade e a grandeza.
E assim cumpriu o destino que ele próprio cantou:
“Morrer sonhando é despertar na glória; eis a vitória: morrerei assim.”
E viva! A cultura.
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