Para a prefeitura, o brilho dos outros não conta. Interessa apenas aquilo que pode lhe conferir mérito imediato, visibilidade rápida, votos contáveis
Como se a história só tivesse valor quando rende fotografia, voto ou palco.
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O que leva uma prefeitura a ignorar a própria história? Talvez seja o receio do que não controla. Talvez a incapacidade de reconhecer grandeza onde não há holofotes. Uma cidade não se mede apenas por obras visíveis, mas pelas narrativas que escolhe preservar.
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A prefeitura, essa grande mestra das prioridades seletivas, parece ter preferido aplicar o xeque-mate do esquecimento.
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A caneta oficial decide o que merece memória.
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Ignorar um aniversário como esse não é apenas um descuido administrativo, é uma escolha simbólica. É dizer, ainda que em silêncio, que há histórias que não importam.
Há cidades que celebram fogos; outras, silenciosamente, celebram esquecimentos. Em Bom Jesus do Norte, ao que parece, a memória oficial tem prazo de validade, e curiosamente vence quando completa 30 anos.
Três décadas não são acaso. São períodos com silêncio concentrados, relógios suspensos sobre tabuleiros, jovens aprendendo que estratégia vale mais que pressa. São vitórias discretas, derrotas elegantes e um tipo raro de orgulho: aquele que não faz barulho, mas atravessa fronteiras.
Em 1996, houve um lance eterno. O Clube de Xadrez, fundado em 30 de abril de 1996, nunca pediu desfile, banda ou palanque. Bastava um gesto simples: o reconhecimento de que ali, no meio de peças pretas e brancas, também se constrói a história da cidade.
Mas a prefeitura, essa grande mestra das prioridades seletivas, parece ter preferido aplicar o xeque-mate do esquecimento.
É curioso. O mesmo clube que leva o nome do município para além de suas ruas, que ecoa em competições e conversas pelo país, que já recebeu figuras cuja presença por si só legitima qualquer iniciativa cultural, torna-se invisível quando a caneta oficial decide o que merece memória. Como se a história só tivesse valor quando rende fotografia, voto ou palco.
Nesses trinta anos de existência do Clube de Xadrez de Bom Jesus do Norte, centenas de crianças e jovens puderam se desenvolver culturalmente, contribuindo para que a sociedade norte-bonjesuense se tornasse mais humana, mais sensível, mais consciente. Ainda assim, esse brilho parece passar despercebido pela prefeitura, que o ignora como se não fosse relevante.
Para ela, o brilho dos outros não conta. Interessa apenas aquilo que pode lhe conferir mérito imediato, visibilidade rápida, votos contáveis.
Ignorar um aniversário como esse não é apenas um descuido administrativo, é uma escolha simbólica. É dizer, ainda que em silêncio, que há histórias que não importam. Que tradição não soma pontos. Que a cultura paciente, construída lance a lance, não compete com a urgência das agendas imediatas. E então fica a pergunta, pairando como um rei acuado no centro do tabuleiro: o que leva uma prefeitura a ignorar a própria história?
Talvez seja o receio do que não controla. Talvez a incapacidade de reconhecer grandeza onde não há holofotes. Ou talvez seja algo mais simples, e mais triste: a falta de visão para entender que uma cidade não se mede apenas por obras visíveis, mas pelas narrativas que escolhe preservar.
Enquanto isso, o Clube segue. Porque quem joga xadrez aprende cedo que nem todo movimento do adversário faz sentido, mas, ainda assim, o jogo continua.
E, ironicamente, continua vencendo.
Vida longa ao Clube de Xadrez de Bom Jesus do Norte. Três décadas de xeque, mate e, acima de tudo, vida!

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