segunda-feira, 5 de outubro de 2026

A mulher que levava um inverno no coração



A neve caía sobre São Petersburgo, na Rússia, com a delicadeza de quem teme acordar uma lembrança. Nas calçadas, acumulava-se em silêncio; na rua molhada, encontrava as luzes dos lampiões e se desfazia em pequenos reflexos dourados.

Uma mulher caminhava sozinha.

O vestido escuro roçava a brancura do chão. Sob o chapéu, o rosto permanecia inclinado, como se ela procurasse entre as próprias pegadas alguma resposta que não encontrara em casa. Havia saído sem pressa, embora o frio aconselhasse o contrário.

Uma carruagem passou. Ouviram-se os cascos dos cavalos, o ranger das rodas, um ruído breve de vida atravessando a noite. Ela ergueu os olhos por um instante. Talvez esperasse reconhecer alguém atrás da janela; talvez fosse apenas o antigo costume de olhar.

Depois, a carruagem desapareceu, deixando os reflexos da rua a tremer.

Ao longe, as torres mal se distinguiam entre a névoa e a neve. A cidade parecia recolhida em si mesma. Atrás de alguma vidraça haveria uma chaleira aquecendo, uma conversa à mesa, mãos estendidas sobre o fogo. A mulher pensou nessas pequenas coisas. Eram elas que mais lhe faziam falta: a segunda xícara, uma voz perguntando pelo seu dia, o cuidado distraído de tirar um floco de neve de seu ombro.

Continuou andando.

Naquela rua, certa vez, dois passos haviam acompanhado os seus. Lembrava-se de ter sentido frio e de haver escondido a mão numa mão maior. Já não sabia o assunto da conversa. Guardava, porém, a impressão do calor, o riso que interrompera uma frase, a vontade de prolongar o caminho.

Agora, diante de um lampião, parou para ajustar a luva. Um floco pousou no tecido escuro e ficou ali por alguns segundos, inteiro, com sua forma minúscula e improvável. Ela o observou até que derretesse.

Foi então que sorriu, quase sem perceber.

A lembrança daquela mão ainda doía, mas naquela noite também lhe devolvia alguma ternura. Podia recordar o que havia sido bom sem pedir à rua que trouxesse de volta quem partira.

Quando retomou a caminhada, levantou um pouco o rosto. A neve tocou-lhe as faces. Mais adiante, uma janela iluminada desenhava um quadrado de luz sobre a calçada, e ela passou devagar por dentro dele.

Ao chegar à esquina, voltou-se uma última vez. As pegadas permaneciam visíveis, embora a neve já começasse a suavizar suas bordas.

Depois, seguiu em direção a casa. Havia uma chaleira, uma xícara e uma noite inteira à sua espera.

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