sábado, 3 de outubro de 2026

Carnaval no Fogo: a estreia do Cine Monte Líbano, vivida por Roberto e Ismélia Silveira

 

Carnaval no Fogo: o primeiro filme do Cine Monte Líbano e o início de uma história de amor com Bom Jesus


 Ismélia e Roberto Silveira assistiram juntos à exibição do primeiro filme do Cine Monte Líbano, por ocasião de sua inauguração


Existem luzes que continuam acesas dentro de uma cidade, mesmo depois que as portas se fecham e o silêncio ocupa as salas. A luz do Cine Monte Líbano permaneceu assim: guardada na memória de quem, diante de sua tela, aprendeu a rir, a se emocionar e a sonhar.

Em sua inauguração, em 14 de agosto de 1950, o primeiro filme exibido foi Carnaval no Fogo, com Anselmo Duarte, Eliana Macedo, Oscarito e Grande Otelo. Naquela primeira sessão, Bom Jesus do Itabapoana recebia o encanto daqueles artistas e começava a escrever sua própria história dentro do cinema.

Podemos imaginar a expectativa diante da tela, as conversas baixando de volume, os olhos atentos ao instante em que a projeção começaria. Depois, o riso encontrando caminho entre as poltronas, aproximando pessoas que talvez nem se conhecessem. Cada espectador levaria para casa alguma coisa daquela noite, uma cena, uma graça, uma emoção, e o desejo de voltar.

Entre as lembranças preciosas do Cine Monte Líbano está a de Ismélia Saad e Roberto Silveira, que ali assistiram juntos a Carnaval no Fogo. Ela, filha de Merhige Hanna Saad, o homem que construíra aquele espaço; ele, açordescendente, que também inscreveria seu nome na história de nossa terra e do estado do Rio de Janeiro, e se projetou para ocupar a presidência do país.

Essa imagem comove pela simplicidade: Ismélia e Roberto lado a lado, acompanhando o mesmo filme, compartilhando o mesmo instante. Hoje, ao recordá-los, sentimos quanto da vida permanece nos lugares por onde passamos. Uma sala de cinema pode guardar, por décadas, a delicadeza de uma presença, a alegria de um encontro, a memória de um amor.

Para Ismélia, aquele prédio tinha ainda uma dimensão íntima. Era uma realização de seu pai. Nas paredes do Monte Líbano, havia o trabalho de Merhige Hanna Saad, sua coragem e o sonho que oferecera à cidade. O nome de sua terra de origem encontrava morada em Bom Jesus, enquanto a tela abria janelas para tantos outros mundos.

O tempo passou. Vieram novas gerações, outros costumes, outras maneiras de assistir a filmes. Mas quem conheceu o Monte Líbano sabe que certas emoções pertencem também ao lugar: à entrada, à sala, à espera, à experiência de se comover junto com os outros.

Por isso, a aquisição do prédio Monte Líbano e de seu cinema pela UniFAMESC toca tão profundamente nossa memória. Por meio de seu visionário sócio-proprietário, Carlos Henrique Medeiros, abre-se a perspectiva de resgatar uma parte relevante da história e da cultura bonjesuenses.

Há uma beleza especial nesse encontro entre educação e memória. Os jovens que vierem a frequentar aquele espaço poderão conhecer o nome de Merhige, descobrir as histórias de Ismélia e Roberto e compreender por que tantas pessoas ainda pronunciam “Monte Líbano” com carinho. E poderão, sobretudo, acrescentar suas próprias lembranças às que já vivem ali.

É essa possibilidade que nos enche de esperança: ver o antigo cinema acolher novamente passos, vozes, encontros e aplausos. Ver seu passado tornar-se presença na vida da cidade.

Quando a luz voltar a atravessar aquela sala, muitos de nós sentiremos vontade de olhar ao redor, como quem procura alguém querido. Na memória, estarão Merhige Hanna Saad, Ismélia, Roberto Silveira e tantos bonjesuenses que fizeram daquele cinema uma parte de suas vidas.

E, diante da tela, haverá novos olhos.

Que eles possam brilhar como brilharam os olhos daquela primeira plateia. Que o sonho de Merhige encontre, no trabalho de Carlos Henrique Medeiros e da UniFAMESC, caminhos para continuar.

Bom Jesus ainda tem muitas histórias para viver no Monte Líbano.



Um comentário:

  1. Eu, se por ventura, conseguir lá assistir um filme lembrarei do meu pai (Francisco Gomes de Mello - Chico mecânico) que um dia operou aqueles projetores.

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