Carnaval no Fogo: o primeiro filme do Cine Monte Líbano e o início de uma história de amor com Bom Jesus
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| Ismélia e Roberto Silveira assistiram juntos à exibição do primeiro filme do Cine Monte Líbano, por ocasião de sua inauguração |
Existem luzes que continuam acesas dentro de uma cidade, mesmo depois que as portas se fecham e o silêncio ocupa as salas. A luz do Cine Monte Líbano permaneceu assim: guardada na memória de quem, diante de sua tela, aprendeu a rir, a se emocionar e a sonhar.
Em sua inauguração, em 14 de agosto de 1950, o primeiro filme exibido foi Carnaval no Fogo, com Anselmo Duarte, Eliana Macedo, Oscarito e Grande Otelo. Naquela primeira sessão, Bom Jesus do Itabapoana recebia o encanto daqueles artistas e começava a escrever sua própria história dentro do cinema.
Podemos imaginar a expectativa diante da tela, as conversas baixando de volume, os olhos atentos ao instante em que a projeção começaria. Depois, o riso encontrando caminho entre as poltronas, aproximando pessoas que talvez nem se conhecessem. Cada espectador levaria para casa alguma coisa daquela noite, uma cena, uma graça, uma emoção, e o desejo de voltar.
Entre as lembranças preciosas do Cine Monte Líbano está a de Ismélia Saad e Roberto Silveira, que ali assistiram juntos a Carnaval no Fogo. Ela, filha de Merhige Hanna Saad, o homem que construíra aquele espaço; ele, açordescendente, que também inscreveria seu nome na história de nossa terra e do estado do Rio de Janeiro, e se projetou para ocupar a presidência do país.
Essa imagem comove pela simplicidade: Ismélia e Roberto lado a lado, acompanhando o mesmo filme, compartilhando o mesmo instante. Hoje, ao recordá-los, sentimos quanto da vida permanece nos lugares por onde passamos. Uma sala de cinema pode guardar, por décadas, a delicadeza de uma presença, a alegria de um encontro, a memória de um amor.
Para Ismélia, aquele prédio tinha ainda uma dimensão íntima. Era uma realização de seu pai. Nas paredes do Monte Líbano, havia o trabalho de Merhige Hanna Saad, sua coragem e o sonho que oferecera à cidade. O nome de sua terra de origem encontrava morada em Bom Jesus, enquanto a tela abria janelas para tantos outros mundos.
O tempo passou. Vieram novas gerações, outros costumes, outras maneiras de assistir a filmes. Mas quem conheceu o Monte Líbano sabe que certas emoções pertencem também ao lugar: à entrada, à sala, à espera, à experiência de se comover junto com os outros.
Por isso, a aquisição do prédio Monte Líbano e de seu cinema pela UniFAMESC toca tão profundamente nossa memória. Por meio de seu visionário sócio-proprietário, Carlos Henrique Medeiros, abre-se a perspectiva de resgatar uma parte relevante da história e da cultura bonjesuenses.
Há uma beleza especial nesse encontro entre educação e memória. Os jovens que vierem a frequentar aquele espaço poderão conhecer o nome de Merhige, descobrir as histórias de Ismélia e Roberto e compreender por que tantas pessoas ainda pronunciam “Monte Líbano” com carinho. E poderão, sobretudo, acrescentar suas próprias lembranças às que já vivem ali.
É essa possibilidade que nos enche de esperança: ver o antigo cinema acolher novamente passos, vozes, encontros e aplausos. Ver seu passado tornar-se presença na vida da cidade.
Quando a luz voltar a atravessar aquela sala, muitos de nós sentiremos vontade de olhar ao redor, como quem procura alguém querido. Na memória, estarão Merhige Hanna Saad, Ismélia, Roberto Silveira e tantos bonjesuenses que fizeram daquele cinema uma parte de suas vidas.
E, diante da tela, haverá novos olhos.
Que eles possam brilhar como brilharam os olhos daquela primeira plateia. Que o sonho de Merhige encontre, no trabalho de Carlos Henrique Medeiros e da UniFAMESC, caminhos para continuar.
Bom Jesus ainda tem muitas histórias para viver no Monte Líbano.


Eu, se por ventura, conseguir lá assistir um filme lembrarei do meu pai (Francisco Gomes de Mello - Chico mecânico) que um dia operou aqueles projetores.
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