segunda-feira, 2 de novembro de 2026

Meu primeiro banho de afeto

 

Por Gino Martins Borges Bastos 


Meu saudoso avô materno, Francisco Moraes Borges, o querido "seu" Chiquinho 

Existem histórias que chegam à nossa vida antes que possamos guardar qualquer lembrança. Ficamos sabendo delas pela voz de quem nos amou primeiro. Repetidas entre risos, acabam encontrando um lugar na memória, como se também estivéssemos presentes, atentos, naquele instante em que mal havíamos aberto os olhos para o mundo.

Meus avós maternos, Chiquinho e Niniu, e minha tia Ercília sempre me contavam uma dessas histórias. Bastava começarem para que o tom jocoso anunciasse: lá vinha, outra vez, a narrativa da minha estreia pouco cerimoniosa na família.

Segundo eles, assim que nasci, vovô Chiquinho se aproximou para me conhecer. Imagino aquele rosto inclinado sobre mim, a ternura nos olhos, a alegria de encontrar no neto uma nova razão para sorrir. Depois de dizer que eu seria uma gracinha, recebeu uma resposta que certamente não esperava: eu teria desferido uma urinada em seu rosto.

Era muito cedo para agradecer ao elogio com palavras. Mas, pelo visto, já me sobrava disposição para surpreender.

Vovô foi conhecer uma gracinha e acabou conhecendo também os riscos de se aproximar demais dela. Sem pedir licença, inaugurei nossa convivência com um banho que nenhum manual de avô poderia ter previsto.

Não me lembro, naturalmente, do acontecimento. Lembro-me de ouvi-lo. E essa é a parte que hoje mais me enternece: a maneira como Chiquinho, Niniu e tia Ercília mantinham viva aquela pequena travessura involuntária. Na repetição, o episódio ganhava a graça de uma história muito nossa, dessas que a família conta porque gosta de rir junto.

Talvez eles nunca tenham imaginado quanto carinho caberia nessa lembrança. Enquanto me provocavam com a história do bebê sem modos, entregavam-me também uma imagem preciosa: meu avô debruçado sobre mim, acolhendo minha chegada, dizendo que eu seria uma gracinha.

O tempo passou, mas ainda posso escutar o riso que acompanhava o relato. A cada vez que o contavam, eu voltava a ser aquele recém-nascido, e vovô Chiquinho tornava a se aproximar, confiante, sem desconfiar do que vinha pela frente.

Hoje, guardo a história com ternura e uma ponta de orgulho bem-humorado. Antes de aprender a falar, já havia dado à família alguma coisa para contar.

E, se minha primeira resposta ao amor de meu avô foi um tanto molhada, a resposta que agora lhe ofereço vem pelos olhos: um sorriso de saudade, às vezes acompanhado de uma lágrima.

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