O filósofo Byung-Chul Han é categórico: sem as mãos, não há pensamento que se sustente, nem felicidade que se concretize. Em um mundo sitiado por telas e pela ditadura da performance, onde o "eu" se esgota na tentativa de ser infinito, o trabalho manual surge não como um passatempo, mas como uma trincheira.
É nesse território de resistência que encontramos o Mestre Artesão Daniel de Lima. Enquanto o mundo lá fora corre em direção ao digital, Daniel faz o caminho inverso, em direção ao chão. Ele não apenas "manipula objetos"; ele habita o mundo, como sugeria Heidegger, através do fazer.
A Inteligência que Brota da Terra
Para Daniel, o barro não é uma matéria inerte, mas um interlocutor. Há uma inteligência que não nasce no córtex cerebral, mas na ponta dos dedos. Pesquisadores confirmam o que o artesão já sabe pelo silêncio de sua oficina: o movimento das mãos amplia a compreensão da vida. Ao moldar a argila, Daniel não está apenas criando uma peça; ele está organizando o próprio raciocínio abstrato, transformando o "bruto" da existência em algo palpável e profundo.
O trabalho com o barro exige o que Han chama de "estado de fluxo". É uma entrega absoluta onde o tempo para de ser um carrasco para se tornar um aliado. Quando Daniel toca a massa úmida, os níveis de cortisol dão lugar à serenidade. A ansiedade da produção desenfreada é substituída pelo ritmo orgânico da criação.
O Elogio da "Preguiça" Criativa
Tal como Han, que confessa escrever apenas três frases por dia entre uma nota de piano e o cuidado com o jardim, o Mestre Daniel de Lima compreende a beleza do não-forçado. Em sua oficina, a peça "se recebe", não se impõe. É um confronto direto com a "sociedade do desempenho": Daniel não se otimiza até a exaustão; ele se cura através da matéria.
Ficar em casa, diante do torno ou da mesa de modelagem, é a sua forma mais lúcida de liberdade. Ali, o contato com a realidade não é mediado por algoritmos, mas pelo corpo. O suor, o cheiro da terra molhada e a resistência da argila são os lembretes de que ele está vivo.
O Veredito da Matéria
Em Casimiro de Abreu, Rio das Ostras, ou em qualquer lugar onde a arte resista, Daniel de Lima nos ensina que a felicidade tem textura. É áspera no início, fria ao toque, mas ganha o calor da vida conforme é trabalhada.
Se a nossa civilização padece de uma "exaustão da alma", o remédio de Daniel é simples e ancestral: colocar as mãos na terra. Porque, no final das contas, pensar, agir e ser feliz são verbos que só se conjugam plenamente quando as pontas dos nossos dedos encontram a realidade. No barro de Daniel, a humanidade volta para casa.

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