Há casas que não foram feitas para serem habitadas, mas admiradas à distância, como templos erguidos para um deus sem nome. Casas-caixote, de fachadas imensas e silenciosas, onde a monumentalidade substitui a intimidade como se o tamanho pudesse preencher alguma ausência mais funda. O porcelanato brilhando como mármore de palácio, os pés-direitos que parecem querer alcançar o céu, as portas gigantescas que se abrem para quase ninguém, tudo nelas sugere grandeza, mas raramente calor.
Ao entrar, o corpo estranha antes mesmo que a consciência compreenda. Há um vazio excessivo entre as paredes, um eco que não pertence à vida doméstica. O ser humano, animal ancestral de cavernas e fogueiras, ainda carrega dentro de si a memória de espaços protetores, proporcionais ao próprio corpo, lugares onde o olhar alcança os cantos sem medo. Nessas salas monumentais, porém, o olhar se perde. A escala humana desaparece. O morador se torna pequeno dentro da própria existência.
Talvez por isso as salas permaneçam intactas, imóveis como cenários de revista de arquitetura. Sofás impecáveis que não conhecem o peso de um cochilo de domingo, mesas de jantar que nunca ouviram conversas longas atravessando a madrugada. São espaços de representação, não de permanência. Lugares feitos para serem vistos, fotografados, exibidos, mas não verdadeiramente vividos.
A vida real, discretamente, foge para outros cômodos. Ela se esconde nos escritórios apertados, nas cozinhas quentes de cheiro de café, nas salas de televisão onde o teto finalmente desce até uma altura humana e o silêncio deixa de parecer ameaçador. É nesses lugares menores que a casa volta a respirar. Onde alguém se enrosca no sofá, esquece a hora, sente-se protegido do mundo. Onde o lar ainda sobrevive.
Do lado de fora, os condomínios se espalham como pequenas fortalezas isoladas, inteiramente dependentes do automóvel. As portas gigantes, pensadas para impressionar visitas, permanecem quase sempre fechadas. Os moradores entram pela garagem, pela porta de serviço, pelo acesso lateral. A entrada principal torna-se um rito sem função, uma espécie de prólogo solene para uma peça que nunca começa.
E talvez exista nisso tudo uma tristeza difícil de nomear: a substituição do aconchego pela estética da imponência. Como se a arquitetura contemporânea tivesse desaprendido que morar é, antes de tudo, sentir-se abrigado. Não admirado, não diminuído, não intimidado, apenas acolhido.
Uma casa não deveria nos fazer sentir pequenos. O mundo já faz isso o bastante.

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