segunda-feira, 18 de maio de 2026

Varre-Sai em versos: a emocionante celebração dos 100 anos da imigração italiana

A historiadora, escritora e professora Isabel Menezes preservou com sensibilidade a composição lírica que eternizou o centenário da imigração italiana, transformando lembranças em poesia e história em sentimento


No meio de passos, música e tradição, o Bailado Italiano encantou a Festa das Famílias Italianas de 2015, celebrando em Varre-Sai a alegria, a memória e as raízes de um povo que transformou saudade em herança cultural. Registro do arquivo de O Norte Fluminense

Há papéis que envelhecem. Outros atravessam o tempo como relíquias de afeto. Assim aconteceu com a poesia de Fiorello Zambrotti, escrita em dezembro de 1997, quando Varre-Sai vestiu-se de memória para celebrar o centenário da imigração italiana e realizar a sua primeira Festa das Famílias Italianas, idealizada pelo então prefeito Dr. Silvestre José Gorini.

Naquela ocasião, no meio de bandeiras, sobrenomes herdados, café passado na hora e vozes carregadas de sotaques antigos, a pequena cidade serrana parecia ouvir novamente os passos dos imigrantes chegando entre montanhas e neblinas. Era mais do que uma festa: era um reencontro entre gerações separadas pelo oceano, mas unidas pela permanência das raízes.

Fiorello Zambrotti, homem respeitado de Natividade e antigo proprietário do cartório, traduziu em versos aquilo que muitos sentiam e não conseguiam dizer. Sua poesia falava das despedidas doloridas da Itália, das lágrimas derramadas sobre o Atlântico, da esperança que floresceu em terras brasileiras e da bravura de um povo que transformou cafezais em destino.

O poema foi entregue “em mãos da prestimosa amiga Elza Gorini”, irmã do Dr. Silvestre. E como certas preciosidades parecem escolher cuidadosamente seus guardiões, Dona Elza presenteou Isabel Menezes com o original.

Isabel compreendeu imediatamente que não segurava apenas uma folha escrita, mas um fragmento vivo da memória coletiva de Varre-Sai. Publicou-o no jornal Tribuna do Noroeste, preservando-o das gavetas do esquecimento, e mais tarde encaminhou-o para o arquivo do Casarão Cultural, onde a história repousa para continuar respirando através das futuras gerações.

Há uma beleza silenciosa nesse gesto.

Enquanto o tempo insiste em apagar nomes, fotografias e vozes, existem pessoas que escolhem salvar delicadezas. Isabel fez isso com a poesia de Fiorello. Salvou não apenas palavras, mas o sentimento de um povo inteiro. Salvou a emoção de quem deixou a pátria levando apenas saudade, fé e coragem. Salvou a alma italiana de Varre-Sai.

E talvez seja exatamente essa a missão invisível da poesia: impedir que a memória morra.


Itália  *  Brasil  *  Varre-Sai


Rompe-se os horizontes:

Outros mares...Novas terras...

Adeus pátria querida...

Adeus...  Adeus...

Saudades que ficaram

Saudades que trazem;

Lágrimas que rolam dorentes, sentidas ...

Brasil e Itália se entrelaçam.


Varre-Sai – encanto escondido

Entre montanhas e florestas,

Surge na História;

Recebeu com carinho

Há 100 anos passados

A colônia italiana.


Este povo de luta;

Que trabalha,que progride,

Que enobrece,

Que fala alto, que gesticula

Com o acompanhamento das palavras.

Até parece estar zangado,

Mas nada!

Tem um grande coração

Que sabe perdoar.


Varre-Sai – terra escolhida

Por este povo de escol

Está em festa!

Com os 100 anos de sua chegada!


Terra por Deus abençoada:

Cafezais em flores e  aroma perfumado;

Saudades que ficaram...

Lágrimas que rolaram...

Vamos considerá-las no passado.

Varre- Sai está em festa!

Fiorello Zambrotti (Natividade, 07 de dezembro de 1997)

(Do livro de poesias Attività, de Isabel Menezes, pág: 13)

Sob a luz do tempo e da memória, o prédio repousa como guardião silencioso das histórias vividas em Varre-Sai. Em suas paredes parecem ecoar vozes, encontros e lembranças de um povo que construiu raízes no meio de montanhas e esperança. Foto de 2015, do arquivo de O Norte Fluminense 



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