A historiadora, escritora e professora Isabel Menezes preservou com sensibilidade a composição lírica que eternizou o centenário da imigração italiana, transformando lembranças em poesia e história em sentimento
Naquela ocasião, no meio de bandeiras, sobrenomes herdados, café passado na hora e vozes carregadas de sotaques antigos, a pequena cidade serrana parecia ouvir novamente os passos dos imigrantes chegando entre montanhas e neblinas. Era mais do que uma festa: era um reencontro entre gerações separadas pelo oceano, mas unidas pela permanência das raízes.
Fiorello Zambrotti, homem respeitado de Natividade e antigo proprietário do cartório, traduziu em versos aquilo que muitos sentiam e não conseguiam dizer. Sua poesia falava das despedidas doloridas da Itália, das lágrimas derramadas sobre o Atlântico, da esperança que floresceu em terras brasileiras e da bravura de um povo que transformou cafezais em destino.
O poema foi entregue “em mãos da prestimosa amiga Elza Gorini”, irmã do Dr. Silvestre. E como certas preciosidades parecem escolher cuidadosamente seus guardiões, Dona Elza presenteou Isabel Menezes com o original.
Isabel compreendeu imediatamente que não segurava apenas uma folha escrita, mas um fragmento vivo da memória coletiva de Varre-Sai. Publicou-o no jornal Tribuna do Noroeste, preservando-o das gavetas do esquecimento, e mais tarde encaminhou-o para o arquivo do Casarão Cultural, onde a história repousa para continuar respirando através das futuras gerações.
Há uma beleza silenciosa nesse gesto.
Enquanto o tempo insiste em apagar nomes, fotografias e vozes, existem pessoas que escolhem salvar delicadezas. Isabel fez isso com a poesia de Fiorello. Salvou não apenas palavras, mas o sentimento de um povo inteiro. Salvou a emoção de quem deixou a pátria levando apenas saudade, fé e coragem. Salvou a alma italiana de Varre-Sai.
E talvez seja exatamente essa a missão invisível da poesia: impedir que a memória morra.
Itália * Brasil * Varre-Sai
Rompe-se os horizontes:
Outros mares...Novas terras...
Adeus pátria querida...
Adeus... Adeus...
Saudades que ficaram
Saudades que trazem;
Lágrimas que rolam dorentes, sentidas ...
Brasil e Itália se entrelaçam.
Varre-Sai – encanto escondido
Entre montanhas e florestas,
Surge na História;
Recebeu com carinho
Há 100 anos passados
A colônia italiana.
Este povo de luta;
Que trabalha,que progride,
Que enobrece,
Que fala alto, que gesticula
Com o acompanhamento das palavras.
Até parece estar zangado,
Mas nada!
Tem um grande coração
Que sabe perdoar.
Varre-Sai – terra escolhida
Por este povo de escol
Está em festa!
Com os 100 anos de sua chegada!
Terra por Deus abençoada:
Cafezais em flores e aroma perfumado;
Saudades que ficaram...
Lágrimas que rolaram...
Vamos considerá-las no passado.
Varre- Sai está em festa!
Fiorello Zambrotti (Natividade, 07 de dezembro de 1997)
(Do livro de poesias Attività, de Isabel Menezes, pág: 13)


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