Existe uma sabedoria mansa que nos espreita nos versos e nos cantos de calçada, longe do ruído estridente do mundo. Quando Fernando Pessoa nos convida a seguir o nosso destino, a regar as nossas próprias plantas e a amar as nossas rosas, ele não propõe a indiferença fria, mas um resgate da própria alma. O resto, ah, o resto, é apenas a sombra passageira de árvores alheias.
No cotidiano apressado, quantas vezes nos perdemos a ciscar a terra do vizinho, a medir o passo alheio e a esquecer que o nosso próprio jardim pede poda, carinho e rega? Cuidar da vida própria é um ato de coragem poética. É olhar para os próprios defeitos com a indulgência de quem compreende que a existência é um canteiro em permanente lapidação.
Limpar os olhos de toda poeira antes de apontar o cisco no olhar do outro é o grande desafio dos dias. Que possamos, pois, voltar para dentro. Regar o que é nosso, cultivar as nossas flores de afeto e deixar que a sombra das árvores dos outros sirva apenas para nos dar descanso, e nunca distração.

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