terça-feira, 1 de setembro de 2026

O gigante desperta: de Merhige Hanna Saad à FAMESC, a memória do Líbano atravessa gerações e renasce em Bom Jesus

 

Do silêncio aos aplausos: FAMESC prepara o renascimento do Cine Monte Líbano


Aí está uma das imagens mais bonitas dessa nova fase: uma instituição dedicada essencialmente à educação devolvendo vida a um antigo templo da cultura



O prédio do Monte Líbano é um dos edifícios que pertencem à memória do povo bonjesuense.

Segundo informações chegadas ao Jornal O Norte Fluminense, no próximo dia 5 de setembro, o Choppin, que há anos funciona na parte frontal do prédio do Monte Líbano, encerrará suas atividades naquele local. A desocupação antecede a entrega das instalações à UniFAMESC, que adquiriu o histórico imóvel e deverá tomar posse em outubro.

Fecha-se uma porta cotidiana. Abre-se, porém, uma enorme janela para a história.

A vida das cidades também é feita dessas aparentes contradições. Acostumamo-nos, muitas vezes, a lamentar aquilo que termina, como se todo ponto final significasse necessariamente uma perda. Mas existem despedidas que preparam reencontros. Existem silêncios que antecedem novas músicas. E existem prédios adormecidos que esperam décadas até que alguém compreenda que suas paredes ainda têm muito a dizer.

Foi assim com o Monte Líbano.

A chegada da FAMESC a Bom Jesus do Itabapoana já havia inaugurado uma nova etapa na história do município, produzindo reflexos educacionais, econômicos e sociais. Agora, sua presença alcança também outra dimensão: a preservação da memória e o desenvolvimento cultural.

O prefeito Paulo Sérgio Cyrillo anunciou, durante a abertura da Exposição da CAVIL de 2026, a perspectiva de recuperação do antigo cinema, construído pelo libanês Merhige Hanna Saad. A UniFAMESC adquiriu o imóvel com a proposta de transformar aquele espaço em um grande centro cultural.

E aqui está a beleza maior dessa notícia.

Não se trata simplesmente de adquirir paredes, palco, teto e cadeiras. Adquirir o Monte Líbano significa assumir a guarda de uma parte da alma bonjesuense.

O Cine Monte Líbano foi inaugurado em 14 de agosto de 1950. Com capacidade para cerca de mil pessoas, sua construção representou um marco arquitetônico para Bom Jesus do Itabapoana. À época, estimou-se um investimento de três milhões de cruzeiros. Era uma obra de extraordinária imponência para uma cidade do interior, comparável, em sua qualidade, aos grandes espaços culturais dos centros urbanos.

Por seu palco passaram importantes nomes do teatro e da música brasileira. Por sua plateia passaram gerações de bonjesuenses.

Ali houve filmes, espetáculos, encontros, namoros, aplausos e sonhos.

Mas havia algo ainda maior por trás daquele edifício: a presença libanesa na construção de Bom Jesus do Itabapoana.

Merhige Hanna Saad não ergueu apenas um cinema. Ao levantar o Monte Líbano, inscreveu na paisagem urbana uma página da imigração libanesa e de sua contribuição para o desenvolvimento econômico, social e cultural do município.

O próprio nome escolhido para o edifício parece ter atravessado o tempo como uma declaração de pertencimento. Monte Líbano. Era como se, no coração do Vale do Itabapoana, uma montanha distante do Oriente tivesse encontrado outra pátria sem esquecer a primeira.

E essa é uma das mais belas características da imigração: o imigrante não precisa apagar a terra de onde veio para amar profundamente a terra que o recebeu. Ao contrário. Muitas vezes, ele oferece à nova pátria justamente aquilo que trouxe guardado na memória.

O cinema fechou suas portas em 1989.

Desde então, transcorreram 37 anos.

Em 2002, foi protocolado junto à Secretaria de Estado de Cultura o pedido de tombamento do Cine Monte Líbano e, em 19 de novembro daquele ano, foi publicado no Diário Oficial do Estado do Rio de Janeiro seu tombamento provisório pelo INEPAC- Instituto Estadual do Patrimônio Cultural.

Durante décadas, portanto, o velho cinema permaneceu como uma espécie de gigante silencioso no centro da cidade.

Quem passava diante dele talvez enxergasse apenas um prédio.

A memória, porém, enxergava muito mais.

Enxergava Merhige Hanna Saad.

Enxergava os imigrantes libaneses que chegaram trazendo sotaques, costumes, coragem, trabalho e esperança.

Enxergava comerciantes, famílias, descendentes e tantas trajetórias que se misturaram definitivamente à formação do povo bonjesuense.

Por isso, a retomada do Monte Líbano pela FAMESC possui um significado que ultrapassa a restauração física do imóvel.

É um gesto de reconciliação entre o desenvolvimento e a memória.

Durante muito tempo, criou-se a falsa ideia de que progredir significava substituir o antigo pelo novo. Como se modernidade fosse sinônimo de demolição da lembrança.

Não é.

Uma cidade verdadeiramente moderna não destrói suas raízes para crescer. Cresce justamente porque sabe onde estão suas raízes.

E é motivo de regozijo perceber que o desenvolvimento econômico e educacional trazido pela FAMESC poderá agora caminhar ao lado do desenvolvimento histórico e cultural.

Aí está uma das imagens mais bonitas dessa nova fase: uma instituição dedicada essencialmente à educação devolvendo vida a um antigo templo da cultura.

Onde antes a luz do projetor atravessava a escuridão para iluminar uma tela, poderão novamente acender-se as luzes do conhecimento, da música, do teatro, da literatura, das artes e da convivência.

E quem sabe, quando as portas do Monte Líbano se abrirem novamente para a população, o velho Merhige Hanna Saad esteja simbolicamente presente.

Não em bronze.

Não em fotografia.

Mas naquilo que é mais poderoso do que qualquer monumento: na continuidade de sua obra.

A FAMESC não estará apenas inaugurando um centro cultural.

Estará ajudando Bom Jesus do Itabapoana a reencontrar uma parte de si mesmo.

Depois de 37 anos de silêncio, o Monte Líbano poderá voltar a ouvir vozes, música e aplausos.

E, entre esses aplausos, haverá um que atravessa gerações.

Será o aplauso de Bom Jesus à FAMESC.

E outro, igualmente necessário, dirigido aos libaneses que ajudaram a construir nossa cidade.

Povos que sabem honrar aqueles que vieram antes não vivem apenas de passado.

Constroem o futuro sem perder a memória.



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