quarta-feira, 2 de setembro de 2026

O RIO AINDA SABE AMAR

 


Da sacada do meu quarto,

entre um café e uma página,

parei para contemplar

o meu rio.


O Muriaé...


Tão ferido pelo tempo

tão marcado pelas perdas

tantas vezes maltratado,

mas ainda assim

vestindo de beleza

a minha aldeia.


Do outro lado

árvores dançam ao vento

flores bordam a paisagem

e os pássaros?

sem conhecer tristeza

entoam sua canção.


E o rio segue...


Então, de repente,

alguns patos chegam

saltitam sobre as águas,

brincam, mergulham

como se a vida

fosse sempre festa.


Eis que surge um barco. 

Devagar...


Um homem conduzindo

e, na proa, dois corações

esquecidos do mundo.


Abraçados, felizes, 

Apaixonados.


O barco passa

e leva consigo

um instante de ternura

enquanto o rio,

silenciosamente,

parece abençoar

aquele amor.


E eu fico ali,

com o livro esquecido

sobre o colo

e o café perdendo o calor


pensando que talvez

seja isso a esperança:


mesmo depois das feridas

ainda encontrar beleza

mesmo depois das perdas

ainda deixar florescer

a vida.


E, mesmo diante de um rio

tantas vezes maltratado,

descobrir que ele ainda sabe

refletir o amor.


E hoje,

da sacada do meu quarto 

o Rio Muriaé me ensinou:


quem ainda consegue encantar

não morreu por dentro.


Maria Beatriz Silva 


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