Da sacada do meu quarto,
entre um café e uma página,
parei para contemplar
o meu rio.
O Muriaé...
Tão ferido pelo tempo
tão marcado pelas perdas
tantas vezes maltratado,
mas ainda assim
vestindo de beleza
a minha aldeia.
Do outro lado
árvores dançam ao vento
flores bordam a paisagem
e os pássaros?
sem conhecer tristeza
entoam sua canção.
E o rio segue...
Então, de repente,
alguns patos chegam
saltitam sobre as águas,
brincam, mergulham
como se a vida
fosse sempre festa.
Eis que surge um barco.
Devagar...
Um homem conduzindo
e, na proa, dois corações
esquecidos do mundo.
Abraçados, felizes,
Apaixonados.
O barco passa
e leva consigo
um instante de ternura
enquanto o rio,
silenciosamente,
parece abençoar
aquele amor.
E eu fico ali,
com o livro esquecido
sobre o colo
e o café perdendo o calor
pensando que talvez
seja isso a esperança:
mesmo depois das feridas
ainda encontrar beleza
mesmo depois das perdas
ainda deixar florescer
a vida.
E, mesmo diante de um rio
tantas vezes maltratado,
descobrir que ele ainda sabe
refletir o amor.
E hoje,
da sacada do meu quarto
o Rio Muriaé me ensinou:
quem ainda consegue encantar
não morreu por dentro.
Maria Beatriz Silva

Nenhum comentário:
Postar um comentário