quarta-feira, 2 de setembro de 2026

Colégio Estadual Padre Mello: Onde Meus Livros de Xadrez Começarão uma Nova História


 Por Gino Martins Borges Bastos


 Há momentos em que preservar o passado significa justamente ter coragem de entregá-lo ao futuro


Os livros mudam de mãos, mas não de sonho



Em algum  momento na vida, compreendemos que certos livros já não nos pertencem inteiramente. Foram nossos durante anos, guardaram nossas horas, receberam nossos olhos atentos, atravessaram conosco juventudes, entusiasmos, vitórias e derrotas. Até que chega o dia em que percebemos: eles precisam continuar a viagem.

Durante muitos anos, tive a alegria de intermediar o recebimento de doações de livros e bibliotecas destinadas ao Espaço Cultural Luciano Bastos. Vi acervos inteiros mudarem de endereço e, ao mesmo tempo, permanecerem vivos. Sempre admirei aqueles que, depois de uma vida cercados por seus livros, encontravam generosidade suficiente para entregá-los às mãos de outros leitores.

Agora chegou a minha vez.

E confesso: é diferente quando somos nós que precisamos abrir as estantes da própria memória.

Não são quaisquer livros. São meus livros de xadrez. Livros, revistas, jornais, encadernações que atravessaram décadas comigo e que agora serão destinados ao Colégio Estadual Padre Mello, onde encontrarão uma nova casa, e, sobretudo, novos olhos.

Sob a condução da diretora Nathyara Teixeira dos Santos e da diretora adjunta Renata Pacheco Francisco, com a atuação do coordenador pedagógico Dr. Marcos Cândido Mendonça e o dedicado trabalho do professor Fábio Sousa Vargas, o educandário vem compreendendo uma verdade essencial: nenhuma grande construção começa pelo alto.

Toda pirâmide necessita de uma base.

E, na construção de uma sociedade capaz de pensar, sonhar e transformar, essa base chama-se escola.

Minha história com o xadrez também começou quase por acaso, como tantas histórias importantes começam. Meu pai presenteou minha irmã Francia, em um Natal, com o famoso jogo Xadrez do Mequinho. Naquele tempo, Henrique Mecking era um dos grandes ídolos brasileiros. Um gênio dos tabuleiros que alcançaria o terceiro lugar no ranking mundial, feito extraordinário para o xadrez brasileiro.

Aquele presente era para minha irmã.

Mas, de algum modo misterioso, também acabou sendo para mim.

O tabuleiro me chamou.

E nunca mais fui exatamente o mesmo.

Vieram os estudos solitários, as partidas, os torneios, as análises intermináveis. Vieram Capablanca, Alekhine, Nimzowitsch, Kasparov e tantos outros mestres silenciosos que entravam em minha casa pelas páginas dos livros. Em incontáveis tardes e noites, quando ao redor havia silêncio, eles estavam comigo.

O xadrez possui essa estranha beleza: podemos estar sozinhos diante de um livro e, no entanto, conversar com homens que viveram em outros países, em outros tempos, em outras circunstâncias. Basta mover uma peça para que o passado volte a respirar.

Os anos passaram.

Continuo jogando, participando de competições presenciais e on-line, porque algumas paixões não terminam. Apenas mudam de lugar dentro de nós. Mas percebi que aquele meu longo ciclo de estudo sistemático do xadrez havia chegado naturalmente ao seu entardecer.

E justamente nesse momento surgiu a notícia de que o Colégio Estadual Padre Mello estava desenvolvendo um extraordinário trabalho de ensino do xadrez entre seus estudantes.

Pareceu-me que duas pontas do tempo estavam querendo se encontrar.

De um lado, livros que haviam cumprido sua missão comigo.

Do outro, jovens começando justamente a caminhada que um dia comecei.

Então percebi o destino daquelas estantes.

Pela primeira vez, experimento verdadeiramente o sentimento daqueles que tantas vezes vi doando suas bibliotecas: há uma pequena dor em entregar um livro que envelheceu conosco. Não porque desejemos aprisioná-lo, mas porque algumas páginas guardam versões de nós mesmos que já não existem.

Ao olhar para esses volumes, não vejo apenas papel.

Vejo o jovem que fui.

Vejo tardes estudando variantes, noites tentando compreender posições, campeonatos, sonhos, derrotas que ensinaram mais que vitórias, páginas sublinhadas e aquela fascinante sensação de descobrir que, sobre apenas 64 casas, cabia um universo inteiro.

Por isso, não estou simplesmente doando livros.

Estou passando adiante companheiros de viagem.

Eles deixarão minhas mãos, mas não abandonarão sua missão.

Talvez, daqui a alguns anos, um estudante do Colégio Estadual Padre Mello abra um daqueles volumes de Capablanca. Talvez outro descubra Kasparov. Talvez alguém se encante por uma combinação escondida numa antiga revista que permaneceu décadas guardada comigo.

E talvez nenhum deles saiba quem primeiro leu aquelas páginas.

Não importa.

Importará apenas que uma inteligência tenha sido despertada.

Livros possuem uma forma particular de eternidade: quando mudam de mãos, começam outra vez.

Se esse acervo puder ajudar um jovem a raciocinar melhor, desenvolver concentração, aprender a perder sem desistir e a vencer sem arrogância; se puder ensinar que antes de mover uma peça é necessário pensar nas consequências; se despertar em apenas um estudante aquela mesma paixão que um antigo Xadrez do Mequinho despertou em mim tantos anos atrás, então todos aqueles livros terão encontrado o melhor destino possível.

Partirá com eles uma parte de minha história.

Mas ficará comigo uma certeza ainda mais bonita:

há momentos em que preservar o passado significa justamente ter coragem de entregá-lo ao futuro.

E assim, diante dessas pilhas de livros, revistas e jornais que durante tantos anos fizeram companhia às minhas horas de solidão, percebo que não estou me despedindo deles.

Estou apenas fazendo o meu último lance como proprietário e o primeiro como doador.

Agora é a vez dos jovens.

As peças permanecem sobre o tabuleiro.

Apenas mudam os jogadores.

Mequinho é o maior enxadrista brasileiro de todos os tempos e chegou a ocupar o posto de terceiro melhor jogador de xadrez do mundo




2 comentários:

  1. Já joguei xadrez. Esse jogo ajuda a abrir nossa mente. Temos que ter paciência e persistir para aprendermos um pouco. Mas, vale a pena.

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