terça-feira, 1 de setembro de 2026

O Brasil que veio dos Açores: de Machado de Assis a presidentes da República

 


Uma herança quase esquecida atravessou o Atlântico, participou da formação do Brasil e chegou à literatura, à poesia, às artes, às lutas políticas e até à Presidência da República

Foi o nosso bom amigo, o açoriano Francisco Amaro Borba Gonçalves, quem chamou a atenção do O Norte Fluminense para um fato extraordinário: Machado de Assis, o maior nome da literatura brasileira, era filho de uma açoriana.

Sua mãe, Maria Leopoldina Machado da Câmara, nasceu em Ponta Delgada, na ilha de São Miguel, nos Açores.

À primeira vista, poderia parecer apenas uma curiosidade genealógica. Mas basta puxarmos esse fio para que um imenso tecido histórico comece a surgir diante de nossos olhos.

Porque Machado não está sozinho.

Também Cecília Meireles, uma das maiores expressões da poesia brasileira, possuía uma profunda ligação familiar com os Açores: sua avó materna, Jacinta Garcia Benevides, era açoriana, nascida na ilha de São Miguel.

Machado e Cecília.

Dois gigantes de nossas letras.

E, atrás deles, quase silencioso, o arquipélago açoriano.

Talvez seja apenas licença poética imaginar que alguma coisa daquele oceano tenha atravessado gerações e chegado às palavras de Cecília. Mas quem poderá medir os caminhos secretos da memória familiar? Existem heranças que não aparecem nos documentos. Permanecem nos afetos, nos costumes, nas palavras, nas histórias contadas pelos mais velhos e até na maneira de olhar o mundo.

Mas a presença açoriana na formação de grandes brasileiros vai muito além da literatura.

Quando seguimos esse caminho pela história política nacional, encontramos Getúlio Dornelles Vargas, personagem incontornável da República, presidente do Brasil entre 1930 e 1945 e novamente entre 1951 e 1954, com raízes açorianas em sua ancestralidade.

Encontramos também Eurico Gaspar Dutra, 16.º presidente do Brasil, que governou entre 1946 e 1951, descendente de famílias provenientes da ilha do Faial.

E encontramos João Goulart, o Jango, presidente da República entre 1961 e 1964, cuja família se liga à grande corrente de colonização açoriana que se estabeleceu no Rio Grande do Sul a partir do século XVIII.

É uma constatação impressionante.

Em diferentes momentos da história brasileira, homens que chegaram à Presidência da República traziam em suas árvores genealógicas raízes plantadas em pequenas ilhas portuguesas no meio do Atlântico.

E os Açores continuam aparecendo.

Surgem na trajetória de Anita Garibaldi, a “Heroína dos Dois Mundos”, cujas raízes familiares se encontram profundamente vinculadas à presença açoriana em Santa Catarina.

Surgem na genealogia de Marieta Severo, uma das mais respeitadas atrizes brasileiras, por meio de antigos ramos familiares associados à imigração portuguesa insular.

E surgem também na história de Carlos Frederico Werneck de Lacerda, jornalista, escritor e político que marcou profundamente o Brasil do século XX. Entre seus antepassados encontramos Francisco Peixoto de Lacerda, nascido em 1770 na região da Horta, ilha do Faial, que veio para o Brasil no final do século XVIII e se tornou parte da linhagem familiar estabelecida no Vale do Paraíba fluminense.

Machado de Assis.

Cecília Meireles.

Getúlio Vargas.

Eurico Gaspar Dutra.

João Goulart.

Anita Garibaldi.

Marieta Severo.

Carlos Lacerda.

Literatura, poesia, teatro, cinema, revoluções, jornalismo e Presidência da República.

Personagens separados pelo tempo, pelas ideias, pelas atividades e até pelas grandes disputas políticas nacionais. Contudo, quando descemos às raízes de suas árvores familiares, encontramos repetidamente uma palavra:

Açores.

E então surge inevitavelmente a pergunta:

Por que quase não sabemos disso?

É justamente essa questão que deveria inquietar historiadores, genealogistas e memorialistas.

Quando um açordescendente ou simplesmente um apaixonado pela História começa a pesquisar brasileiros de destaque que possuíam ascendência açoriana, não demora a perceber algo surpreendente: a presença dos Açores na formação brasileira parece muito maior do que a memória nacional costuma registrar.

Os grandes personagens têm suas biografias minuciosamente estudadas. Conhecemos suas obras, seus governos, seus conflitos, seus amores, suas derrotas e suas vitórias.

Mas frequentemente seus antepassados açorianos permanecem escondidos numa nota genealógica.

Como se fossem apenas um detalhe.

Não são.

Porque genealogia também é História.

Quando milhares de açorianos atravessaram o Atlântico em diferentes períodos, eles não trouxeram apenas seus sobrenomes.

Trouxeram sua religiosidade.

Suas festas.

Suas músicas.

Sua culinária.

Sua relação com o mar.

Sua maneira de cultivar a terra.

Suas devoções.

Seus medos.

Suas esperanças.

Suas palavras.

Suas saudades.

Os açorianos não trouxeram apenas pessoas para o Brasil. Trouxeram um mundo.

E esse mundo se encontrou com tantos outros, indígenas, africanos, portugueses de outras regiões, europeus de diversas origens e inúmeras culturas, na extraordinária e complexa construção histórica da sociedade brasileira.

Por isso, recuperar a presença açoriana não significa diminuir nenhuma das outras matrizes formadoras do Brasil.

Significa apenas devolver à História uma página que permaneceu durante demasiado tempo escrita em letras pequenas.

Uma missão para os novos memorialistas

Há um extraordinário campo de pesquisa esperando pelas novas gerações.

Arquivos paroquiais.

Certidões.

Registros de imigração.

Inventários.

Correspondências.

Jornais antigos.

Fotografias.

Árvores genealógicas.

Documentos guardados durante séculos em arquivos brasileiros e açorianos.

Talvez muitos outros personagens fundamentais de nossa história possuam raízes insulares ainda pouco conhecidas.

É preciso procurá-las.

É preciso documentá-las.

É preciso confrontar as genealogias com fontes históricas.

E, sobretudo, é preciso contar essas histórias.

Não para transformar todo descendente remoto em açoriano, nem para reivindicar exclusividades que a História não comporta. O Brasil nasceu justamente do encontro de muitos povos.

Mas para reconhecer que entre esses povos estavam milhares de homens e mulheres vindos de São Miguel, Faial, Terceira, Pico, São Jorge, Graciosa, Santa Maria, Flores e Corvo.

Pessoas quase sempre anônimas.

Gente que atravessou o Atlântico sem imaginar que seus filhos, netos, bisnetos e descendentes ajudariam a escrever capítulos decisivos do país que os acolheu.

Esta é a grande beleza dessa descoberta.

A mãe açoriana de Machado de Assis jamais poderia imaginar que seu filho seria reconhecido como um dos maiores escritores da língua portuguesa.

Os antepassados açorianos de tantos brasileiros certamente não imaginariam presidentes da República entre seus descendentes.

Os homens e mulheres que deixaram aquelas pequenas ilhas não sabiam que sua descendência estaria um dia nos livros de História.

Mas estava.

E está.

Francisco Amaro Borba Gonçalves, portanto, ao chamar nossa atenção para a origem materna de Machado de Assis, talvez tenha feito mais do que apresentar ao O Norte Fluminense uma curiosidade histórica.

Entregou-nos uma chave.

E quando essa chave abriu a primeira porta, outras começaram a aparecer.

Atrás delas estavam Machado, Cecília, Getúlio, Dutra, Jango, Anita, Marieta, Lacerda e certamente muitos outros ainda esperando para serem redescobertos.

É tarefa dos historiadores e memorialistas contemporâneos prosseguir nessa investigação, corrigir lapsos, preencher silêncios e devolver nomes, famílias e origens à memória coletiva.

Um povo que desconhece suas raízes contempla apenas a copa da árvore.

É preciso descer à terra.

É preciso procurar as raízes.

E algumas das raízes mais profundas do Brasil atravessaram o fundo do Atlântico.

Vieram de pequenas ilhas cercadas pela imensidão azul.

De um lado, os Açores.

Do outro, o Brasil.

E entre ambos existe muito mais do que um oceano.

Existe uma história de séculos que ainda estamos começando a contar.


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