Há dias em que a gente sente saudade de alguma coisa que não sabe nomear. A casa está no mesmo lugar, os objetos permanecem sobre os móveis, a rua conserva seu nome. Ainda assim, alguma coisa parece ter partido. Caminhamos pelos cômodos como quem procura uma voz.
Talvez seja essa a tristeza de viver depressa demais: chegamos a tantos lugares e, às vezes, demoramos a chegar à própria vida.
Diante da imagem de árvores, com seus troncos inclinados e suas cores inquietas, pensamos nas raízes que crescem longe dos olhos. Ninguém as aplaude. Poucos se lembram delas quando a copa floresce. Mas é lá embaixo, no escuro da terra, que a árvore encontra o que precisa para oferecer sombra.
Também nós temos uma vida subterrânea.
Somos alimentados por palavras ouvidas na infância, pelo cheiro do café atravessando a casa, pela mão que segurou a nossa na primeira travessia. Há uma parte de nós que ainda se senta à mesa antiga e espera alguém repartir o pão.
O mundo, porém, costuma pedir que nos levantemos depressa.
É preciso produzir, responder, seguir adiante. Uma mensagem interrompe a outra. Mal terminamos uma conversa e já estamos ausentes, com os olhos voltados para uma pequena tela. Na pressa, deixamos de perceber que a pessoa diante de nós guardava uma história e precisava de tempo para contá-la.
O desenraizamento pode começar assim, discretamente: no nome de um vizinho que nunca aprendemos, na fotografia cujo rosto já não sabemos identificar, na receita que ninguém anotou porque parecia que aquela avó estaria sempre ali.
Até que um dia procuramos o sabor e descobrimos o tamanho da ausência.
Pensamos nas mãos de quem conhecia intimamente o próprio ofício. O marceneiro passava os dedos sobre a madeira e encontrava uma aspereza que nossos olhos não viam. A costureira reconhecia o tecido pelo toque. Havia uma conversa entre a pessoa e aquilo que fazia. Ao fim do dia, alguma coisa de sua vida permanecia na cadeira, no vestido, na porta que se abria sem ruído.
Ainda precisamos dessa conversa. Precisamos reconhecer algo de nós no trabalho, na cidade, nos dias que entregamos ao tempo.
Talvez por isso nos comovam tanto os jornais antigos, os cinemas fechados, as casas que conservam uma varanda. Diante deles, temos vontade de ouvir. Quem esperou ali? Quem saiu daquele cinema levando uma música para o resto da vida? Quem encostou os cotovelos naquela janela numa tarde de domingo?
Preservar essas lembranças é oferecer companhia a quem vem depois.
As raízes permitem que a árvore cresça. Há nelas uma força paciente, capaz de sustentar os galhos quando o vento chega. E há raízes que levamos conosco: uma maneira de acolher, uma palavra de nossa terra, o cuidado aprendido com alguém que já partiu.
Podemos plantá-las em outros lugares.
Nesta tarde, pensamos que ainda é possível começar por um gesto pequeno. Telefonar para ouvir uma voz querida sem olhar o relógio. Perguntar a um mais velho o nome de alguém numa fotografia. Sentar à mesa por mais alguns minutos.
Quem sabe, enquanto a conversa avança e o café esfria, aquela saudade sem nome encontre seu caminho.
E a gente sinta, devagar, a vida voltando a habitar a casa.

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