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| Gino Martins Borges Bastos |
Não obstante a Física, no vasto território das Ciências, impulsione o desenvolvimento da capacidade crítica e ensine a duvidar do óbvio, é certo que a memorização das fórmulas sempre foi, e sempre será, necessária. Pensar não exclui lembrar; ao contrário, pensar bem exige memória disciplinada.
Foi com esse espírito que, em uma aula de Física, quando ainda era professor, resolvi provocar meus alunos. Sentei-me à mesa, de costas para o quadro negro, como quem se afasta do visível para confiar no invisível. Pedi que um aluno fosse ao quadro. Em seguida, solicitei que cada estudante dissesse uma palavra. Uma a uma, elas eram anotadas no quadro, acompanhadas de sua ordem numérica, como se o acaso estivesse sendo catalogado.
Quando a lista se completou, mantive-me de costas. Pedi, então, que os alunos me perguntassem o número correspondente a qualquer palavra escrita, ou a palavra correspondente a qualquer número.
E eu respondia. Sempre.
Com exatidão.
O espanto tomou conta da sala. Olhos arregalados, sorrisos desconfiados, um silêncio atravessado pela incredulidade.
Não era truque, nem adivinhação. Era método. Um método que exige concentração absoluta e rapidez na associação de imagens.
Cada número, em minha mente, já possuía um rosto. O 11, por exemplo, era um time de futebol. Se a 11ª palavra sugerida pelo estudante fosse “mar”, eu criava imediatamente uma imagem forte: um time inteiro se afogando no mar. A cena absurda, quase cômica, fixava-se com nitidez. A triangulação mental se completava. Número, palavra e imagem tornavam-se um só.
Assim, quando o aluno perguntava pela palavra número 11, a resposta surgia pronta. Quando perguntava pelo número da palavra “mar”, o time submerso devolvia a resposta sem esforço. Tudo acontecia dentro de um estado de atenção plena, como se o mundo exterior tivesse sido momentaneamente suspenso.
É claro que nada disso era improviso. Eu já carregava comigo, antes mesmo de entrar na sala, quarenta imagens firmemente associadas aos quarenta primeiros números. A aula começava muito antes do sino tocar.
E qual foi a conclusão daquela aula? Simples e essencial: em todo estudo deve haver concentração absoluta.
Sem concentração, não há aprendizagem; há apenas repetição vazia.
E, como ensina um antigo ditado oriental, toda palavra é como uma seta que aponta para uma realidade. Usá-la sem compreender plenamente seu significado é disparar no escuro.
Creio que as lições daquela aula continuam atuais. Talvez mais do que nunca.

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