sexta-feira, 9 de janeiro de 2026

Adivinhando Palavras no Quadro?

 

Gino Martins Borges Bastos

Não obstante a Física, no vasto território das Ciências, impulsione o desenvolvimento da capacidade crítica e ensine a duvidar do óbvio, é certo que a memorização das fórmulas sempre foi, e sempre será, necessária. Pensar não exclui lembrar; ao contrário, pensar bem exige memória disciplinada.

Foi com esse espírito que, em uma aula de Física, quando ainda era professor, resolvi provocar meus alunos. Sentei-me à mesa, de costas para o quadro negro, como quem se afasta do visível para confiar no invisível. Pedi que um aluno fosse ao quadro. Em seguida, solicitei que cada estudante dissesse uma palavra. Uma a uma, elas eram anotadas no quadro, acompanhadas de sua ordem numérica, como se o acaso estivesse sendo catalogado.

Quando a lista se completou, mantive-me de costas. Pedi, então, que os alunos me perguntassem o número correspondente a qualquer palavra escrita, ou a palavra correspondente a qualquer número. 

E eu respondia. Sempre. 

Com exatidão.

O espanto tomou conta da sala. Olhos arregalados, sorrisos desconfiados, um silêncio atravessado pela incredulidade.

Não era truque, nem adivinhação. Era método. Um método que exige concentração absoluta e rapidez na associação de imagens.

Cada número, em minha mente, já possuía um rosto. O 11, por exemplo, era um time de futebol. Se a 11ª palavra sugerida pelo estudante fosse “mar”, eu criava imediatamente uma imagem forte: um time inteiro se afogando no mar. A cena absurda, quase cômica, fixava-se com nitidez. A triangulação mental se completava. Número, palavra e imagem tornavam-se um só.

Assim, quando o aluno perguntava pela palavra número 11, a resposta surgia pronta. Quando perguntava pelo número da palavra “mar”, o time submerso devolvia a resposta sem esforço. Tudo acontecia dentro de um estado de atenção plena, como se o mundo exterior tivesse sido momentaneamente suspenso.

É claro que nada disso era improviso. Eu já carregava comigo, antes mesmo de entrar na sala, quarenta imagens firmemente associadas aos quarenta primeiros números. A aula começava muito antes do sino tocar.

E qual foi a conclusão daquela aula? Simples e essencial: em todo estudo deve haver concentração absoluta.

Sem concentração, não há aprendizagem; há apenas repetição vazia. 

E, como ensina um antigo ditado oriental, toda palavra é como uma seta que aponta para uma realidade. Usá-la sem compreender plenamente seu significado é disparar no escuro.

Creio que as lições daquela aula continuam atuais. Talvez mais do que nunca.

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