domingo, 11 de janeiro de 2026

Nos Tornamos Monstros?

 


Nietzsche nos deixou o aviso como quem acende uma tocha na entrada da caverna:

"aquele que luta com monstros deve acautelar-se para não se tornar um deles".

E quando o olhar se demora demais sobre o abismo, o abismo, paciente e faminto, aprende a olhar de volta.

Hoje, os monstros não vivem mais nas florestas ou nos mitos.

Eles nos visitam a cada instante, saltam das telas luminosas, instalam-se nos bolsos, pedem atenção como quem pede pão.

Há monstros da idiotice organizada, da banalidade que se disfarça de entretenimento, monstros que assassinam reputações com cliques ligeiros, outros que expelem sangue simbólico e ainda assim recebem aplausos.

Tudo virou prateleira.

No supermercado da alma, há monstros para todos os gostos:

para os que vivem no automático,

para os que desistiram de sentir,

para os que confundem ruído com sentido.

Os abismos também foram transformados em mercadoria.

Vendidos em doses diárias, com embalagens coloridas e promessas de pertencimento.

Somos convidados a fitá-los longamente, a mergulhar sem cordas, até que a humanidade se desgaste como palavra antiga.

E assim, pouco a pouco, a tristeza deixa de ser exceção e se torna paisagem.

A depressão, o cansaço de existir, o sentimento de desvalor pela vida espalham-se como névoa sobre multidões.

Multidões que já não sabem se ainda são humanas ou apenas reflexos deformados do abismo que aprenderam a contemplar.

Talvez o maior ato de resistência, hoje,

seja desviar o olhar.

Não por covardia,

mas por amor àquilo que ainda resta em nós.

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