segunda-feira, 12 de janeiro de 2026

Conversas entre Surdos e Loucos?


 Por Gino Martins Borges Bastos 


O Debate Onde Nada Se Decide

Não foi uma única vez.

De boa-fé, eu iniciava um diálogo com interlocutores a respeito de um tema qualquer. Ocorre que, no decorrer da conversa, o assunto ia sendo alterado sucessivas vezes, como se tivesse vontade própria.

Ao final, surgia inevitável uma reflexão que nos lançava numa autoindagação desconcertante:

- Como viemos parar neste assunto?

Qual foi o caminho percorrido até aqui?

Mais ainda: qual era, afinal, o tema inicial da conversa?

A sensação derradeira era a de ter participado de uma conversa de surdos e loucos, na qual os assuntos se transformavam conforme o sabor dos ventos soprados pelas intervenções verbais de um dos debatedores, ou de todos eles, em conspiração tácita.

Certa vez, à mesa de uma degustação, fiz um comentário singelo sobre a mudança no cenário de Bom Jesus, perceptível pelo número crescente de casas onde já era possível ouvir instrumentos musicais sendo ensaiados.

Argumentei, com entusiasmo quase acadêmico, que havia um grande contingente de alunos e músicos praticando em suas residências: integrantes da Orquestra Sinfônica do Vale do Itabapoana, das Liras 14 de Julho e Operária Bonjesuense, da Sociedade Musical da Usina Santa Maria, além das escolas de música JEMAJ, MusicArt e outras tantas.

Meu interlocutor, porém, lembrou-se subitamente de um tio que fora dirigente de uma escola de samba no Rio de Janeiro, e o assunto tomou outra direção. Uma terceira pessoa, sentada à mesa, sentiu-se compelida a intervir para enfatizar a violência na capital carioca. Um quarto interlocutor, atento às revelações digitais, assegurou ter ouvido na internet que em breve seria divulgado um novo escândalo político no Rio.

O fato é que, ao final, ninguém tinha qualquer ideia de como fomos parar naquele emaranhado temático. Pior: não tínhamos chegado a conclusão alguma sobre absolutamente nada.

A conclusão possível era apenas esta: em certos locais de reunião, ocorrem conversas entre surdos e/ou loucos que nenhuma degustação saborosa consegue resolver.

Por esse motivo, passei a carregar comigo um método próprio de conversação, aplicável a qualquer ambiente.

Quando o primeiro interlocutor inicia uma mudança de assunto injustificada, peço vênia imediatamente e, como se estivesse num tribunal, faço a rogatória solene:

- É possível concluir o primeiro tema antes de mudar de assunto?

E, para evitar atropelos e indisposições, eu mesmo trato de finalizar a questão. Dou início ao tema com uma suscitação; trato de encerrá-lo com uma manifestação imediata.

Afinal, em todo diálogo coletivo, é preciso manter um mínimo de lógica normativa, ainda que isso não seja do interesse dos demais interlocutores.


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