sábado, 10 de janeiro de 2026

Dilermando Reis: o chapéu e os olhos azuis de Rogério Loureiro Xavier

 Por Gino Martins Borges Bastos 


Dilermando Reis

Eu era adolescente e estava na sala de minha casa. Já havia anoitecido.

Alguém bateu à porta.

Abri. Era um homem de meia-idade, moreno, de bigode expressivo, com sinais evidentes de ter bebido, e um grande chapéu pousado na cabeça como se fizesse parte do corpo. Pediu para chamar meu pai. Assim o fiz.

Quando voltei, ele comentou, quase como quem anuncia um ritual íntimo, que ao chegar em casa ouviria um long-playing de Dilermando Reis.

Sem entender quem era aquele homem nem o peso da afirmação, perguntei, com a natural ignorância da idade:

- Quem?

Ele repetiu, agora com certo espanto: - Dilermando Reis, um dos maiores violonistas do Brasil. Não acredito que você não o conheça.

Naquele momento não disse nada, mas algo ficou suspenso no ar.

Mais tarde compreendi que as realidades de certos grupos familiares e sociais são mundos inteiros que não se cruzam.

No círculo de amizades do homem do chapéu, o violão era presença cotidiana e Dilermando Reis, um ícone.

No meu grupo familiar e social, o nome jamais havia sido pronunciado.

O episódio ficou gravado na memória, e com ele, o nome do músico.

Ficou como ficam certas palavras que não entendemos na infância, mas que insistem em permanecer.

Décadas depois, o nome de Dilermando Reis retornou, inesperado, numa troca de mensagens com o amigo Rogério Loureiro Xavier, filho de Élcio Xavier, o Príncipe dos Poetas.

A mensagem dizia:

“Belíssima e encantadora música!

Há uma poética linha nostálgica nessa melodia, que parece uma valsinha com aura de chorinho.

As cordas afinadíssimas estão impecáveis!

Parabéns a esse musicista que toca o violão com a alma!”

E logo a identificação:

Música de autoria de Dilermando Reis,

na interpretação do violonista Hélio Fuks.

- Rogério Loureiro Xavier

Então entendi.

O homem do chapéu grande havia me apresentado o nome de Dilermando Reis na adolescência.

O homem de olhos azuis, Rogério, apresentou-me o músico por inteiro, muitos anos depois.

Às vezes, a vida não nos entrega tudo de uma vez.

Primeiro nos dá o nome.

Depois, quando estamos prontos, nos oferece a música.





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