Por Gino Martins Borges Bastos
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| Dilermando Reis |
Eu era adolescente e estava na sala de minha casa. Já havia anoitecido.
Alguém bateu à porta.
Abri. Era um homem de meia-idade, moreno, de bigode expressivo, com sinais evidentes de ter bebido, e um grande chapéu pousado na cabeça como se fizesse parte do corpo. Pediu para chamar meu pai. Assim o fiz.
Quando voltei, ele comentou, quase como quem anuncia um ritual íntimo, que ao chegar em casa ouviria um long-playing de Dilermando Reis.
Sem entender quem era aquele homem nem o peso da afirmação, perguntei, com a natural ignorância da idade:
- Quem?
Ele repetiu, agora com certo espanto: - Dilermando Reis, um dos maiores violonistas do Brasil. Não acredito que você não o conheça.
Naquele momento não disse nada, mas algo ficou suspenso no ar.
Mais tarde compreendi que as realidades de certos grupos familiares e sociais são mundos inteiros que não se cruzam.
No círculo de amizades do homem do chapéu, o violão era presença cotidiana e Dilermando Reis, um ícone.
No meu grupo familiar e social, o nome jamais havia sido pronunciado.
O episódio ficou gravado na memória, e com ele, o nome do músico.
Ficou como ficam certas palavras que não entendemos na infância, mas que insistem em permanecer.
Décadas depois, o nome de Dilermando Reis retornou, inesperado, numa troca de mensagens com o amigo Rogério Loureiro Xavier, filho de Élcio Xavier, o Príncipe dos Poetas.
A mensagem dizia:
“Belíssima e encantadora música!
Há uma poética linha nostálgica nessa melodia, que parece uma valsinha com aura de chorinho.
As cordas afinadíssimas estão impecáveis!
Parabéns a esse musicista que toca o violão com a alma!”
E logo a identificação:
Música de autoria de Dilermando Reis,
na interpretação do violonista Hélio Fuks.
- Rogério Loureiro Xavier
Então entendi.
O homem do chapéu grande havia me apresentado o nome de Dilermando Reis na adolescência.
O homem de olhos azuis, Rogério, apresentou-me o músico por inteiro, muitos anos depois.
Às vezes, a vida não nos entrega tudo de uma vez.
Primeiro nos dá o nome.
Depois, quando estamos prontos, nos oferece a música.

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