Na parte alta da Praça Governador Portela, uma placa guarda um oceano. Quem passa pode perceber apenas o brilho do metal, os nomes, a data. Mas quem se demora encontra embarcações, despedidas, esperanças e uma fé que atravessou as águas para fazer morada no Vale do Itabapoana.
É o Monumento à Imigração Açoriana, inaugurado em 13 de agosto de 2025, Dia Municipal do Imigrante Açoriano. Ali, a memória ganhou endereço no coração de Bom Jesus. E ganhou poesia.
Padre Mello, o açoriano que soube amar esta terra com palavras e obras, empresta à placa a leveza de uma pomba:
“Voa pomba sobre a praça
Leva o Espírito na asa”
Os versos parecem escapar do metal e encontrar, sobre o monumento, a coroa e a pomba do Divino Espírito Santo. Símbolos de uma celebração que os açorianos trouxeram ao município, eles conservam a delicadeza de uma herança transmitida entre gerações: mãos que preparam a festa, vozes que rezam, famílias que reconhecem, na tradição, alguma coisa de sua própria casa.
Mais abaixo, as palavras de outro açoriano, Manuel F. Duarte, evocam o ilhéu que procurou nestas paragens espaço, pão e justiça. Na mente, a esperança; às costas, a bagagem; no coração, o culto ao Espírito Santo. É possível imaginar o peso dessa travessia. No meio dos pertences, havia coisas que nenhuma alfândega poderia contar: a lembrança de uma janela, o som dos sinos da ilha, o rosto de quem ficou esperando junto ao mar.
A placa reúne essas duas vozes açorianas. Uma faz a pomba voar sobre a praça; a outra acompanha o imigrante em sua procura por uma vida nova. Entre ambas, o oceano se torna caminho.
A homenagem nasceu da sensibilidade do dr. Nino Moreira Seródio, presidente da Casa dos Açores do Espírito Santo e idealizador do monumento. Há uma forma de genialidade que se revela na capacidade de reconhecer o que uma comunidade precisa recordar. Nino soube dar presença pública a uma história que vive nos sobrenomes, nas fachadas, nas celebrações e nos afetos de tantas famílias.
A identificação da Casa dos Açores do Espírito Santo ocupa seu lugar na placa, assim como os nomes de Maria Cristina Borges, secretária da entidade; de José Manuel Bolieiro, presidente do Governo dos Açores; e de José Andrade, diretor Regional das Comunidades dos Açores. Também estão inscritos o prefeito Paulo Sérgio do Canto Cyrillo e o secretário de Cultura e Turismo José Geraldo Morais. Reunidos naquele espaço, os nomes registram o encontro de pessoas e instituições em torno de uma memória comum.
Basta, porém, levantar os olhos para descobrir que a homenagem continua além de seus limites.
Do outro lado da praça, a majestosa fachada do Santuário do Senhor Bom Jesus e Santa Rita de Cássia oferece sua beleza ao olhar. Idealizada pelo genial açoriano Padre Mello, ela parece acolher a pomba de seus versos. O poeta está na placa; o construtor está diante dela. Entre a palavra gravada e a arquitetura erguida, sua sensibilidade permanece atravessando a praça.
Nas laterais, outros dois imóveis de arquitetura açoriana, que pertenceram a Manoel Vieira Seródio, participam desse encontro silencioso. Suas fachadas guardam a presença de quem trouxe das ilhas um modo de construir e, com ele, uma maneira de habitar o mundo. A cada dia, a luz percorre essas paredes e revela aos passantes a beleza que o costume às vezes deixa de perceber.
O monumento e os edifícios dialogam. A placa oferece nomes e versos; o Santuário responde com suas linhas; as antigas casas acrescentam a intimidade das vidas que abrigaram. Sobre esse conjunto, a coroa e a pomba recordam a festa, a devoção e os vínculos que o tempo não desfez.
Há muitas espécies de poesia na Praça Governador Portela. A que se escreve. A que se constrói. A que se celebra. A que chega de longe e cria raízes.
Na parte alta da praça, diante daquela placa, podemos sentir os Açores próximos. Estão na lembrança dos imigrantes, na fé compartilhada, na beleza das fachadas e no gesto de quem decidiu homenageá-los. O mar ficou distante; o amor encontrou onde permanecer.
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| Praça Governador Portela |





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