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| "Burro Douto" foi publicado no jornal Cachoeirano, de Cachoeiro de Itapemirim, ES, no dia 15 de abril de 1915, com grande repercussão |
No mês de abril, dedicado à memória e à obra de Padre Antônio Francisco de Mello, Varre-Sai e Bom Jesus do Itabapoana se reencontram para celebrar não apenas um grande personagem de sua história comum, mas também a força da cultura como elo permanente entre povos, tempos e territórios.
Padre Mello, açoriano da ilha de São Miguel, pároco simultâneo em Varre-Sai e Bom Jesus do Itabapoana entre 1916 e 1924, foi um sacerdote de extraordinária sensibilidade intelectual, literária e humana. Sua atuação entre as duas paróquias antecedeu a 1916 e ultrapassou os limites do altar, deixando marcas profundas na educação, na religiosidade popular e na produção cultural da região.
Se Varre-Sai carrega em sua formação a forte herança da colonização italiana, Padre Mello representa a presença açoriana que se integra, dialoga e se soma, simbolizando a união de culturas que celebraremos nesse encontro intermunicipal. Essa mesma integração se manifesta, por exemplo, na Festa do Divino Espírito Santo, tradição trazida a Bom Jesus por açordescendentes entre 1860 e 1862 e fortalecida por Padre Mello a partir de sua chegada em 1889, tornando-se também uma realidade viva em Varre-Sai.
É nesse contexto que se insere o soneto O Burro Douto, escrito por Padre Mello em Varre-Sai e publicado com grande repercussão no jornal Cachoeirano, de Cachoeiro de Itapemirim, no estado do Espírito Santo. Nesta obra, o padre-poeta, bonjesuense por adoção e açoriano de origem, imortaliza Varre-Sai na literatura, demonstrando que, como afirmou Tolstói, ao pintar sua aldeia, o artista alcança o universal.
Assim, Varre-Sai e Bom Jesus do Itabapoana seguem, silenciosamente, pintando suas aldeias, preservando memórias, reafirmando identidades e mantendo viva a herança cultural que os une.
Burro Douto
Em uma das farmácias de Varre-Sai
entrou há pouco um burro na atitude de
quem ia ali procurar um remédio
Que um burro, por fenômeno insueto
fora visto em cartaz algures lendo
já eu sabia, e o fato vai correndo
por esse mundo além no meu soneto.
Porém, um burro todo circunspecto,
entrar numa farmácia e, percorrendo
os coloridos rótulos, ir vendo
se acaso o mostruário está completo,
isto nunca se ouviu nem por pilhéria,
e se minha razão o caso aceita
é porque o prova testemunha séria
E visto que interessa esta matéria
temos ainda uma questão sujeita:
viria receitar-se ou dar receita?
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| Secretaria Municipal de Educação e Cultura de Varre-Sai |
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| Torre do Castelinho onde morou Padre Mello, em Bom Jesus do Itabapoana |




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