domingo, 16 de agosto de 2026

História não é matéria-prima para conveniências do presente

 

15 de agosto: fé, tradição e o verdadeiro marco histórico de Bom Jesus



Em Bom Jesus do Itabapoana, 15 de agosto é uma data cuja importância histórica não nasceu de um aniversário municipal. Nasceu da fé.

O saudoso historiador bonjesuense Antônio de Souza Dutra, em seu importante texto A Origem da Festa de Agosto (ver ao final), registra que a devoção ao Divino Espírito Santo foi instituída em Bom Jesus por Antônio Teixeira de Siqueira e Francisco José Borges, por volta de 1860 a 1862. Dessa tradição religiosa nasceu a Festa de Agosto, uma das manifestações mais queridas e antigas da comunidade.

Dutra é ainda mais preciso ao explicar a escolha do dia 15 de agosto: a data teria sido fixada pelo Padre Antônio Francisco de Mello, de comum acordo com os lavradores, por corresponder a um período de maior folga nos trabalhos da lavoura e também de melhores condições financeiras.

Eis, portanto, a origem do 15 de agosto.

Religiosa. Comunitária. Agrícola. Cultural.

Não há, nesse registro histórico, qualquer indicação de que o dia 15 tenha sido escolhido para comemorar o aniversário de emancipação do município.

A distinção é fundamental.

O aniversário de um município deve estar relacionado ao marco reconhecido pela legislação e pela tradição oficial como referência de sua existência político-administrativa. No caso de Bom Jesus do Itabapoana, a emancipação político-administrativa ocorreu em 1º de janeiro de 1939.

Confundir as duas datas é mais do que uma simples imprecisão de calendário. É apagar o significado de cada uma delas.

15 de agosto pertence ao Divino.

1º de janeiro de 1939 pertence à emancipação municipal.

Uma data não precisa ser diminuída para que a outra seja respeitada. Ao contrário: Bom Jesus fica maior quando sua história é contada com todas as suas raízes.

O próprio texto de Antônio de Souza Dutra nos conduz a uma memória ainda mais profunda. Ele recorda que, desde os primeiros tempos, a devoção ao Divino não se restringia aos atos litúrgicos. Havia procissões, a coroa, a figura do menino representando o Imperador do Divino e a distribuição de esmolas aos pobres.

Mais tarde, Padre Mello acrescentaria a entronização da coroa e incorporaria à tradição local o belo hino “Alva Pomba”, atribuído por Dutra ao Padre Delgado, também natural da ilha de São Miguel, nos Açores.

A Festa de Agosto, portanto, não surgiu de uma decisão administrativa contemporânea. É fruto de uma história muito mais antiga, feita de fé, trabalho rural, devoção popular, solidariedade e herança açoriana.

É justamente por isso que a memória merece cuidado.

História não é matéria-prima para conveniências do presente. História é patrimônio coletivo.

O dia 15 de agosto continuará sendo grandioso, não porque seja aniversário do município, mas porque carrega consigo mais de um século de devoção, tradição e pertencimento.

E essa é a maior beleza da memória bonjesuense: há datas que não precisam de um título oficial para serem eternas.

O 15 de agosto já pertence ao coração de Bom Jesus.

Há datas que, de tanto serem vividas por gerações, tornam-se parte da própria alma de um povo.


Conferir A Origem da Festa de Agosto, de Antonio de Souza Dutra 

https://onortefluminense.blogspot.com/2023/07/a-origem-da-festa-de-agosto.html




Um comentário:

  1. Minha doce Bom Jesus,
    Terra de fé e de cultura,
    Nosso Senhor te conduz
    pra além da literatura. ❤️🙏👏
    (Lúcia Spadarotto)

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