Crônica de O Norte Fluminense
Os 80 anos chegaram junto com a solidão.
Ela ainda ouve vozes, balbucia outras, contempla o horizonte e se extasia diante do perfume das rosas no jardim. A vida continua lhe oferecendo sons, cores e aromas. Mas há uma ausência que nenhum deles consegue preencher: o toque.
Não se trata de vaidade. É algo mais profundo, quase primitivo, a necessidade de sentir que ainda existe um outro corpo no mundo capaz de dizer, sem palavras: você está aqui; eu estou aqui.
O desejo do corpo e da alma por um simples toque tornou-se permanente.
Então, ela decide ir à cabeleireira.
Não há vaidade. Há desejo de toque.
Enquanto alguém lhe toca os cabelos, penteia seus fios, ajeita-lhe a cabeça com delicadeza, por alguns instantes a solidão parece perder a sua força. Não é o espelho que importa. É a mão.
Ele vai ao barbeiro.
Não há vaidade. Há desejo de toque.
Enquanto a lâmina percorre o rosto, enquanto dedos ajeitam seus cabelos, enquanto uma mão repousa brevemente sobre sua nuca, também ele reencontra, por alguns minutos, uma antiga sensação de pertencimento.
A solidão, quando se prolonga, inventa necessidades que não são caprichos. Ela faz o corpo lembrar aquilo que a alma jamais esqueceu: fomos feitos para o encontro.
Um toque pode ser quase nada para quem o oferece.
Para quem espera, pode ser o mundo inteiro.
E essa é uma das mais silenciosas crueldades da velhice: continuar sentindo, desejando, contemplando a beleza das coisas, e perceber que, entre tantos horizontes, falta apenas uma mão.
Qualquer mão.
Um toque breve.
Um gesto sem importância para quem o faz.
Mas, para quem vive a solidão, qualquer um pode ser o toque que devolve, por um instante, a sensação de estar vivo.

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