quarta-feira, 7 de outubro de 2026

A lanterna dos abraços


 Se houvesse uma máquina do tempo, para qual abraço você voltaria agora mesmo?



Se houvesse uma máquina do tempo, para qual abraço você voltaria agora mesmo?

A pergunta chega devagar, acompanhada pela voz profunda de um violoncelo. Antes que possamos responder, uma lembrança já abriu a porta: alguém nos espera numa varanda, chama nosso nome da cozinha ou estende os braços com aquela naturalidade de quem acreditava que teríamos muitos outros dias juntos.

Diante da imensidão das águas, uma figura solitária segura uma lanterna. O céu está coberto de nuvens, e algumas estrelas resistem entre elas. A pequena chama ilumina um trecho do chão e desenha sobre a água um caminho dourado. Quem a contempla talvez reconheça o próprio gesto: também nós carregamos alguma luz quando procuramos, na distância, aquilo que amamos.

Há um abraço guardado em cada um de nós.

Um abraço de mãe, com sua bênção sussurrada junto ao ouvido. Um abraço de pai, às vezes breve, mas firme o bastante para sustentar muitos anos. O abraço de um amor, de um amigo, de alguém cuja voz ainda sabemos ouvir por dentro. A memória conserva detalhes surpreendentes: a textura de uma camisa, um perfume, a mão pousada nas nossas costas.

Naquele tempo, talvez estivéssemos com pressa. Havia um compromisso, uma viagem, alguma preocupação ocupando a cabeça. Abraçamos e saímos, confiantes na possibilidade de voltar.
Hoje, daríamos tanto por mais cinco minutos.

Cinco minutos para ficar. Para perguntar o que nunca perguntamos, agradecer o que recebemos em silêncio, dizer uma frase simples sem olhar o relógio. Ou apenas repousar a cabeça naquele ombro, enquanto a vida, por uma delicadeza impossível, esperasse do lado de fora.

O violoncelo parece conhecer esse desejo. Suas notas se alongam como passos de quem atravessa uma casa antiga, tocando os móveis, reconhecendo os retratos, detendo-se diante de uma cadeira vazia. Em seu andamento lento, a melodia nos concede tempo para sentir. Uma lágrima pode cair sem constrangimento. Um sorriso pode surgir no meio dela.

Lembramos, então, de alguma alegria miúda: uma conversa à mesa, uma risada inesperada, a maneira como aquela pessoa pronunciava nosso nome. Durante alguns instantes, a saudade recupera o calor da convivência.

A figura permanece diante das águas. Sua lanterna arde na noite, e pensamos nas histórias que contamos para manter perto quem está longe. Cada lembrança repartida acrescenta um pouco de claridade: alguém escreve o nome do pai; outro recorda a avó; uma pessoa confessa que ainda espera sonhar com quem partiu. Há quem deixe apenas um ponto, porque naquele dia nenhuma palavra consegue passar pela garganta.

Até esse pequeno sinal merece acolhimento. Talvez a máquina do tempo que desejamos tenha, por enquanto, a forma de uma música.

Fechamos os olhos e reencontramos uma tarde, uma casa, dois braços abertos. Sabemos que a melodia vai terminar. Ainda assim, permanecemos ali por mais um instante.

Depois, quando abrimos os olhos, a noite continua diante de nós.

E seguramos com mais cuidado a nossa lanterna.

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