quarta-feira, 24 de junho de 2026

Apiacá: Um Mar de Histórias na CAES (Casa dos Açores do Espírito Santo)

 



Apiacá (ES) - No extremo sul do Espírito Santo, onde as montanhas se encontram com as águas do Itabapoana e a divisa com o Rio de Janeiro se desenha no horizonte, uma cidade de pouco mais de 7.500 habitantes viveu uma noite que ultrapassou os limites de uma simples celebração. No dia 23 de junho, Apiacá transformou-se em porto de chegada para memórias centenárias, reafirmando sua vocação como guardiã da herança açoriana no interior capixaba.

Foi uma noite de cultura, amizade, boa música e identidade. Mas houve algo além da programação oficial. Pairava sobre a cidade uma sensação de pertencimento renovado, como se uma delicada névoa vinda das Ilhas dos Açores envolvesse ruas, vozes e lembranças. Era a bruma simbólica da Açorianidade, presente na música do açoriano Francisco Borba Gonçalves, no trabalho da Casa dos Açores do Espírito Santo (CAES) e no entusiasmo daqueles que compreendem a cultura como elo permanente entre gerações.

Há mistérios que atravessam oceanos sem jamais perder a direção. Quando os primeiros açorianos chegaram ao Espírito Santo, trouxeram consigo muito mais do que pertences. Vieram carregados de saudade, fé, tradições e histórias que resistiram ao tempo. Séculos depois, o vínculo entre as ilhas atlânticas e o solo capixaba continua vivo, sustentado pela força silenciosa da memória coletiva.

Neste contexto, a celebração do Dia do Imigrante Açoriano ganhou um significado especial. Apiacá não apenas comemorou uma data. Celebrou uma conquista histórica. A instituição da data no calendário oficial do município, por meio da Lei Municipal nº 1.242, de 10 de dezembro de 2025, consolidou o reconhecimento da contribuição açoriana para a formação cultural, social e espiritual da região.

De autoria da vereadora Rubia Rezende de Figueiredo, a legislação estabelece o dia 18 de junho como o Dia Municipal do Imigrante Açoriano. A data remete à passagem do Padre Antônio Francisco de Mello, natural da Ilha de São Miguel, por Apiacá em 1899, episódio que fortaleceu os laços históricos entre os Açores e o Vale do Itabapoana. A lei também prevê ações educativas, culturais e históricas destinadas à valorização da presença açoriana no município e ao fortalecimento das relações entre Apiacá, a Casa dos Açores do Espírito Santo e comunidades açorianas espalhadas pelo Brasil e pelo mundo.

Às 19h30, a sede da Casa dos Açores abriu suas portas para um reencontro de tempos e afetos. O Coral Vozes do Tempo, do CRAS de Apiacá, emocionou o público ao reunir diferentes gerações em torno da música. As vozes experientes e sensíveis demonstraram que a memória não envelhece quando encontra abrigo na arte.

Um dos momentos mais marcantes da programação foi protagonizado por Francisco Borba Gonçalves. Com o violão nos braços, o músico transformou o salão em oceano. Cada acorde parecia desenhar no ar as paisagens das chamadas Ilhas de Bruma. As distâncias desapareceram. Apiacá tornou-se mar. Os Açores tornaram-se presença. E a música fez aquilo que somente a arte é capaz de realizar: aproximou geografias separadas por milhares de quilômetros e uniu corações em uma mesma emoção.

Sob a liderança do presidente da CAES, Dr. Nino Moreira Seródio, e com o empenho da professora Maria Cristina Borges, a instituição reafirmou seu papel como referência da cultura açoriana no Espírito Santo. Fundada em Apiacá e inaugurada em 25 de julho de 2022, durante as comemorações dos 210 anos da imigração açoriana para o Espírito Santo e dos 180 anos do povoamento açoriano do Vale do Itabapoana, a Casa dos Açores tornou-se um marco cultural para toda a região.

O reconhecimento da importância desse trabalho ultrapassou fronteiras. Em mensagem oficial enviada dos Açores, o Diretor Regional das Comunidades, Dr. José Andrade, destacou a relevância da iniciativa do município e manifestou a satisfação da Região Autónoma dos Açores diante da criação do Dia Municipal do Imigrante Açoriano.

"Estamos longe na geografia e na história, mas ficamos perto no pensamento e no coração", escreveu o representante do Governo dos Açores, sintetizando em uma frase o sentimento que dominou a celebração.

Ao final da noite, ficou a certeza de que Apiacá avançou mais um passo na afirmação de sua identidade açoriana. Entre canções, discursos, reencontros e lembranças, a cidade viveu uma experiência de memória coletiva. Mais do que um evento cultural, foi a confirmação de que a herança dos antigos navegadores continua encontrando porto seguro às margens do Itabapoana.

E assim, na Casa dos Açores do Espírito Santo, um mar de histórias voltou a ser contado. Histórias que vieram do outro lado do Atlântico, atravessaram séculos e permanecem vivas porque encontraram morada permanente no coração de um povo.






















































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