domingo, 19 de julho de 2026

"AS SETE FACES DE ADEMAR MIRANDA", por Lauro Amaral


Lauro Amaral 

Vou contar um pouco do que ouvi do próprio Ademar Miranda, uma lenda real e um dos meus melhores interlocutores. Cozinheiro, campeiro, jogador de futebol, sapateiro, motorista, leiloeiro e administrador. Depois eu soube que era também bastante fantasioso, como a contagem sugere. Teremos muitos nomes paralelos, mas tomara que você identifique algum. Nasceu em 1932 no Valão do Cágado, entre Itaperuna e Bom Jesus. Filho de Jorge Ribeiro Miranda e Maria Joaquina Miranda. Teve como irmãos: Antônio, Laíde, Ataíde e Alcenor. Cresceu com sua família na lida com o gado e com a terra. Estudou na escolinha que ficava no quintal da fazenda, sendo aluno das professoras Eni Boechat e Alaíde Boechat.

​Aos 17 anos fez seu alistamento militar obrigatório em Itaperuna. Todavia, por não haver na região nem mesmo o Tiro de Guerra e devido à insegurança daquele período de pós-guerra mundial, o jovem Ademar foi convocado no ano seguinte e sentou praça na capital, na Vila Militar e depois em Triagem, ficando nos alojamentos destas guarnições por 4 anos. Ali desenvolveu várias atividades e aprendizados, se destacando particularmente como chefe das cozinhas dos quartéis, título que lhe rendeu diversas congratulações. Nos fins-de-semana livres por vezes passeava de dia na praia de Ramos (que segundo ele já era bem imprópria para banho, porém a mais divertida) e de noite no Mangue (extinto meretrício de polacas, bastante procurado por militares e demais cariocas, mas frequentado também por outros conterrâneos hoje ilustres).

​Sempre retornava para casa de seus pais nas férias do destacamento. Em uma destas foi “segurado” (como ele disse) por uma de suas namoradas que o proibiu de voltar para a capital. A jovem bem tinha razão, considerando a sua fama de rapaz namorador e o apelo passional do Rio de Janeiro cheio de bossa nova e samba canção. Metido a conquistador Ademar gostava de sair com seu grupo de companheiros a cavalo ou em sua charrete, o que lhe era mais agradável pois (além de andar com uma perna levemente manca) estas coisas lhe pareciam dar diferenciais favoráveis. 

E assim seguiam à procura dos bailes da vida, em Ourânia, na serra do Barreiro, na Lajinha, no Pavão, no Laurentino, na Jaboticaba e onde mais corresse a notícia de um possível arrasta-pé e arrasta-pista, na Vargem Alegre. Mas foi em uma das inúmeras festas de sábado à noite promovidas no salão da fazenda de Leonides Germano que se aproximou de Lindalva, sua futura esposa, filha de Alberto Germano e Eny Borges de Souza.

​Em tempos de pouco dinheiro sacudiu sua poeira: pegou seus bois de carro, chamou os companheiros Alcemiro de Souza (Mila) e Geraldo Theodoro e foram trabalhar arando terras nas baixadas (para plantio de arroz) e morros (para plantio de milho e feijão) na região do Valão (de Cezar Poubel) e no Viveiro (de Bebeto Germano, seu sogro). Lembrou-se da cena em que havia mais de 10 arados trabalhando ao mesmo tempo e que em determinado ano chegou a lotar seu grande paiol de milho até a cumeeira.

​Certa vez recebeu um convite do Mocinho (Homero Vieira Seródio) e do Mila para participar da equipe do Pirapetinga Futebol Clube, com direito a pagamento expressivo. Tinham até a carteira do time assinada (teve gente que se aposentou graças ao tempo de trabalho ali registrado, imaginem!). Entre os jogadores se lembra mais dos goleiros com os quais foram tricampeões: Damásio (filho de Nazário), Brizantino, Vivaldi e Germano (hoje residente em Bom Jesus do Norte). Em paralelo trabalhou também como sapateiro com o Sr. Jarí, um alfaiate que tinha seu quarto de costura no porão do fazendão. E por estar satisfeito com estas duas remunerações (jogador e sapateiro) deixou de vez o trabalho no campo.

​Trabalhou ainda no bar de Dona Iracema Seródio, que funcionava no salão anexo à sua casa, no início da Praça João Catharina. Ali havia sinuca, máquina para fabricar picolé, energia elétrica (de dínamo, coisa muito rara, especial mesmo) e rádio (com pilhas enormes) com o qual acompanhavam atentos e felizes a Copa de 70, quando o Brasil conquistou o tricampeonato. Naquele clima de alegria, de “pra frente Brasil”, este certamente foi um excelente ponto de encontro da zona rural. Lá os homens bebiam “até tardão da noite” (10 horas, estourando), em meio a muita bagunça, naturalmente. Tanto que Dona Iracema determinou o fechamento do bar.

​Foi ajudante de propriedade do Sr. Jary Goninho e também de caminhão, tendo como motorista o Chico Preto (do Bonito). Em um certo dia de estresse e cansado da rotina o Chico se queixou do vencimento e abandonou o caminhão no pico de uma serra em que estavam trabalhando. Então Ademar se viu obrigado a pegar no volante para dirigir e descer com tudo aquilo lá de cima. Com esta prática, mais adiante foi motorista da Viação São Cristóvão, de propriedade do Sr. Jorgino (ou seria Josino Dutra? Ah, a memória lhe traindo...). Aquele ônibus todo azul e branco, supermoderno, viera substituir a antiga e pequena jardineira, que tinha o bagageiro em cima, com uma escadinha para subir e pôr as malas e pequenos animais. Dirigiu para Carabuçu, Campos, Muriaé, Congonhas e Aparecida do Norte por muitos anos, nos tempos difíceis em que vários trechos ainda não eram asfaltados. Transportava pessoas comuns, romeiros e times de futebol com toda aquela bagunça peculiar, enfrentando problemas com a Polícia Rodoviária Federal etc. Mais tarde encerrou esta parte da vida dirigindo apenas entre Itaperuna e Pirapetinga. Com uma caneta atrás da orelha, um bloco de passagens no sovaco, as notas de dinheiro entrelaçadas entre os dedos e se equilibrando em pé pelo corredor do ônibus, Ademar se recorda que teve como seus cobradores: Norberto Freitas (da Malvina), Jadeir Hilário (do Custódio), Joaquim (do Manoel Gonçalves) e Rogério Barbosa (do Olívio). Nas noites de sábado entre galinhas caipiras (vivas ou assadas), bonecas de pano (momento de maior algazarra), cestas de ovos (feitas com cascos de tatu) e muuuitos doces, participou incontáveis vezes como leiloeiro da igreja no coreto da praça.

​De revés em sua história foi o momento da perda de seu filho de 10 anos, com epilepsia intensa, desenganado pelos médicos de Ourânia e Barreiro (vilas de Natividade) e com posterior cirurgia em Niterói. Então pediu licença de 6 meses do trabalho no ônibus e não voltou mais a dirigir. Ficou parado. Reflexivo por um bom tempo. Mais adiante Paulo Portugal e Jacinto Seródio (então gestores municipais) o convidaram para ser o administrador do distrito, seguindo-se com a sua aposentadoria. Contudo Ademar continuava prestativo, solidário, companheiro e marcante entre nós.




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