![]() |
| Ademir de Souza, no Alcancy Áudio Estúdio, de Isac Nascimento |
No dia 5 de agosto de 2026, durante a IV Feira Literária e Cultural de Bom Jesus do Itabapoana, sua terra natal, Ademir de Souza foi agraciado com o título de Comendador e recebeu a Comenda Mestre do Saber e da Cultura Popular, conferida pela ACLAPTCTC, Academia Capixaba de Letras e Artes de Poetas e Trovadores. A homenagem representou o reconhecimento público de uma trajetória construída com talento, perseverança e profundo amor pela cultura popular.
Ademir Francisco de Souza, artisticamente conhecido como Ademir de Souza, é um homem cuja vida parece ter começado com uma melodia guardada no peito. Antes mesmo de conhecer os acordes, já escutava a música secreta dos encontros familiares, das conversas ao redor da mesa, dos risos que percorriam a casa e das vozes que se uniam para celebrar a existência.
Assim começou a história do artista nascido em Bom Jardim, distrito de Bom Jesus do Itabapoana, de onde partiu ainda menino, aos três anos de idade, em direção a São Gonçalo. Embora fosse muito pequeno quando deixou sua terra natal, levou consigo raízes que distância alguma conseguiria arrancar.
Nos encontros familiares dos fins de semana, a música era uma espécie de idioma comum. Uns cantavam, outros tocavam instrumentos; alguns dançavam e, na cozinha, entre pastéis, quitutes, aperitivos e a tradicional batida de limão, preparava-se também o alimento da memória. Naquelas reuniões simples e afetuosas, sem que ninguém percebesse inteiramente, despertava em Ademir o amor pela música, pela arte e pela poesia.
Aos 12 anos, porém, a vida alterou bruscamente o compasso. Sem condições de manter Ademir e seu irmão na escola, sua mãe precisou permitir que os filhos seguissem para o internato do Aprendizado Agrícola de Sacra Família, no município de Paulo de Frontin. Ali, Ademir permaneceu até os 18 anos. Era ainda um menino, mas já aprendia uma das lições mais duras da existência: às vezes, crescer não é uma escolha, mas uma exigência imposta pelas circunstâncias.
Ao deixar o internato, precisou cuidar da própria vida e ajudar a família. Sua primeira oportunidade de trabalho foi como servente de pedreiro. As mãos que, mais tarde, fariam brotar acordes do violão e do cavaquinho aprenderam primeiro a suportar o peso das ferramentas, a aspereza dos materiais e o cansaço dos dias longos.
Sua inteligência prática e sua disposição para aprender, entretanto, fizeram com que rapidamente dominasse o ofício. Aos 23 anos, já trabalhava por conta própria, erguendo paredes para sobreviver enquanto, dentro de si, construía silenciosamente os alicerces de um sonho.
A música jamais o abandonou. Ainda menino, com pouco acesso ao rádio e às revistas, Ademir guardava na memória as melodias das canções de sucesso e criava novas letras, misturando-as às originais. Não sabia, naquele tempo, que já estava compondo. A poesia chegara antes mesmo que ele pudesse dar nome ao próprio talento.
Depois, ao aprender os primeiros acordes no violão, compreendeu que aquelas palavras desejavam caminhar de mãos dadas com a música. E começou, verdadeiramente, a compor.
Das rodas de samba às casas noturnas, o caminho foi intenso, mas nunca fácil. Do violão passou ao cavaquinho; dos encontros informais, aos grupos de pagode. Na década de 1980, ao lado do amigo Dodinha, assumiu o Grupo Magia, conquistando reconhecimento nas reuniões de fundo de quintal, nos clubes e nas casas noturnas de São Gonçalo e Niterói.
Itaúna, Trindade, Alcântara, Mutondo, Barreto e tantos outros bairros testemunharam o crescimento daquele homem que aprendera a transformar luta em ritmo, saudade em canção e esperança em permanência.
Nos anos 1990, novos horizontes se abriram. Ao conhecer Chiquinho do Pandeiro, talentoso cantor de forró, Ademir foi convidado a integrar seu grupo como contrabaixista. Aprendeu outro estilo, ampliou sua experiência e descobriu novas possibilidades musicais. Também ingressou no universo do samba-enredo, participando do Grêmio Recreativo Escola de Samba Unidos do Valéria, no bairro de Itaúna. Cada experiência acrescentava uma nova nota à grande composição de sua vida.
Ademir soube ainda reconhecer e incentivar o talento dentro da própria casa. Ao perceber a vocação musical do filho Fabiano e de seu amigo e parceiro Leonardo, apoiou a gravação de um CD demonstrativo. Dessa iniciativa nasceu o trabalho da dupla Lene & Léo, com o álbum Universo de Prazer. Ao acompanhá-los na divulgação, aproximou-se profissionalmente das rádios, televisões e jornais, adquirindo conhecimentos que fortaleceriam sua própria caminhada artística.
Foi então que surgiu o CD Meus Caminhos. O título não poderia ser mais apropriado: cada faixa parecia guardar um pouco da estrada percorrida, dos obstáculos enfrentados e dos sonhos que resistiram ao tempo. O projeto, inicialmente sem grandes pretensões, cresceu graças ao incentivo dos amigos, à colaboração de músicos e parceiros e, sobretudo, à união com João Rodrigues Romão, natural do Crato, no Ceará.
Dessa parceria nasceu a empresa Eventos Musicais Amantes do Samba, que conferiu dimensão profissional a um sonho cultivado durante décadas.
Hoje, suas composições, gravações e produções encontram abrigo na AS Shows e Produções Artísticas. Nenhuma estrutura empresarial, contudo, seria capaz de resumir a grandeza de sua trajetória. A verdadeira obra de Ademir também está na perseverança daquele menino afastado precocemente do convívio familiar; no trabalhador que aprendeu um ofício para sustentar os seus; no pai que incentivou o talento do filho; e no artista que jamais permitiu que as dificuldades silenciassem a música que trazia na alma.
A história de Ademir de Souza é feita de partidas, aprendizados, trabalho, resistência e reencontros. É a história de alguém que saiu muito cedo de Bom Jardim, mas conservou consigo a musicalidade das reuniões familiares e a sensibilidade de sua terra natal. Sua vida ensina que as raízes não servem apenas para nos ligar ao lugar de origem: elas também nos alimentam quando precisamos atravessar longas distâncias.
Por isso, a homenagem recebida em Bom Jesus do Itabapoana possui um significado ainda mais profundo. Ao conceder-lhe a Comenda, sua terra natal não apenas reconheceu o artista consagrado, mas também acolheu simbolicamente o menino que dela partiu aos três anos, levando na alma uma música que o tempo jamais conseguiu apagar.
No meio de tijolos e acordes, entre a dureza da sobrevivência e a delicadeza da poesia, Ademir construiu os próprios caminhos. E cada uma de suas canções parece proclamar que nenhuma luta é capaz de vencer definitivamente aquele que continua ouvindo, no íntimo do coração, a primeira e inesquecível música de sua infância.

Este texto conseguiu mostrar um pouquinho da linda história de vida desse homem que nos mostra como um sonho pode virar realidade, pode até demorar, mas quando vc persevera a recompensa vem.
ResponderExcluirTe amo pai e me alegro em ver sua realização.