O Canto das Pedras e do Papel
Por Gino Martins Borges Bastos
Dr. Nino Moreira Seródio é um dos homens que não apenas habitam o tempo: ele o molda. Ele é assim, feito dessa matéria rara de quem não se cansa de surpreender o mundo com a beleza do seu agir. Para aqueles que caminham ao seu lado, suas ações são como ventos súbitos que sopram do oceano: trazem sempre uma boa nova, um alento, uma surpresa iluminada.
Durante anos, fomos testemunhas de sua devoção esculpida no mundo físico. Com as próprias mãos e recursos, ergueu o conjunto de prédios da Casa dos Açores do Espírito Santo. Um legado sólido, feito de pedra, ferro, suor e idealismo. Uma catedral de memórias onde o seu próprio coração escolheu morar para sempre, pois é ali, naquele solo abençoado por seus sonhos, que ele deseja descansar quando o ciclo da vida se fechar.
Mas a alma de um verdadeiro idealista não se confina à matéria. Quem age como sonha, e sonha com a mesma força com que age, sabe que o amor precisa de asas de papel para voar além do tempo.
Surgiu, então, a sua mais nova e comovente surpresa: A Minha Cidadania Portuguesa.
Se os edifícios eram a sua obra de pedra, este livro é o seu legado de alma. Mais do que um compêndio de folhas impressas, cada livro é um filho que se lança ao vento; uma semente de imortalidade. Nas páginas que agora nos entrega, Dr. Nino deixa de ser apenas o construtor do presente para se tornar o guardião do passado.
A obra é uma travessia afetiva. Parte da memória afetuosa do avô Jacintho Vieira Seródio e viaja no tempo até 1886, ano em que a família deixou a Lomba da Loução, no Concelho da Povoação, na majestosa Ilha de São Miguel. Ali, no meio das brisas e do mar profundo dos Açores, nasceu a coragem dos que atravessam o oceano carregando na bagagem apenas a esperança e o peso lírico da saudade.
O leitor é levado a sentir essa mesma maresia que cruzou o Atlântico até desembarcar no Brasil, na Fazenda São Domingos, no noroeste fluminense. É a saga da resiliência, do trabalho que transforma a terra estranha em lar sem jamais apagar o brilho das origens. A busca burocrática por uma certidão de nascimento transcende a mera papelada: entre arquivos, cartórios, fé viva e devoção profunda a Nossa Senhora de Fátima, converte-se em uma verdadeira romaria espiritual.
A cidadania que o Dr. Nino conquistou não cabe em um passaporte; é um estado do espírito. É o abraço definitivo entre a terra que o acolheu e as raízes que o geraram.
Costumamos, quase por vício, guardar os nossos louvores apenas para os grandes nomes que já habitam os livros de história. Olhamos para trás em busca de heróis. Mas há pessoas que demandam a nossa reverência no agora. Dr. Nino Moreira Seródio é essa força viva, presente e palpitante. Pelo amor incondicional às suas origens açorianas e por sua capacidade inesgotável de realizar, ele se fez imortal muito antes do fim.
É, como na máxima de Brecht, um daqueles que lutam a vida inteira. E por isso, Dr. Nino não é apenas admirável: ele é imprescindível.

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