Existem irmãs que, mesmo dividindo o mesmo sangue, já não conseguem reconhecer no rosto da outra a própria infância
A miséria material pode ser vencida. A moral, entretanto, é mais silenciosa
Em Os Miseráveis, Victor Hugo conhecia profundamente uma espécie de miséria que lentamente, vai também empobrecendo os afetos, até que o sangue, que deveria ser abrigo, se transforma em distância
Não apenas a miséria que deixa os bolsos vazios, mas a que invade a alma, modifica os gestos, endurece as palavras e, algumas vezes, transforma irmãos em estranhos.
Em muitas famílias, a pobreza despoja de quase tudo, menos das lembranças. Em outras a miséria, lentamente, vai também empobrecendo os afetos, até que o sangue, que deveria ser abrigo, se transforma em distância
As irmãs que aparecem à margem da grande narrativa de Hugo não precisam ocupar o centro da cena para nos ensinar alguma coisa. Elas pertencem a esse vasto coro de personagens que carregam consigo as marcas de uma sociedade desigual, onde nascer pobre significava, muitas vezes, começar a vida já devendo ao destino.
Essa é a grandeza de Victor Hugo: ele não olha apenas para os grandes personagens. Olha para os esquecidos. Para aqueles que atravessam a história quase sem deixar nome, como se a vida lhes tivesse negado até o direito de serem lembrados.
Nas relações entre irmãos, Hugo parece nos perguntar: o que acontece com o amor quando a necessidade fala mais alto? Até onde pode resistir o afeto quando a fome, a humilhação, o abandono e o ressentimento ocupam a mesma casa?
Algumas irmãs envelhecem juntas e permanecem distantes. Outras se afastam por uma palavra, por uma herança, por uma mágoa antiga. E existem as que, mesmo dividindo o mesmo sangue, já não conseguem reconhecer no rosto da outra a própria infância.
A miséria material pode ser vencida. A moral, entretanto, é mais silenciosa. Ela não se anuncia pela falta de pão, mas pela falta de compaixão.
Por isso, ao pensar nas personagens de Victor Hugo, devemos ampliar o significado da palavra miserável. Miserável não é somente quem nada possui. Miserável pode ser também aquele que possui muito e nada consegue oferecer ao outro; aquele que guarda dinheiro, orgulho ou ressentimento, mas já não guarda ternura.
As irmãs de Hugo pertencem a esse grande espelho humano de Os Miseráveis. Nele, reconhecemos não apenas a França do século XIX, mas a nossa própria humanidade.
No fim, a verdadeira tragédia não é nascer pobre.
É perder, por dentro, a capacidade de amar.

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