Na Praça Governador Portela, a notícia encontra o povo
Neste 30 de setembro, Dia do Jornaleiro, o jornal O Norte Fluminense, representado por André Luiz de Oliveira, entregou um certificado de reconhecimento aos jornaleiros bonjesuenses Jorge de Araújo Sampaio e Nara Pimentel do Carmo Sampaio, em homenagem à dedicação com que mantêm viva, em Bom Jesus do Itabapoana, uma das mais tradicionais e importantes profissões ligadas à comunicação.
Durante gerações, o jornaleiro ajudou o Brasil a despertar. Antes que a notícia coubesse na tela de um telefone e atravessasse o mundo em poucos segundos, ela precisava de mãos, passos e vozes. Precisava de alguém que a carregasse pelas ruas, enfrentando o frio das madrugadas, o calor das calçadas e a pressa das cidades.
O jornaleiro era o primeiro mensageiro do dia.
Muito cedo, quando as janelas ainda permaneciam fechadas e a cidade começava lentamente a respirar, ele já estava de pé. Recebia os jornais ainda perfumados pela tinta fresca, organizava os exemplares e saía para anunciar aquilo que o mundo havia vivido enquanto os outros dormiam.
Seu grito atravessava praças, esquinas e avenidas:
- Olha o jornal! As notícias do dia!
A profissão teria surgido no Brasil há cerca de 150 anos. Nos primeiros tempos, a distribuição era realizada por negros escravizados, que percorriam as ruas anunciando as principais manchetes para despertar a atenção dos transeuntes. Em 1858, A Atualidade tornou-se o primeiro jornal vendido avulsamente no país.
Era a notícia deixando os salões e as assinaturas particulares para encontrar o povo nas ruas.
No início do século XX, alguns jornaleiros passaram a utilizar cavalos, encurtando distâncias e acelerando a circulação das informações. Homem e animal atravessavam as ruas levando notícias políticas, fatos policiais, anúncios comerciais, acontecimentos esportivos e histórias da vida cotidiana.
Cada exemplar entregue de mão em mão parecia conter um pedaço do mundo.
Muitos jornaleiros eram imigrantes italianos. Inicialmente, acomodavam os periódicos sobre caixotes cobertos por tábuas. Foi o italiano Carmine Labanca, no Rio de Janeiro, quem construiu um dos primeiros pontos fixos destinados à venda de jornais. De seu sobrenome teria nascido a palavra “banca”, que atravessou o tempo e se incorporou definitivamente ao vocabulário das cidades brasileiras.
Os caixotes ganharam estruturas de madeira. Mais tarde, sobretudo a partir da década de 1950, surgiram as bancas de metal. Algumas cresceram, receberam iluminação, ventilação, pisos revestidos e novas mercadorias. Apesar das transformações, continuaram guardando sua essência: eram pequenas casas da palavra, vitrines abertas para o conhecimento e pontos de encontro entre leitores.
Na banca, comprava-se muito mais do que papel.
Comprava-se o jornal que ajudava a compreender a política; a revista que mostrava lugares distantes; a publicação esportiva que alimentava paixões; o gibi que despertava a imaginação das crianças; e a coleção que, semana após semana, construía pequenas bibliotecas dentro dos lares.
Houve um tempo, porém, em que muitos desses mensageiros eram meninos. Para vender mais exemplares, caminhavam pelas ruas até altas horas e, não raramente, dormiam nas calçadas. Foi para acolhê-los que surgiu, em 1940, a Casa do Pequeno Jornaleiro, principal projeto da Fundação Darcy Vargas.
A instituição oferecia abrigo noturno e permitia que aqueles jovens frequentassem aulas e cursos profissionalizantes sem abandonar imediatamente o trabalho que lhes assegurava a sobrevivência. Com o advento do Estatuto da Criança e do Adolescente, em 1990, sua missão foi transformada, passando a oferecer reforço escolar e atividades complementares às crianças e aos adolescentes.
Até as palavras guardam a memória dessa profissão.
“Jornal” deriva do latim diurnalis, ligado ao dia e ao registro cotidiano dos acontecimentos. O “gazeteiro”, como também era chamado o vendedor de jornais, acabou emprestando seu nome ao estudante que faltava às aulas para permanecer diante das bancas, encantado com jornais e revistas. E “gazeta” remonta à gazetta, antiga moeda veneziana relacionada ao preço das primeiras publicações.
Assim, a história do jornaleiro também permanece escrita na língua que falamos.
Uma homenagem aos jornaleiros de Bom Jesus
Em Bom Jesus do Itabapoana, essa tradição permanece viva pelas mãos de Jorge de Araújo Sampaio e Nara Pimentel do Carmo Sampaio, que há quatro anos exercem seu ofício na Praça Governador Portela, coração da cidade.
Ali, por onde diariamente passam trabalhadores, estudantes, aposentados, visitantes e famílias, Jorge e Nara mantêm aberta uma pequena janela para o mundo. A praça muda de luz, as árvores acompanham as estações e as pessoas atravessam seus caminhos apressadamente. Eles, contudo, permanecem em seu posto, acolhendo os leitores com atenção, cordialidade e dedicação.
Jorge e Nara não entregam apenas jornais e revistas. Entregam informação, cultura e conhecimento. Em cada publicação colocada nas mãos de um leitor, ajudam a preservar o antigo e precioso hábito da leitura impressa: esse encontro silencioso entre os olhos, o papel e o pensamento.
Sua presença na Praça Governador Portela já integra a paisagem humana e afetiva de Bom Jesus do Itabapoana. Eles testemunham o despertar da cidade, acompanham seu movimento cotidiano e ajudam a manter viva uma profissão que atravessou gerações e resistiu a profundas mudanças tecnológicas.
Hoje, as notícias chegam instantaneamente. As manchetes iluminam pequenas telas antes mesmo que o sol alcance as janelas. Muitas bancas desapareceram, e o silêncio ocupou esquinas onde antes havia vozes, conversas e páginas sendo folheadas.
Nenhuma tecnologia, entretanto, apagará a importância daqueles que fizeram, e ainda fazem, a informação circular.
O jornaleiro não vende apenas jornais. Ele distribui consciência, cultura, imaginação e cidadania. É testemunha das transformações de sua cidade, conhece seus leitores e sabe qual publicação cada um espera. Em sua banca, o cotidiano encontra a história; e a história, ainda guardada no papel, passa de suas mãos para as mãos do povo.
Neste 30 de setembro, a homenagem de O Norte Fluminense alcança todos os jornaleiros do Brasil, mas repousa especialmente sobre Jorge de Araújo Sampaio e Nara Pimentel do Carmo Sampaio, dignos representantes dessa valorosa profissão em Bom Jesus do Itabapoana.
Que a Praça Governador Portela continue sendo não apenas o coração geográfico da cidade, mas também o lugar onde a notícia, a leitura e a amizade se encontram.





Nenhum comentário:
Postar um comentário