O Uzbequistão não encontrou casualmente uma geração de campeões. Plantou o xadrez nas escolas, alimentou sonhos, formou treinadores e ofereceu aos jovens a possibilidade de enxergar o tabuleiro como uma estrada para o mundo.
![]() |
| Uzbequistão venceu hoje a Armênia por 3,5 a 0,5. |
![]() |
| Presença maciça do povo do Uzbequistão, acompanhando e vibrando com as partidas de seus jovens heróis |
Em Samarcanda, onde antigas caravanas atravessavam a Rota da Seda levando especiarias, histórias e sonhos, agora são os cavalos de madeira que avançam silenciosamente. As torres vigiam horizontes, os bispos cortam as diagonais do tempo e jovens enxadristas carregam sobre os ombros a esperança de um país inteiro. Na 46ª Olimpíada de Xadrez, o Uzbequistão não disputa apenas uma medalha: escreve, diante de sua própria gente, um dos capítulos mais luminosos de sua história.
A derrota diante da Alemanha, na oitava rodada, poderia ter aberto uma ferida. Contudo, as grandes equipes são reconhecidas não pelos momentos em que jamais caem, mas pela dignidade e pela força com que se levantam. E o Uzbequistão levantou-se como quem conhece o próprio destino.
Na rodada seguinte, os jovens anfitriões encontraram pela frente os Estados Unidos, principais cabeças de chave da competição. Era uma seleção de estrelas, formada por nomes consagrados do xadrez mundial. Mas, sobre os tabuleiros, reputações não movem peças. Quem move as peças são as mãos, e, por trás delas, a coragem.
Nodirbek Abdusattorov enfrentou Fabiano Caruana no primeiro tabuleiro. Em um final que parecia caminhar sobre o fio estreito do equilíbrio, o norte-americano vacilou. Abdusattorov percebeu a oportunidade e avançou com a precisão daqueles que não temem os grandes momentos. Sua vitória foi mais do que um ponto: foi o clarim que despertou Samarcanda.
No terceiro tabuleiro, Nodirbek Yakubboev derrotou Hans Niemann e confirmou a força dos dois Nodirbeks. Dois nomes semelhantes, duas inteligências extraordinárias, dois jovens conduzindo o mesmo sonho. Mesmo com a derrota de Javokhir Sindarov para Wesley So, o empate de Mukhiddin Madaminov fechou o confronto em 2½ a 1½. O Uzbequistão havia vencido os Estados Unidos e retomado, de maneira isolada, a liderança da Olimpíada.
Não houve arrogância na vitória. Havia ainda uma longa travessia.
Na décima e penúltima rodada, a equipe principal enfrentou a Armênia. Novamente, a pressão estava presente: a torcida, a proximidade do ouro e o peso de jogar em casa. Mas os jovens uzbeques souberam transformar expectativa em energia. Javokhir Sindarov, derrotado no dia anterior, regressou ao tabuleiro com a serenidade dos que compreendem que uma queda não apaga uma caminhada. Sua vitória foi uma resposta dada sem palavras, apenas com lances.
O placar de 3,5 a 0,5 sobre os armênios levou o Uzbequistão aos 18 pontos, isolado na liderança, um ponto à frente da Índia. Nove vitórias em dez confrontos. Depois da derrota para a Alemanha, duas respostas consecutivas: Estados Unidos e Armênia. Não foi somente técnica. Foi maturidade, resistência psicológica e consciência coletiva.
E há algo ainda mais profundo acontecendo em Samarcanda. A segunda equipe do país também encantou a competição. O Uzbequistão 2, apenas o trigésimo cabeça de chave, ousou enfrentar as grandes potências como se desconhecesse o significado da palavra medo. Sua goleada por 3½ a ½ sobre a Holanda, em rodada anterior, revelou ao mundo que o fenômeno uzbeque não se limita a quatro ou cinco jogadores. Há uma geração inteira surgindo às margens da antiga Rota da Seda.
O brilho da equipe secundária, mesmo diante dos naturais tropeços de uma competição tão exigente, testemunha a profundidade de um projeto nacional. O Uzbequistão não encontrou casualmente uma geração de campeões. Plantou o xadrez nas escolas, alimentou sonhos, formou treinadores e ofereceu aos jovens a possibilidade de enxergar o tabuleiro como uma estrada para o mundo.
Abdusattorov, Sindarov, Yakubboev, Vokhidov, Madaminov e tantos outros não são estrelas solitárias. Constituem uma constelação. Cada um possui luz própria, mas todos iluminam a mesma bandeira.
O Uzbequistão chega à última rodada dependendo apenas de si. Uma vitória assegurará o título. Um empate ainda poderá conduzi-lo ao ouro pelos critérios de desempate. Mas, qualquer que seja o desfecho, algo já se tornou incontestável: o país deixou de ser uma promessa do xadrez mundial. É uma potência.
Em Samarcanda, as antigas cúpulas azuis parecem contemplar os jovens jogadores. Talvez guardem a lembrança de outras caravanas, de outros viajantes e de outros impérios. Desta vez, porém, não são mercadores que atravessam a cidade. São reis, damas, torres, bispos, cavalos e peões.
E todos parecem marchar na mesma direção.
Na direção do ouro.
Na direção da História.


Nenhum comentário:
Postar um comentário