Na Parede do Clube, a Memória do Brasil
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| 30 de julho de 2017: inauguração do Teto Metálico do Santa Isabel FC |
Nas paredes do Santa Isabel Futebol Clube, o baiano radicado em Campos dos Goytacazes, Délio Porto, abriu uma janela para um Brasil onde as distâncias deixam de existir. Com pincéis mergulhados em lembranças, ele fez a Bahia atravessar estradas, rios e montanhas até chegar ao coração de Bom Jesus do Itabapoana.
Sob os coqueiros pintados, surgem as baianas com seus vestidos rodados, seus turbantes e a majestade serena de quem carrega séculos de fé, resistência e beleza. Parecem ter acabado de chegar de Salvador, trazendo no corpo o movimento das águas da Baía de Todos-os-Santos, o perfume do acarajé e os acordes de uma música antiga.
Mas Délio Porto não pintou apenas personagens da Bahia. Entre aquelas figuras, misturou rostos, gestos e lembranças da gente de Santa Isabel. O artista aproximou universos: colocou lado a lado a baiana e o trabalhador da usina, o músico nordestino e o tocador das festas locais, a mulher do Recôncavo e as senhoras que ajudaram a construir, com trabalho e esperança, a história daquele bairro.
Assim, a parede deixou de ser parede. Tornou-se uma grande praça imaginária, onde os personagens baianos conversam com os moradores de Santa Isabel. Ali, ninguém é estrangeiro. Todos pertencem à mesma celebração popular.
Talvez por isso a pintura pareça possuir música. Há nela um som que não se escuta apenas com os ouvidos. É o batuque distante da Bahia misturado ao apito da antiga usina, à sanfona das festas, ao murmúrio das conversas e às alegrias vividas na sede do clube. Cada cor guarda uma voz; cada personagem parece contar uma história.
Délio Porto compreendeu que a cultura brasileira nasce justamente desses encontros. A Bahia que ele levou às paredes do Santa Isabel não é uma paisagem distante: é uma ancestralidade que também vive entre nós. E os personagens locais, ao surgirem ao lado das baianas, deixam de pertencer apenas à memória do distrito para integrar um painel maior, o próprio retrato do povo brasileiro.
Durante muitos anos, aqueles desenhos acompanharam festas, reuniões, músicas, danças e reencontros. Viram crianças crescerem, famílias se reunirem e gerações passarem. Permaneceram no alto, silenciosos e atentos, como guardiões coloridos da história do clube.
Hoje, contemplar essa obra é ouvir novamente as vozes do passado. É perceber que Délio Porto não pintou somente figuras numa parede. Pintou uma confraternização entre povos, lugares e tempos. Fez da sede do Santa Isabel Futebol Clube um território de comunhão, onde a Bahia abraça Bom Jesus e onde a arte transforma pessoas comuns em personagens eternos.
Sempre que restar uma cor naquela parede, as baianas continuarão dançando, os músicos continuarão tocando e os antigos moradores de Santa Isabel continuarão regressando ao clube.
Aquilo que a arte acolhe jamais desaparece por inteiro.
E, nas paredes pintadas por Délio Porto, a Bahia e Santa Isabel permanecerão para sempre irmanadas, celebrando, juntas, a beleza, a memória e a alma generosa do povo brasileiro.

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