Existem coisas que não servem para nada, e talvez justamente por isso sejam indispensáveis.
Um pombo criado sem a intenção de levá-lo à mesa. Uma roseira plantada sem a ansiedade de colher suas flores. Uma página escrita sem contrato, aplauso ou promessa de publicação. Gestos assim parecem inúteis aos olhos de um mundo que deseja transformar tudo em mercadoria, vantagem ou resultado.
Mas é nesse território sem cálculos que a vida recupera sua beleza.
Amar o inútil é oferecer água a uma planta cuja sombra talvez acolha apenas aqueles que virão depois de nós. É ensinar uma criança sem esperar que ela se recorde de nosso nome. É preservar uma fotografia antiga, mesmo quando quase todos os rostos nela retratados já partiram. É manter acesa a memória de uma cidade, de uma família ou de um amigo, ainda que ninguém tenha pedido.
O útil resolve as necessidades do dia. O inútil, porém, alimenta a eternidade.
Os pássaros não sabem que seu canto torna as manhãs mais bonitas. As flores desconhecem o consolo que oferecem aos corações entristecidos. Talvez o escritor jamais saiba quem encontrou companhia em suas palavras numa noite de solidão. Ainda assim, pássaros cantam, roseiras florescem e escritores continuam entregando ao papel aquilo que não cabe dentro do peito.
Há uma espécie de santidade em fazer alguma coisa sem esperar nada em troca. O gesto deixa de ser negócio e transforma-se em dádiva. Já não nasce da esperança de receber, mas da necessidade íntima de repartir.
Quem ama somente o que lhe traz proveito ainda não conheceu toda a grandeza do amor. O verdadeiro afeto não pergunta quanto receberá de volta. A mãe não contabiliza as noites em claro. O amigo sincero não apresenta a conta de sua lealdade. Quem planta uma árvore não exige que ela pronuncie seu nome quando oferecer os primeiros frutos.
Precisamos, sim, amar o inútil. Escrever a carta que talvez nunca seja respondida. Fazer a visita que não renderá fotografia. Cultivar amizades sem interesse. Contemplar demoradamente o entardecer. Guardar histórias antigas. Conversar com os pássaros. Plantar roseiras nos terrenos da alma.
Ao final, quando tudo aquilo que parecia tão útil perder sua importância, compreenderemos que foram justamente essas coisas feitas sem cálculo, o abraço, a flor, a palavra, o canto e a memória, que deram verdadeiro sentido à nossa passagem pela Terra.

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