Quando a 133ª Desafiou a 31ª
Em Samarcanda, antiga cidade atravessada pelas memórias da Rota da Seda, o xadrez voltou a ensinar uma de suas lições mais belas: diante do tabuleiro, não existem gigantes invencíveis nem pequenos condenados à derrota. Existem apenas dois exércitos, sessenta e quatro casas e a coragem de quem se dispõe a lutar.
Nesta quarta-feira, 16 de setembro, o Brasil iniciou sua caminhada na 46ª Olimpíada de Xadrez como amplo favorito diante de Botswana. A equipe brasileira ocupa a 31ª posição entre as cabeças de chave da competição; a seleção africana aparece apenas na 133ª. Entre ambas havia uma distância de mais de cem posições, um abismo nos números, mas não no espírito.
Botswana atravessou esse abismo.
Sem se intimidar com os títulos dos adversários, seus enxadristas sentaram-se diante dos brasileiros e fizeram do silêncio do salão uma declaração de independência. Cada lance parecia dizer que o xadrez não pertence somente às grandes escolas, às federações tradicionais ou aos nomes consagrados. O xadrez pertence também a quem acredita.
No primeiro tabuleiro, o mestre internacional Providence Oatlhotse derrotou o grande mestre Alexandr Fier. Não foi apenas um ponto conquistado: foi o instante em que a lógica começou a vacilar. No quarto tabuleiro, Mogotsi Arnold Mothudi, sem título internacional e com rating consideravelmente inferior, venceu o mestre internacional Roberto Molina. Foi quando a surpresa deixou de ser uma possibilidade e ganhou a forma definitiva de um resultado histórico.
Brasil 2, Botswana 2.
O placar percorreu o salão de Samarcanda como um vento vindo das planícies africanas. A 133ª equipe da classificação inicial havia contido a 31ª. Uma das maiores surpresas da rodada estava consumada.
Para o Brasil, ficou a lição severa de que nenhuma partida está vencida antes do primeiro movimento. A camisa, os títulos e o favoritismo não movem as peças. No xadrez, como na vida, cada conquista precisa ser novamente merecida.
Para Botswana, porém, o empate teve o brilho de uma vitória. Foi a recompensa dada àqueles que chegaram sem o peso das expectativas, mas carregando a liberdade dos que nada têm a perder e um mundo inteiro a conquistar.
Enquanto isso, a equipe feminina brasileira escreveu uma página perfeita, vencendo seu confronto por 4 a 0 contra a Mauritânia. As brasileiras caminharam com segurança sobre os tabuleiros e fizeram uma estreia luminosa, conquistando os dois pontos de match e todos os quatro pontos individuais.
O primeiro dia, portanto, ofereceu ao Brasil duas faces do xadrez: a alegria plena da equipe feminina e o inesperado tropeço da equipe absoluta. Ainda restam muitas rodadas, batalhas e caminhos pela frente.
Mas a primeira jornada da Olimpíada de Samarcanda já encontrou sua imagem inesquecível: Botswana, pequeno nos números e imenso diante do tabuleiro, lembrando ao mundo que, quando as peças começam a se mover, toda hierarquia pode desmoronar, e até o mais distante peão pode sonhar em se tornar rainha.

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