terça-feira, 15 de setembro de 2026

DE SAMARCANDA A BOM JESUS: O MUNDO REUNIDO DIANTE DO TABULEIRO NA OLIMPÍADA DE XADREZ


Da Rota da Seda às margens do Itabapoana





Na antiga Samarcanda, onde durante séculos caminharam mercadores, viajantes, sábios e poetas, o mundo voltou a se encontrar. Desta vez, não para negociar sedas, especiarias ou pedras preciosas, mas para celebrar uma linguagem silenciosa e universal: o xadrez.

Na noite de 15 de setembro de 2026, a lendária cidade do Uzbequistão abriu solenemente a 46ª Olimpíada de Xadrez. Às margens do canal da Rota da Seda, o Anfiteatro Boqiy Shahar recebeu mais de duas mil pessoas para uma cerimônia que pareceu ter saído das páginas encantadas de um livro oriental.

Durante quase duas horas, o xadrez deixou de ser apenas o movimento silencioso das peças e ganhou música, luzes, cores e movimento. Mais de cem músicos e duzentos bailarinos e cantores transformaram o anfiteatro em um vasto palco de beleza. Houve ópera, danças coreografadas, unidades militares, trajes tradicionais e a delicada distribuição de doces em cestas ornamentadas, antigo gesto de hospitalidade de um povo que abriu suas portas para o mundo.

Os hinos do Uzbequistão e da Federação Internacional de Xadrez elevaram-se solenemente pela noite de Samarcanda. Em seguida, projeções tridimensionais envolveram o cenário, enquanto drones desenharam peças de xadrez no céu. Reis, damas, torres, bispos, cavalos e peões pareciam flutuar acima da cidade, como se o próprio firmamento houvesse se transformado num imenso tabuleiro.

O primeiro-ministro do Uzbequistão, Abdulla Aripov, levou aos presentes a saudação do presidente da República. Depois, Viswanathan Anand, pentacampeão mundial e presidente interino da FIDE, dirigiu palavras de acolhimento aos enxadristas. Sua presença simbolizava a grandeza de um esporte que une gerações, povos e culturas.

Coube à ex-campeã mundial Zhu Chen e ao ex-campeão mundial uzbeque Rustam Kasimdzhanov realizar o tradicional sorteio das cores para a primeira rodada. Em um gesto simples, peças brancas e pretas foram retiradas de caixas tradicionais. Assim, entre símbolos da milenar cultura oriental, começou a ser escrito o destino esportivo da competição.

Ao final, centenas de jogadores subiram ao palco. Música, dança e fogos de artifício iluminaram a noite. Por alguns instantes, adversários deixaram de existir. Ali estavam apenas mulheres e homens vindos dos mais diferentes países, unidos pela mesma paixão e pelo mesmo sonho.

Michael Rahal, jornalista da FIDE que presenciou até mesmo as cerimônias dos Jogos Olímpicos de Barcelona de 1992, afirmou que nenhuma delas se aproximou do que viu em Samarcanda. Talvez porque aquela noite não tenha sido apenas uma solenidade de abertura. Foi um encontro entre o passado e o futuro, entre a tradição e a juventude, entre a memória da Rota da Seda e os caminhos que o xadrez ainda abrirá.

A Olimpíada nasce histórica, reunindo o recorde de 400 equipes, 208 na categoria Aberta e 192 na Feminina. Cada tabuleiro será uma pequena representação do mundo. Cada partida contará uma história de coragem, cálculo, sacrifício e esperança. E, a milhares de quilômetros de Samarcanda, Bom Jesus do Itabapoana também estará diante desse grande tabuleiro.

Por meio do jornal O Norte Fluminense, nossa terra acompanhará os lances, as vitórias, as surpresas e as emoções da maior celebração mundial do xadrez. Das margens do lendário canal da Rota da Seda às margens do rio Itabapoana, haverá uma ponte invisível construída por torres, cavalos e peões.

Quando a primeira peça for movimentada, na quarta-feira, 16 de setembro, Samarcanda será a capital mundial do xadrez. E Bom Jesus, com os olhos voltados para o Uzbequistão, também fará parte dessa história.

O xadrez não conhece distâncias. Sempre  haverá um tabuleiro e alguém sonhando com o próximo lance.    Sempre haverá uma nova estrada unindo povos, cidades e corações.















 

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