quinta-feira, 17 de setembro de 2026

"Os mapas de meu pai", por Gino Martins Borges Bastos

 


Há quem diga que, à medida que a idade avança, as lembranças se tornam mais nítidas. O tempo pode até enfraquecer os passos, mas parece aguçar os caminhos da memória, fazendo ressurgir cenas que julgávamos guardadas para sempre nas gavetas silenciosas da infância.

Uma dessas recordações me leva aos domingos no antigo Colégio Rio Branco. Meu pai, Luciano Bastos, então diretor do educandário, costumava dedicar algumas tardes ao trabalho na secretaria. E, para minha felicidade, levava-me consigo.

Ao entrarmos naquele prédio silencioso, tão diferente dos dias movimentados de aula, ele me conduzia até a biblioteca. Sentava-me diante de uma mesa e colocava à minha frente mapas geográficos, folhas de papel em branco e um conjunto de canetinhas coloridas e perfumadas.

Em seguida, meu pai se retirava para cumprir suas tarefas, enquanto eu permanecia ali, viajando sem sair do lugar.

Diante de meus olhos infantis, o mundo inteiro se abria. Os contornos dos países, os mares, os continentes e a diversidade das bandeiras despertavam em mim um encantamento difícil de explicar. Eu desenhava mapas, reproduzia bandeiras e inventava viagens, guiado pelas cores e pelo perfume daquelas canetinhas, que ainda hoje permanece vivo em minha memória afetiva.

Naquela biblioteca, aos domingos, enquanto o silêncio envolvia o velho Colégio Rio Branco, meu pai me oferecia muito mais do que papel, mapas e tintas. Sem discursos ou lições formais, ele me apresentava o mundo e me ensinava que o conhecimento também pode nascer do afeto, da curiosidade e da liberdade de imaginar.

Foi ali que surgiu meu apreço pela geografia e pelas bandeiras dos países. Cada mapa era uma janela; cada bandeira, uma história; cada cor, um convite para conhecer povos e lugares distantes.

Hoje compreendo que meu pai não me deixava simplesmente entretido enquanto trabalhava. Ele semeava. E certas sementes, quando plantadas pelas mãos de um pai, atravessam o tempo, criam raízes na alma e florescem por toda a vida.

Luciano Bastos já não está fisicamente entre nós, mas continua caminhando comigo pelos mapas da existência. E, quando a memória me conduz novamente àquela biblioteca, ainda encontro sobre a mesa as folhas em branco, as bandeiras do mundo e as canetinhas cheirosas.

Então, por alguns instantes, volto a ser criança. Meu pai está apenas na sala ao lado. E o mundo inteiro, colorido e imenso, continua diante de mim.


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