50 Anos de Fé e História
Entrevista com Maria de Fátima Menezes Pelegrini, atual proprietária e responsável pelo cuidado do Calvário da Família Pelegrini, em Varre-Sai. Nora do antigo proprietário, Sr. José Antônio Pelegrini, e esposa do herdeiro José Arcizo Pelegrini, Maria de Fátima assumiu a responsabilidade pela preservação e pelos cuidados da Capela de Nossa Senhora do Perpétuo Socorro e do Calvário, após o falecimento de seu esposo, dando continuidade a uma história de fé, devoção e tradição familiar.
O NORTE FLUMINENSE- Em que data o Calvário foi inaugurado?
FÁTIMA- Em 14 de setembro de 1976
O NORTE FLUMINENSE- Quem teve a ideia de construir o Calvário no morro ao lado da mata?
FÁTIMA: Monsenhor José Possidente era amigo da família e numa de suas conversas dom o sr. José Antônio, manifestou o desejo de construir um Calvário. O pároco na época era o Pe. Antônio Alves de Siqueira e acolheu a ideia e gerenciou a construção patrocinada pela família Pelegrini.
O NORTE FLUMINENSE- Por que escolheram aquele lugar para a construção?
FÁTIMA- Por ser um local ao lado da mata e coberto por pastagens.
O NORTE FLUMINENSE- Como foi a inauguração? Houve missa, procissão, bênção ou alguma outra celebração?
FÁTIMA- A família subiu o Calvário, juntamente com os sacerdotes e fieis, em número de umas 300 pessoas. Cada filho rezou uma estação da Via Sacra. Eram 13 filhos e o sr. José Antônio rezou na décima quarta estação, que é Jesus sendo depositado no sepulcro.
(OBS: A Via Sacra tradicional é composta por 14 estações que retratam os passos de Jesus Cristo desde a sua condenação até o sepultamento) Padre Antônio de Monsenhor José Possidente, na época ainda não tinha esse título, benzeram cada cruz, que foram feitas de braúna, madeira de lei. Chegando houve missa campal e coroação de Nossa Senhora, num total de três horas de cerimônias.
O NORTE FLUMINENSE- Quem participou da construção e da inauguração? Há pessoas da família ou da comunidade que você gostaria de mencionar?
FÁTIMA- José Arcizo e os irmãos fizeram as cruzes de baraúna e construíram o Calvário. Participaram deste dia de festa, além da família, os fieis católicos mais próximos e alguns que permanecem muito na memória como Sr. João Batista de Oliveira(Batista Barba), sua esposa Luciene, Sr. Quito Pimentel e família e dona Neuza Ramos que me trouxe de carro.
O NORTE FLUMINENSE- Você se recorda de como era o local há 50 anos, antes da construção do Calvário?
FÁTIMA- Eram pastagens de capim gordura.
O NORTE FLUMINENSE- Que importância o Calvário tinha para seu sogro, sr.José Antônio Pelegrini, para sua cunhada Euvira, que era a Baboa, para os irmãos após a partida prematura da mãe?
FÁTIMA- Para eles era um lugar onde a história da família mudou a direção. Todos que chegavam, o assunto era o Calvário. Era o ponto central da fé e a união da família. Pois ainda não havia a capela, que foi construída posteriormente pelo José Arcizo. Era somente um Centro Catequético, numa varanda, com catecismo todos os domingos e missa uma vez ao mês. Então o Calvário foi muito marcante.
O NORTE FLUMINENSE- E para seu esposo, José Arciso Pelegrini? O que ele representava para ele?
FÁTIMA-José Arcizo pensava e dizia: - Essas cruzes ficarão para sempre. Braúna não acaba. Dizia também: - Despois da cruz sempre há uma esperança de vida nova. Sentia muito orgulho de ter sido ele próprio, ainda rapaz solteiro, ter serrado a madeira e feito as cruzes.
O NORTE FLUMINENSE- Existem histórias, promessas, orações ou acontecimentos ligados ao Calvário que ficaram guardados na memória da família?
FÁTIMA- Sim. Não só a família, mas muitos fieis de Varre-Sai. Cada pessoa que visita o Calvário tem a sua história de fé e benesses divinas, guardada na lembrança. Jesus sempre responde aos devotos de sua paixão e morte de cruz.
O NORTE FLUMINENSE- Depois da morte de seu sogro, da Baboa e de seu esposo, o que fez você decidir conservar e cuidar do Calvário?
FÁTIMA- O amor pela história dessa família também se tornou parte da minha própria história. Quando me casei com José Arcizo, passei a fazer parte dessa trajetória, e as memórias, as lutas, a fé e as tradições de sua família passaram a ser também minhas. Hoje, essa história se perpetua por meio dos nossos filhos e netos, que carregam consigo um pouco desse legado familiar.
O NORTE FLUMINENSE- O que esse Calvário representa para você hoje?
FÁTIMA- Representa perdão e recomeço em todas as fases da vida. O Calvário onde Jesus subiu para dar a própria vida, foi onde o amor venceu, onde fomos perdoados e onde a nossa dor, por maior que seja, ganha um sentido de esperança. É o ensinamento que passo para meus filhos e netos.
O NORTE FLUMINENSE- Ao longo desses 50 anos, você percebeu pessoas da comunidade procurando aquele lugar para rezar, agradecer ou fazer pedidos?
FÁTIMA- Sim. Várias pessoas, não só da comunidade, mas de outros lugares. O local hoje é parte do roteiro turístico de Varre-Sai.
O NORTE FLUMINENSE- Houve algum momento em que você pensou e desistir de cuidar do Calvário? O que a fez continuar?
FÁTIMA-A fé sempre me deu forças para continuar.
O NORTE FLUMINENSE- Se pudesse conversar hoje com seu sogro e com seu esposo diante daquele Calvário, o que você diria a eles?
FÁTIMA- Obrigada por terem construído o Calvário. Vocês construíram memórias de fé em nossa comunidade.
O NORTE FLUMINENSE- Que mensagem você gostaria de deixar para as novas gerações de sua família, sobre a importância de preservar esse lugar?
FÁTIMA- Quando eu não tiver mais condições, procurem preservar este lugar de fé e história familiar. E assim, outras gerações possam receber graças por meio deste Calvário, como as que são derramadas atualmente em nossas vidas.
O NORTE FLUMINENSE- Daqui a 50 anos, o que você gostaria que as pessoas de Varre-Sai soubessem sobre o Calvário da família Pelegrini?
FÁTIMA- Espero que ele ainda esteja aqui, sendo visitado por muitas pessoas de fé. E que essas pessoas saibam, que cada cruz tem uma história, pois representa cada filho do senhor José Antônio Pelegrini e suas famílias que se multiplicam.
O NORTE FLUMINENSE- Este Calvário atravessou 50 anos e permaneceu de pé mesmo depois da partida de pessoas tão importantes para a família. Se você tivesse que explicar, com suas próprias palavras, por que ele continua existindo e o que ele significa para você, o que diria?
FÁTIMA- Ele foi construído pela fé e ainda existe pela fé. A vida é um longo caminho, onde a gente vai carregando a saudade passo a passo. Atualmente as cruzes ainda estão de pé devido a minha dedicação em manter esse legado de fé e de história deixado pelos queridos que já partiram. Nós somos instrumentos de Deus para a preservação da fé e da religião católica fundada por Jesus Cristo. Aqui no sítio, tenho minha casa, moram um filho e uma filha, com suas famílias, em suas respectivas casas, duas filhas também possuem patrimônio aqui e estamos juntos em todos os finais de semana. Temos o calvário, a capela, os chalés e o Ateliê na Serra. Funcionamos como ponto turístico em Varre-Sai. E como instrumento de Deus, eu ainda estou aqui para preservar essa história de fé, amor e união familiar.
(Entrevista elaborada e redigida por Isabel Cristina Menezes Degli Esposti, Professora e historiadora)









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