domingo, 27 de setembro de 2026

Samarcanda revelou um Brasil sem rumo no xadrez: não faltam talentos; falta um projeto


Um país continental, com mais de duzentos milhões de habitantes, deveria perguntar quantas crianças estão aprendendo xadrez nas escolas, quantos talentos abandonaram o esporte por falta de apoio, quantos mestres vivem sem condições adequadas de treinamento e quantas enxadristas promissoras desapareceram antes mesmo de alcançar o cenário internacional

Enquanto o mundo forma campeões, o Brasil improvisa

Brasil em xeque: dignidade individual, abandono coletivo

Sem investimento, não há milagre no tabuleiro

A distância crescente entre o Brasil e a elite

Quem permanece imóvel também retrocede

Brasil em xeque no cenário mundial

A perigosa normalização do retrocesso

Quando “cumprir as expectativas” significa não evoluir

O silêncio brasileiro diante do avanço mundial

O futuro retirado lentamente do tabuleiro

O declínio silencioso do xadrez brasileiro



As bandeiras foram recolhidas em Samarcanda. Silenciaram-se os relógios, cessaram os passos apressados entre os tabuleiros e a 46ª Olimpíada de Xadrez entregou seus últimos vereditos. Para o Brasil, ficaram a dignidade da luta e o esforço de seus representantes, mas também números que não podem ser escondidos sob o manto confortável da participação honrosa.

No torneio absoluto, o Brasil iniciou a competição como a 31ª força e terminou na 39ª colocação, entre 206 seleções. No feminino, partiu da 44ª posição e encerrou sua jornada no 57º lugar, entre 189 equipes. Foram quedas de oito e treze posições, respectivamente.

Pode-se dizer que os resultados ficaram próximos das expectativas produzidas pelos ratings. Pode-se lembrar que o sistema suíço é severo, que os confrontos foram difíceis e que a diferença entre muitas seleções é mínima. Tudo isso é verdadeiro. Mas há verdades que, repetidas demasiadamente, transformam-se em cortinas destinadas a esconder outra realidade: o Brasil está perdendo espaço no mapa mundial do xadrez.

Não se trata de atribuir culpa aos enxadristas que viajaram até a Ásia Central. Eles fizeram o que estava ao seu alcance, enfrentaram adversários fortes e defenderam a bandeira brasileira com seriedade. O problema não está naqueles que se sentaram diante dos tabuleiros. Está no imenso vazio que permanece atrás de suas cadeiras.

Enquanto países como Uzbequistão, Índia e China transformaram o xadrez em política de formação, o Brasil ainda sobrevive de esforços individuais, sacrifícios familiares, clubes resistentes e alguns professores que insistem em manter acesa a chama. Lá, jovens talentos são descobertos, acompanhados e preparados. Aqui, muitas promessas precisam escolher entre competir e sobreviver.

O Uzbequistão apresentou ao mundo uma geração com pouco mais de 20 anos capaz de derrotar as maiores potências do planeta. Não foi um milagre surgido nas areias de Samarcanda. Foi consequência de planejamento, treinamento, intercâmbio, competições de alto nível e investimento continuado. Antes de conquistar o ouro, o país construiu silenciosamente as mãos que o levantariam.

O Brasil, ao contrário, parece aceitar como destino aquilo que é resultado de omissões humanas. Terminar no Top 40 absoluto ou permanecer na faixa intermediária do feminino pode soar razoável diante das condições existentes. O perigo começa quando o razoável se transforma em ambição máxima e a previsão do ranking passa a funcionar como desculpa para não avançar.

No absoluto, os 13 pontos de match revelam uma equipe competitiva, mas incapaz de romper a fronteira que separa os participantes das verdadeiras protagonistas. No feminino, os 11 pontos e a 57ª posição acendem um sinal ainda mais preocupante. O crescimento do xadrez feminino em diversos países não foi acompanhado, no mesmo ritmo, por uma estrutura brasileira capaz de formar, apoiar e reter novas jogadoras.

Os números não são uma sentença contra nossos representantes. São uma acusação contra a ausência de um projeto.

Um país continental, com mais de duzentos milhões de habitantes, não deveria contentar-se em chegar a uma Olimpíada esperando apenas confirmar sua posição de largada. Deveria perguntar quantas crianças estão aprendendo xadrez nas escolas, quantos talentos abandonaram o esporte por falta de apoio, quantos mestres vivem sem condições adequadas de treinamento e quantas enxadristas promissoras desapareceram antes mesmo de alcançar o cenário internacional.

O tabuleiro mundial não espera. A cada Olimpíada, novas forças surgem, antigas escolas se renovam e países antes periféricos ocupam lugares de destaque. Quem permanece imóvel não conserva sua posição: recua.

Em Samarcanda, o Brasil lutou. Houve dedicação, resistência e momentos dignos de aplausos. Entretanto, quando se apagam as luzes da competição, o verdadeiro respeito aos atletas não consiste em ornamentar os resultados com palavras generosas. Consiste em reconhecer que eles mereciam chegar ali amparados por uma estrutura maior, por uma formação mais profunda e por um horizonte menos solitário.

Oito posições perdidas no absoluto. Treze no feminino. Não são abismos irreversíveis, mas são pegadas de um caminho descendente. Se ignoradas, poderão levar o xadrez brasileiro para regiões cada vez mais distantes do protagonismo.

Ainda há tempo de mudar a direção. O Brasil possui tradição, mestres valorosos, professores dedicados e milhares de jovens apaixonados pelas 64 casas. Falta unir esses fragmentos numa política duradoura, capaz de substituir o improviso pela construção e a esperança ocasional pelo planejamento.

Samarcanda mostrou ao mundo que a juventude pode conquistar o ouro quando um país decide caminhar com ela.

Ao Brasil resta uma pergunta incômoda: continuaremos celebrando campanhas “dentro das expectativas” ou finalmente construiremos condições para superá-las?

No xadrez e na vida, não basta proteger o rei quando todo o futuro está sendo lentamente retirado do tabuleiro.

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