sábado, 14 de fevereiro de 2026

Memória: A Rivalidade Saudável entre o Colégio Zélia Gisner e o Colégio Rio Branco na Festa de Agosto

 Com informações de Ana Carolina Boechat 


Arquivo do Espaço Cultural Luciano Bastos 

Esta é uma bela recordação de um tempo em que o asfalto de Bom Jesus do Itabapoana se transformava em um palco de sonhos e rivalidade sadia. Com base no relato fascinante e na memória de Ana Carolina Boechat, foi possível capturar essa atmosfera de sol, orgulho e nostalgia. 

​Ouro sobre Branco: O Agosto Infinito de Bom Jesus

​Houve um tempo em que o sol de 14 de agosto não apenas queimava; ele iluminava o que Bom Jesus tinha de mais precioso. Naquela época, o civismo era apenas o pretexto, a moldura para algo muito maior: o espetáculo. Era o dia em que a poeira da rotina dava lugar ao brilho das alegorias, e a cidade inteira se debruçava sobre a calçada para ver a vida passar em forma de desfile.

​No Colégio Zélia Gisner, a mágica tinha nome e sobrenome: Dr. Hélio Bastos Borges. Com mãos de artista e olhar de mestre, ele transformava o ordinário em fantástico. Disciplina acadêmica e sensibilidade artistuca. Sob sua regência, Jeeps emprestados, humildes veículos do dia a dia, perdiam sua natureza bruta para se tornarem pedestais de luxo. Cada carro alegórico era um triunfo da criatividade sobre o recurso, montado pelo suor e pelo entusiasmo dos alunos que, sob o olhar zeloso e orgulhoso do Dr. Hélio, davam forma às ideias do mestre.

​Quem não se lembra do pelotão de elite? Não eram soldados, eram as mentes brilhantes da escola. Cruzar a rua com a faixa azul e dourado era carregar o peso do primeiro lugar; o rosa e o branco, igualmente entrelaçados no ouro, ostentavam o mérito de quem sabia que estudar era, também, um ato de gala.

​Mas a festa só era completa porque havia o outro lado da moeda. O Colégio Rio Branco surgia no horizonte da rua como o espelho necessário. A rivalidade entre o Zélia e o Rio Branco não era de guerra, era de beleza. Disputada ponto a ponto, nota a nota das bandas que faziam o chão tremer sob os pés das balizas e porta-bandeiras. O bonjesuense, expectador fiel, era o único e verdadeiro juiz que vencia sempre, banhado por aquela explosão de cores.

​E nos bastidores, antes do primeiro toque do tambor, havia a guerra silenciosa e amorosa das mães. O uniforme não podia ser apenas limpo; tinha que ser impecavelmente branco. Era um rito de passagem: os tênis, clareados com Alfaiate, reluziam sob o sol causticante, desafiando qualquer grão de poeira a pousar ali.

​Hoje, os desfiles mudaram de tom, mas na memória de quem viveu, o 14 de agosto permanece congelado naquela imagem: o som da banda se aproximando, o cheiro de tênis novo e o orgulho de ver Dr. Hélio sorrindo para suas criações. Bom Jesus era, por algumas horas, o centro do universo. E nós, vestidos de branco e dourado, éramos os donos do mundo.





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