Varre-Sai é uma colônia italiana. Não colônia no sentido de pertencimento político à Itália, mas de tradições, cultura e herança familiar. Afinal, cerca de cem famílias italianas subiram a Serra da Sapucaia, no lombo de burros, para fazer a América nas terras da Fazenda Bela Vista e no povoado que mais tarde se transformaria em nosso município.
De acordo com o Portal da Prefeitura de Varre-Sai, somos a maior colônia de descendentes de italianos do Estado do Rio de Janeiro. Mais de 70% dos habitantes do município descendem daqueles homens e mulheres corajosos que atravessaram o Oceano Atlântico no final do século XIX e início do século XX, levando consigo pouco mais do que a fé, a esperança e a vontade de trabalhar.
Cada família guarda seu sobrenome como um verdadeiro troféu, uma homenagem aos antepassados que enfrentaram uma longa viagem em vapores como Attività, Agordà, São Gottardo, Andes e Colombo, desembarcando no Rio de Janeiro. Dali, embarcavam na Maria-Fumaça da Estrada de Ferro Leopoldina rumo às fazendas do Alto Noroeste Fluminense, onde começariam uma nova vida.
A família de minha mãe descende do italiano Benedetto Possideli e de sua esposa Maddalena Palombi, pais de Luiz Possideli, que mais tarde se casaria com Ignês Soares. O curioso é que o sobrenome da família aparece de diversas maneiras nos documentos de nosso parentes. Temos Possideli, Possidel, Possodeli e até Possidério, entre tios e primos, variações que provavelmente surgiram conforme o entendimento do escrivão que registrava cada nascimento.
Como forma de manter vivo o sobrenome de nossos ancestrais e prestar-lhes uma homenagem, dei a minha editora o nome de Possideli, como minha mãe ensinou.
Mas havia um mistério que sempre me intrigou. Durante muitos anos, revirando arquivos e listas de passageiros, procurei os nomes de Benedetto e Maddalena no vapor Attività. Era nele que tia Mena dizia que seus avós haviam chegado ao Brasil. Procurei inúmeras vezes e nunca encontrei qualquer registro.
Um primo do Rio de Janeiro chegou até a gravar um vídeo afirmando que talvez eles tivessem vindo clandestinamente, razão pela qual seus nomes não apareciam nas listas de passageiros. Durante muito tempo acreditamos nessa hipótese.
Até que a história deu uma reviravolta.
Um primo de Volta Redonda encontrou uma lista de passageiros do vapor São Gottardo. Ali estavam nomes, idades e a data da viagem, coincidindo perfeitamente com nossos ancestrais.
Segundo o Arquivo Nacional, embarcaram no porto de Gênova e desembarcaram no Rio de Janeiro em 5 de dezembro de 1897:
Pizzutelli Benedetto, 30 anos;
Maddalena, 32 anos;
Figliastra Claudina, 8 anos;
Fig. Luigi, 2 anos.
Foi meu filho, Afonso Henrique, quem desvendou outro detalhe importante da história. Pesquisando o significado da palavra italiana figliastra, descobriu que ela quer dizer enteada. Até então, nunca soubemos que nossa querida tia Clotildes, aquela mesma que salvou o vovô Luiz da morte durante a viagem de navio, era, na verdade, enteada de Benedetto.
Foi também através dessa documentação que descobrimos a cidade natal da família: Priverno, na região do Lázio, na Itália.
Mas a pesquisa trouxe uma surpresa inesperada. O sobrenome aparecia grafado como Pizzutelli.
E agora? Somos Possideli, Possodeli, Possidel, Possidério ou Pizzutelli?
Talvez somente a certidão de nascimento de Benedetto, registrada em Priverno, consiga responder definitivamente essa pergunta e revelar a grafia original de nosso sobrenome.
Uma coisa, porém, já sabemos com certeza: nossos antepassados não vieram clandestinamente. Vieram legalmente, registrados na lista de passageiros do vapor São Gottardo, e não no Attività, como a tradição oral da família repetiu durante tantas décadas.
Depois de mais de um século, finalmente matamos a charada. Agora começa uma nova etapa da pesquisa: localizar, na Itália, a certidão de nascimento de Benedetto.
Enquanto isso, para mim ele continuará sendo Benedetto Possideli. O italiano que fazia vinho de jabuticaba e de uva em seu sítio no Vai e Volta. O sobrenome que minha mãe deixou para trás ao se casar com meu pai, Manoel Menezes, mas que continua vivo na memória da família, na história de Varre-Sai e, agora, também no nome da minha editora.
Porque, às vezes, um sobrenome muda de grafia. Mas nunca deixa de contar a história de quem teve coragem de atravessar um oceano em busca de um novo começo.
Isabel Menezes – professora e historiadora de Varre-Sai






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